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ISTO ESTÁ A FICAR PERIGOSO

por falcao, em 17.11.23

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O ORÇAMENTO E OS IMPOSTOS - Há duas semanas Francisco Assis, Presidente do Conselho Económico e Social e destacado militante do PS, deu uma entrevista ao “Expresso” que merece ser lida com atenção. Permito-me destacar esta ideia: “É errado associar uma reforma fiscal ao processo orçamental. Confundir a questão fiscal com a questão orçamental é negativo, e lembro-me de o Professor Sousa Franco dizer isso quando era Ministro das Finanças. O país deve fazer uma discussão de fundo em matéria fiscal, até para clarificar algumas coisas,  como, por exemplo, qual é a nossa carga fiscal em comparação com outros países europeus e verificar onde se pode mexer”. Mas em Portugal fazer uma reforma estrutural, mesmo em maioria absoluta, é algo sempre adiado. Tenho alguma curiosidade em ver se Francisco Assis mantém esta ideia, agora que é o primeiro apoiante de Pedro Nuno Santos. Por falar em Governo do PS, recordo alguns dados surgidos nas últimas semanas: um estudo da Tax Foundation revela que temos o 2º IRC mais alto de toda a OCDE e sublinha que nos países que crescem mais que Portugal a taxa não ultrapassa os 20%, enquanto cá é de 31,5%; o peso dos impostos e contribuições sociais no PIB deverá atingir os 38% em 2024 depois dos 37,2% este ano, no que será um dos saltos maiores entre os países da moeda única; Portugal teve a quinta maior subida da carga fiscal na UE. E a isto acresce outro dado conhecido nos últimos dias: nos primeiros nove meses do ano, a receita com taxas, multas e outras penalidades passou a fronteira dos 3 mil milhões de euros, o que acontece pela primeira vez no acumulado até ao mês de setembro - trata-se de receita do Estado que engloba as mais diversas taxas e multas e outras penalidades. Não resisto a citar o filósofo, historiador e político Cícero, que no ano 56 AC afirmou: "O Orçamento deve ser  equilibrado, o Tesouro Público deve ser reposto, a dívida pública deve ser reduzida, a arrogância dos funcionários públicos deve ser moderada e controlada e as pessoas devem novamente aprender a trabalhar, em vez de viver às custas do Estado ". 

 

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A ÉTICA - Vá-se lá saber porquê António Costa, que tinha feito uma digna intervenção a anunciar a sua demissão, resolveu estragar a pintura na noite de sábado, na qual basicamente entendeu dizer aos portugueses considerar que os fins justificam os meios e que há amigos nalgumas ocasiões que podem passar a descartáveis na ocasião seguinte. A intervenção serviu para esclarecer a ética que norteia o Primeiro Ministro demissionário. Espero que não tenha havido muita criança a ouvir António Costa na noite de sábado para não ficarem com a ideia que  em política vale tudo. Há uma postura política de ética e respeito pelas pessoas que um estadista deve ter e que, notoriamente, António Costa deu provas de não ter. Não vou repetir evocar a sua predileção por nomes polémicos ligados a Sócrates, por ter o seu “melhor amigo” envolvido em negociações do Estado em dossiers como o da TAP ou por ter tido o Governo com o maior número de casos e menos espírito reformista, apesar da maioria absoluta. Mas fico preocupado quando um Primeiro Ministro mistura a importância do investimento privado com a possibilidade de promiscuidades políticas. Na última semana algumas pessoas descobriram, entre o chocado e o surpreendido, que ter ética é uma condição básica para se estar na política. Devo dizer que estas reflexões sobre ética se aplicam igualmente ao Ministério Público cuja acção levanta reservas. A ética é um bem raro, até Mário Centeno anda à sua procura. Não se queixem se, com cenários assim, os extremos da paisagem política se agudizarem e conseguirem captar mais e mais eleitores. Esta crise beneficia objetivamente os extremos, a começar no Chega e a acabar na nova liderança do Bloco, como aliás indicam as sondagens mais recentes. Aristóteles, que muito pensou e escreveu sobre ética,  dizia que não é a mesma coisa ser-se um bom homem ou ser-se um bom cidadão. E recordava que, sem amigos, a vida pouco interessa mesmo que se tenha tudo o resto. Boa altura para recordar Aristóteles, cuja imagem mais conhecida aqui fica.

 

SEMANADA - Num ano, a banca nacional deixou de ter a sexta oferta de crédito à habitação mais barata da Zona Euro para ter agora a sétima proposta mais cara do espaço da moeda única; quase 40% das empresas portuguesas de media apresentaram resultados líquidos negativos em 2022; as mulheres portuguesas têm pensões 43% mais baixas que os homens; a força aérea só tem 58% dos pilotos previstos e necessários para a realização de operações; o hospital de S. João, no Porto, está a receber doentes de sete hospitais cujas urgências fecharam e, em virtude disso, o número de cirurgias aumentou 128% e o número de partos duplicou; cerca de um quarto dos projetos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) estão com atrasos “preocupantes ou críticos”; em oito anos de governo de António Costa como primeiro-ministro foram constituídos 14 arguidos no Governo e em gabinetes em sete diferentes casos; no espaço de um ano o INEM socorreu 741 jovens com intoxicação alcoólica; neste ano mais de 3500 professores entram na reforma; as exportações portuguesas estão em queda há seis meses consecutivos; o emprego em Portugal ultrapassou os cinco milhões de postos de trabalho pela primeira vez desde 2009 e há mais do dobro de pessoas com ensino secundário e superior a trabalhar do que há dez anos; 62% dos portugueses que contraíram empréstimo para aquisição de casa estão a ter dificuldade em cumprir os pagamentos.

 

O ARCO DA VELHA - Quando apresentou a sua demissão, João Galamba considerou que ainda tinha condições políticas para continuar como Ministro e invocou razões familiares para a saída do Governo.

 

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O AZULEJO  - Andreas Stöcklein nasceu na Alemanha, cresceu em Angola, estudou em Dusseldorf, descobriu a Arrábida em 1982, em 1983 fixou-se em Portugal e dedicou-se à utilização do azulejo como matéria prima da sua criatividade artística. Para assinalar os 40 anos do seu trabalho entre nós, a Galeria Ratton, especializada em azulejo, e com quem Stöcklein trabalha regularmente, organizou duas exposições. Uma, na própria Ratton, sob o título “O Outro Lugar . Conversas Intimas”, que além de trabalhos em azulejo, isolados e em painel, inclui pintura e desenho. E, no Museu do Azulejo, em Lisboa, apresenta uma exposição antológica, “Sobre a Linha do Horizonte – Andreas Stöcklein na Colecção Ratton” com quatro dezenas de painéis de diversas épocas do seu percurso, e uma instalação (na imagem), intitulada “O Estaleiro do Tempo”, concebida especialmente para esta ocasião. Alexandre Nobre Pais, director do Museu do Azulejo, considera que Andreas Stöcklein é um dos mais importantes artistas a trabalhar na atualidade o azulejo em Portugal. Outros destaques: Na Fidelidade Arte, em Lisboa, no Chiado, apresenta-se até 5 de Janeiro a quarta etapa do ciclo “Território”, com curadoria de Frederico Duarte e Vera Sacchetti, que inclui  uma revista de design, a "Fazer#1". Na Galeria Fernando Santos, no Porto, até final do ano podem ser vistas duas exposições no âmbito das comemorações dos seus 30 anos de existência: uma colectiva com obras recentes de artistas que têm estado ligados à Galeria e, na Project Room, uma mostra individual de fotografia de Pedro Lobo.

 

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DYLAN REVISITADO - No ano passado Cat Power, Chan Marshall de seu nome, realizou um concerto no Royal Albert Hall, de Londres, onde replicou o espectáculo que Bob Dylan fez em 1966 no Manchester Free Trade Hall e que, por erro da edição pirata da gravação, surgia como tendo decorrido no Royal Albert Hall. Localizações à parte, Cat Power retoma os 15 temas desse concerto, pela mesma ordem. Vale a pena destacar as suas interpretações de “She Belongs To Me”, de “Ballad Of A Thin Man” ou “Desolation Row”. Sete das versões são acústicas e oito são eléctricas, algumas mais conseguidas que outras, mas regra geral a revelarem a conhecida capacidade de Cat Power em trabalhar repertório de outros artistas. Aliás ela tem três discos com versões, “The Covers Record” de 2000, “Jukebox” de 2008 e “Covers” de 2022, todos de estúdio, enquanto este novo disco resulta de uma gravação ao vivo. As maiores diferenças em relação a Dylan nascem nas canções onde a cumplicidade entre Dylan e The Band era mais notória, mas há casos em que a versão de Cat Power parece ainda mais certeira que o original - por exemplo em “Mr Tambourine Man”. Outro desafio que correu bem foi “Desolation Row”, um minuto mais longa que no original. De uma forma geral Cat Power faz alongar as palavras, como Dylan fazia nessa época, o que provoca ainda mais um sentimento de autenticidade a estas novas versões. A terminar, na derradeira faixa, “Like A Rolling Stone”, Cat Power distancia-se da interpretação de Dylan, é menos directa e intensa e introduz uma quase melancolia sobre a evocação da época em que a canção foi escrita.  “Cat Power Sings Dylan” está disponível nas plataformas de streaming.

 

A CASSATA  - Com a temperatura política a subir nada como um gelado para refrescar as ideias. Devo confessar que uma das minhas preferências em matéria de gelados vai para  cassata napolitana, e aquela de que mais gosto em Lisboa é a da La Fabbrica, a antiga fábrica de gelados da Avenida de Berna, fundada em 1933. Hoje em dia mudou de sítio, mas as receitas originais mantêm-se e é ainda um descendente da família fundadora, italiana, que a dirige. A cassata da La Fabbrica é meia esfera de gelado enformado, constituída por várias camadas: de fora para dentro encontra gelado de baunilha, gelado de chocolate, gelado de morango e nata batida com fruta cristalizada e, na base, nata batida com amêndoa torrada moída. Reza a lenda que a forma da cassata napolitana, a meia esfera, é uma evocação do seio da mulher - não sei se hoje em dia será politicamente correcto dizer isto. Adiante. Em La Fabbrica pode comprar a cassata inteira, às metades ou quartos ou, se passar pelo local e lhe apetecer, pode simplesmente deliciar-se com uma fatia, que foi o que eu fiz. La Fabbrica Rua Filipa de Vilhena 14 A, telefone 21 759 03 60.

 

DIXIT - “É o maior desbaratamento da história da democracia portuguesa. O Governo tinha tudo o que era preciso. Um Primeiro Ministro hábil e habilidoso. Uma maioria absoluta. Um partido de Governo coeso e unido. Um Presidente da República cooperante e colaborador como nunca se tinha visto” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - ”Nos negócios não existem amigos, apenas clientes” - Alexandre Dumas




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