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A INJUSTIÇA - Antes de 1974 a justiça serviu descaradamente o poder político, protegendo o Governo e combatendo a oposição. Nos últimos 50 anos a situação foi-se invertendo progressivamente, até se chegar ao actual estado das coisas, em que a justiça tenta - e por vezes consegue - competir com o poder político,  querendo ultrapassar a legitimidade do voto. Justiça e política andam de mãos dadas em Portugal há muitas décadas, mesmo que por vezes a posição relativa de ambas se inverta. Aquilo a que assistimos hoje é a um misto de arrogância, incapacidade e ineficácia, com abuso de direitos por quem os devia defender. O equilíbrio entre a defesa e os direitos dos magistrados e dos cidadãos deixa estes últimos à mercê do subjectivo. Decisões contraditórias, prazos rebentados, sentenças polémicas, o rol é extenso. Como António Barreto sublinhou há dias: “De todas as suas decisões, os magistrados deveriam esclarecer, argumentar e prestar contas. Mas não o fazem. Julgam ser seu direito não o fazer. Consideram que as sentenças e os acórdãos bastam – o que não é verdade.” Os magistrados confundem demasiadas vezes independência com autogestão e desresponsabilização. Há uns que cultivam o estrelato e a sua mediatização. Assistimos regularmente a operações que são mais perseguições que investigações, situações criadas para mostrar nas televisões buscas em directo. Insinuam-se acusações, não se faz depois o balanço do que aconteceu para que os processos ruíssem. Aos poucos vamos desacreditando dos tribunais, desconfiando dos juízes. Ao fim de 50 anos de democracia, muita coisa melhorou, excepto uma - continuamos a ter uma justiça que levanta suspeita. Não é bom sinal e é o problema estrutural mais sério da nossa democracia.

 

SEMANADA - Um estudo recente indica que o 25 de Abril de 1974 é considerado o dia mais importante da História de Portugal para 65% dos portugueses; no mesmo estudo, promovido pelo ICS/ISCTE ,  56% dos inquiridos consideram que se devem celebrar as datas de 25 de Abril e 25 de Novembro; Salazar, Salgueiro Maia, Mário Soares, Otelo e Ramalho Eanes são, por esta ordem os cinco nomes de figuras públicas que os portugueses mais associam à época do 25 de Abril; um em cada três empréstimos à habitação tem risco de incumprimento; desde 2021 já se verificaram 127 mortos em acidentes de tractor; nos últimos cinco anos foram registados 5600 processos de contraordenação por crimes ambientais; desde o início da Legislatura (que começou a 26 de março), já deram entrada nos serviços parlamentares 122 iniciativas legislativas; a Iniciativa Liberal (IL) é o partido que mais projetos de lei produziu (21), seguido pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP; a procura de estabelecimentos de ensino privados tem vindo a aumentar e as principais razões apontadas pelos encarregados de educação para não quererem as escolas públicas são falta de professores, más condições físicas dos edifícios  e sentimento de insegurança nos recreios por falta de assistentes operacionais; a agência anticorrupção, criada em 2023, tem menos de metade do seu quadro preenchido, só executou 37% do orçamento que lhe foi atribuído e até agora não aplicou qualquer multa; uma sondagem recente indica que a  ausência de resultados no combate à corrupção constitui a maior desilusão dos portugueses com a política.

 

ARCO DA VELHA - O pior retrato da evolução do regime e da opinião que os cidadãos têm sobre ele é o estudo do ISCSP que indica que, hoje em dia, 47% dos portugueses apoiariam um “governo de um líder forte, que não tenha de se preocupar com eleições”.

 

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HÁ FESTA NA CENTRAL  - “Hoje soube-me a pouco”, título de uma canção de Sérgio Godinho,  foi o nome escolhido para uma exposição que assinala os 50 anos do 25 de Abril de 1974, e que está patente no edifício da Central Tejo, do MAAT, até 26 de Agosto. A exposição reúne os trabalhos de cerca de 40 artistas, a maioria provenientes da colecção da Fundação EDP, outros de colecções privadas e institucionais, além de duas obras inéditas feitas propositadamente para esta ocasião: uma escultura de Inês Botelho, intitulada  “A revolucionada estática e a revolucionada revolucionária”, e uma pintura de Pedro Cabrita Reis, “Prometheus V”, um óleo sobre tela de grandes dimensões, pintado já em Abril deste ano (na imagem). Prometheus, um dos gigantes Titãs da mitologia grega, é um símbolo de revolta e liberdade. A exposição inclui várias das principais figuras da arte contemporânea portuguesa dos anos 1970 e 80, cruzando gerações, com nomes que vão de Ana Jotta a Gabriel Abrantes, passando por Maria Beatriz, Carlos Bunga, Fernando Calhau, Alberto Carneiro, Pedro Casqueiro, Lourdes Castro, Rui Chafes, Patrícia Garrido, Álvaro Lapa, José Loureiro, Paulo Nozolino, António Palolo, Paula Rego, Julião Sarmento, Ângelo de Sousa e Xana, entre muitos outros. Na parede de entrada os visitantes são acolhidos por uma montagem livre de obras de desenho, aguarela, pintura, colagem e vídeo, todas produzidas num período curto que abarca o antes e o depois do 25 de Abril de 1974. Nessa parede, que inclui trabalhos de Júlio Pomar, José Escada, António Sena, Eduardo Batarda, Jorge Martins e Ana Hatherly, entre outros, algumas obras fazem referência directa ao golpe de estado que derrubou a ditadura, outras surgem como comentários e outras ainda são testemunhos de alegria e esperança. A curadoria da exposição é de João Pinharanda e Sérgio Mah.

 

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ROTEIRO - Até 20 de Dezembro poderá ver no Palácio Anjos, em Algés, a maior exposição da obra de João Abel Manta, um dos maiores cartoonistas portugueses que antes e depois de 1974 publicou regularmente trabalhos emblemáticos da situação político-social portuguesa em jornais como o “Diário de Lisboa”, “Diário de Notícias” e “O Jornal”. Aqui reproduzimos um desses trabalhos, “Um Problema Difícil”, no qual um grupo de figuras, de Marx a Lenine, passando por Gandhi ou Sartre se interrogam perante um pequeno mapa de Portugal. Arquitecto de formação, cartoonista por paixão, João Abel Manta desenvolveu ao longo dos anos um trabalho pluridisciplinar  que englobou pintura, desenho, ilustração, design gráfico, concepção de painéis de azulejos e tapeçarias, cenografia e figurinismo para teatro. A exposição mostra muitos trabalhos inéditos do arquivo pessoal do artista. Em Coimbra, até 30 de Junho, no Convento de Santa Clara A Nova e noutros espaços da cidade, decorre a 5ª edição da Bienal, este ano sob o título “Fantasma da Liberdade”. Com curadoria de  Ángel Calvo Ulloa e Marta Mestre a Bienal decorre em torno da ideia de liberdade e as estratégias da arte contemporânea para a desafiar. Finalmente, de regresso a Lisboa, “Amor I Love You” é o título da exposição que reúne quatro dezenas de trabalhos de 13 artistas, entre os quais Sara Bichão, Nádia Duvall, Daniela Krtsch e Carla Cubanas, entre outros, que ficará exposta até 8 de Junho na Galeria P28, Pavilhão 31 do complexo do Hospital Júlio de Matos.

 

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O POETA DE PORTUGAL  - Esta é uma boa semana para falar da indiferença com que o Estado português tem encarado o quinto centenário do nascimento de Luís Vaz de Camões, o grande poeta da epopeia dos descobrimentos, uma das maiores figuras da literatura portuguesa e um dos grandes poetas da tradição ocidental. O vento de reescrita da História que varre muitos bens pensantes leva-os a querer ignorar Camões. Boa altura portanto para ler o que sobre Camões escreveu  uma das maiores figuras intelectuais do Portugal do século XX, insuspeito de ser simpatizante do regime anterior. Jorge de Sena fez vários ensaios sobre o poeta, agora reunidos num livro intitulado “O Pensamento de Camões”. O Camões que Jorge de Sena nos oferece é um Camões oposto ao das leituras dos políticos. O que Jorge de Sena faz, como se tivesse previsto o que iria acontecer em 2024, é resgatar Camões da actual perseguição ideológica, para mostrar aos leitores um poeta de uma grande erudição, «o maior poeta em português». No livro “O Pensamento de Camões”, que recupera quatro textos de Sena ele afirma que a lírica camoniana «transcende em muito o âmbito nacional de um destino histórico não-cumprido do seu mais alto sentido, para ser, na verdade, um aviso e um apelo que se dirige a toda a Humanidade». Jorge de Sena ensina-nos que Camões «deve ser lido nas entrelinhas e como um nosso contemporâneo»  e mostra-nos  um Camões  acima da pequenez de orgulhos nacionalistas e piedade cristã. Um Camões que nos fala «como só grandes poetas falam, acerca de angústias, esperanças e desesperos muito parecidos com os de hoje». Edição Guerra & Paz, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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A MUDANÇA - Hoje trago um disco de 1971, reeditado em 2017, actualmente disponível nas plataformas de streaming, que foi um marco na música popular portuguesa. Trata-se do álbum “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se as Vontades”, de José Mário Branco. O nome é inspirado num poema de Camões, mote para uma canção que é a última faixa do disco. Álbum de estreia de José Mário Branco, então exilado em França, conta com poemas de Natália Correia (“Queixa Das Almas Jovens Censuradas”), de Alexandre OŃeill (“Perfilados de Medo”), do já citado poema de Camões, dois do próprio José Mário Branco (destaco “Nevoeiro”) e de quatro de Sérgio Godinho (dos quais destaco “O Charlatão”). Pelas palavras cantadas neste disco respirava-se o desejo de mudança, o diferente correr dos tempos, conjugando a lírica de Camões com um país que já estava sobressaltado. Musicalmente o disco era uma revolução, arranjos completamente diferentes do que era usual, na época, na música portuguesa. Não por acaso, no mesmo ano, coube a José Mário Branco fazer a produção e os arranjos de “Cantigas de Maio”, de José Afonso, no mesmo estúdio francês, em Hérouville, onde tinha sido também gravado “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades”. E era neste “Cantigas de Maio” que estava “Grândola Vila Morena”, um arranjo igualmente inesperado, canção que para sempre havia de ficar ligada ao 25 de Abril. José Mário Branco gravou muitos outros discos (destaco “Ser Solidário” e essa canção extraordinária que é “Inquietação”), fez bandas sonoras para teatro e cinema, foi um dos mais importantes produtores responsáveis pela reformulação do fado, nomeadamente graças ao seu trabalho com Camané. 

 

DIXIT - “Em Portugal somos excelentes a respeitar todas as liberdades e garantias, menos esta: que se faça justiça em tempo útil para quem é rico e poderoso” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - “A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos.” —  Charles Louis Montesquieu 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

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