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MANUAL DE COMO DESTRUIR NOTÍCIAS

por falcao, em 25.11.22

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FAKE NEWS - O primeiro-ministro António Costa considera-se perseguido por fake news - e não estou a falar da distracção lateral sobre facturas de refeições. Falo de outras situações - nomeadamente da forma como o Costa governante fala do livro sobre o ex Governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, onde ele afirma ter sido pressionado pelo primeiro-ministro a propósito de Isabel dos Santos. Mas há mais: já este mês surgiu o célebre caso de Miguel Alves, sobre o qual, até ao momento em que escrevo este artigo, o primeiro-ministro nada disse. Fica-se obviamente na dúvida sobre se considera que Miguel Alves esteve bem, ou se tudo o que surgiu se resumia a um amontoado de fake news. As revelações destes dois casos devem-se a dois dos melhores jornalistas de investigação que temos - António Cerejo, do “Público”, no caso de Miguel Alves, e Luís Rosa, do “Observador”, no caso de Carlos Costa. Estes são apenas dois temas recentes, mas há um padrão em António Costa quando surgem acusações: negar, evitar responder, mudar de assunto. O seu comportamento, que sempre foi esquivo em relação a esclarecer situações complicadas, agravou-se desde que tem maioria absoluta. Reconheça-se que não está sozinho nesta tarefa de ocultação. Arrisco-me quase a dizer que nestes casos é seguido o velho lema “o segredo é a alma do negócio”. Houve mesmo neste processo uns guardiões do templo que se insurgiram contra as investigações a Miguel Alves e outros que não acharam de todo adequado que alguém revele o que se passou enquanto teve responsabilidades - coisa usual numa série de países onde fazer o balanço público da actuação faz parte daquilo que se espera que aconteça. Aqui, prefere-se a ocultação. O actual governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, que foi recordado do que aconteceu no caso do Banif quando era ministro das finanças, veio em defesa de Costa dizer que é “preciso respeitar as instituições que se representam não só enquanto se está no cargo mas, também, quando se abandonam essas funções”. Como escreveu João Miguel Tavares, “o mais interessante na polémica entre os dois Costas é aquilo que esse episódio revela da forma como o primeiro-ministro exerce o poder.” Ele, e os que o ajudam, acrescento eu.


SEMANADA - Cada português produz 511 kgs de lixo por ano; os empréstimos para comprar carro já atingiram o valor de seis milhões de euros por dia e em cada dez milhões de crédito, oito destinam-se à aquisição de carros usados; este ano já se registaram 397 casos de atropelamento com fuga dos condutores; entre os dias 14 e 21 de Novembro foram detectados quase 12 mil condutores em excesso de velocidade e registaram-se 2935 acidentes com vítimas, que causaram, sete mortos, 41 feridos graves e 772 feridos ligeiros; Lisboa e Cascais são os dois únicos do país com roteiro para alcançar as metas da descarbonização; os salários na banca e seguros caíram 22,7% desde 2015 e o sector financeiro foi o que teve a maior perda de poder de compra; o preço médio das casas em Portugal aumentou 19,5% num ano; em Setembro e Outubro inscreveram-se nos centros de emprego mais de 50 mil pessoas por mês, o que não acontecia desde Outubro de 2020;  João Cravinho criticou a proposta de revisão constitucional do PS por ser omissa em relação à questão da regionalização; a OCDE alertou para a existência de riscos de atraso na execução do PRR; Mário Centeno reconheceu que o PRR podia estar a andar mais rápido; este ano os acidentes de trabalho já provocaram 94 mortes e 247 feridos; na Zona Euro a taxa de juro dos depósitos até um ano está nos 0,56%, enquanto em Portugal está nos 0,05%, ou seja,a média da Zona Euro é 11 vezes mais alta que em Portugal.

 

O ARCO DA VELHA - Um estudo realizado entre 2018 e 2019 revela que 257 pessoas recorreram às urgências de ortopedia do Hospital de S. José, devido a incidentes com trotinetas, e a PSP já registou este ano quase 500 acidentes com trotinetas.

 

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OBRAS CRUZADAS - O destaque desta semana vai para a nova exposição do Atelier-Museu Júlio Pomar, que junta obras de Júlio Pomar às de três artistas contemporâneos: André Romão, Jorge Queiroz e Susanne Themlitz. Estes três artistas foram convidados por Sara Antónia Matos, directora do atelier-museu e curadora da exposição, a estabelecerem um diálogo com as obras de Júlio Pomar, sob a designação “Em Matéria de Matérias Primas”, título extraído de um texto do próprio Pomar  para o seu livro “Autobiografia”, em 2004. As obras de Pomar que estão expostas são um conjunto de pinturas da série “Mascarados de Pirenópolis”, realizadas em 1987-1988, após uma estada do pintor no Brasil onde, precisamente em Pirenópolis, assistiu às Festas do Divino Espírito Santo. E é essa celebração de rua, em que os habitantes da terra montam, mascarados, cavalos enfeitados, que Pomar usou como inspiração. Nesta exposição estão patentes vários quadros dessa série (talvez o maior conjunto reunido nos últimos anos), que permitem ver o trabalho de uma época particularmente interessante de Júlio Pomar, em obras transbordantes de energia que o artista soube transmitir  (na imagem). Já agora deixo a nota de que na Galeria Artur Bual/Casa Aprígio Gomes, na Amadora, está patente a exposição “Júlio Pomar - A Mão que Vê”. Outros destaques da semana: na Cristina Guerra Contemporary Art pode ser vista até 7 de Janeiro uma exposição colectiva com curadoria de Sérgio Mah e que agrupa obras de Sérgio Carronha (escultura), Fernão Cruz (pintura), Francisca Carvalho e Gonçalo Pena (desenho). Em Cascais, na Casa de Histórias Paula Rego, a nova exposição, com curadoria de Catarina Alfaro, é centrada na actividade da artista nos anos 70 e tem por título “Histórias de Todos os Dias”, e inclui desenhos a tinta da china que evocam as suas memórias infantis e juvenis.

 

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HISTÓRIAS DE BATALHAS - Hoje recomendo-vos as aventuras de Beowulf, contadas no mais longo poema heróico composto em Inglaterra e o mais antigo das línguas modernas da Europa. Desconhece-se o autor original de Beowulf, embora se reconheça que tenha sido produzido no período anglo-saxónico (449-1066), com base, provavelmente, na tradição oral deste tipo de histórias. O único manuscrito disponível, descoberto no século XVIII, tem a marca caligráfica de dois monges copistas. A obra narra as façanhas do grande herói Beowulf, desde a sua juventude até se tornar rei em idade adulta, detendo-se nas batalhas que trava contra três criaturas monstruosas: Grendel e sua mãe, que habitam zonas ermas e pantanosas, e um dragão cuspidor de fogo que põe em risco a existência do seu povo. Menosprezado durante muitos anos após ser descoberto no século XVIII, foi J. R. R. Tolkien quem elevou o texto a obra-prima da literatura ocidental, usando-o como inspiração para a sua famosa trilogia O Senhor dos Anéis. Pela primeira vez esta obra foi agora editada em português europeu, numa tradução de Angélica Varandas e Luísa Azuaga a partir do inglês antigo, língua original em que foi escrita. “Beowulf” é uma edição da Assírio & Alvim.

 

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MIX INTERCONTINENTAL - Que disco pode acontecer quando um trompetista nascido no Líbano, que cresceu em França e é fã de hip-hop e Rhythm & Blues, que estudou música clássica, tem tocado em formações de jazz e que é influenciado pela música do médio oriente, junta uma dúzia de convidados especiais? O resultado é um disco surpreendente, o álbum “Capacity To Love” de Ibrahim Maalouf. Ao longo de quase uma hora, e espalhados pelos 15 temas do álbum, estão participações originais e gravações recuperadas de nomes como Charlie Chaplin ( gravação de um dos seus discursos em The Great Dictator), a brasileira Flávia Coelho a cantar em espanhol numa faixa produzida por  Tony Romero, Alemeda, De La Soul, o cubano Cimafunk acompanhado pelos Tank and The Bangas de Nova Orleans, os rappers Erick the Architect e D Smoke, o músico francês  -M- (Matthieu Chedid) com a cantora americana Sheléa, Dear Silas, JP Cooper, Gregory Porter, Sharon Stone e Austin Brown. Quase no fim do álbum, no tema “Our Flag” surge a voz da actriz Sharon Stone a declamar um poema que ela própria escreveu sobre o estado do mundo, e sobretudo o estado da América, dito de forma arrebatadora, com o trompete de Maalouf a tecer o fundo sonoro de forma intensa. Ibrahim Maalouf  consegue fundir vários géneros musicais e estabelecer diálogo com músicos de muitas origens e estilos, sempre com o seu trompete a surgir como um farol que vai guiando o percurso musical. “Capacity To Love” está disponível nas plataformas de streaming.

 

PROVAR - A semana de divulgação das novas distinções do Guia Michelin em matéria de restaurantes lusitanos é uma boa ocasião para reflectir sobre o sector. Comecemos pelo básico: não falo aqui dos locais onde se vai encher o bandulho, alguns muito estimáveis aliás e, numa boa percentagem, onde se praticam velhas receitas caseiras sem recurso a pré-preparados nem congelados. Foco-me naqueles dias em que me apetece ir para um restaurante descansado, para conversar, ver as vistas, não ter que pensar no que vou cozinhar e menos ainda em levantar a loiça ou pô-la na máquina. Note-se que faço isso muitas vezes, sem sacrifício e até com gosto: cozinhar descontrai-me. Mas às vezes gosto de me sentar, escolher com calma, saborear devagar e poder provar aquilo que normalmente eu próprio não faço. Mas há coisas que me desagradam. A primeira é restaurantes que privilegiam o conceito à comida que servem e ao serviço que oferecem; a segunda é restaurantes com má iluminação, ar condicionado que arrefece o pescoço, má acústica agravada por uma banda sonora de pôr os cabelos em pé e a cabeça à razão de juros. Também me desagradam os sítios onde, quando tenho que ir à casa de banho, fico a olhar para a sinalização das portas como se estivesse a resolver um enigma cabalístico. E não gosto de locais onde é preciso lançar foguetes luminosos para conseguir a atenção de um empregado, que tem o olhar perdido no horizonte em vez de estar atento aos clientes. Tudo isto são coisas que estragam uma refeição. Para a semana continuo com outros capítulos.

 

DIXIT - “Até quando deixaremos que a «ética republicana» se tenha transformado num manual de emprego privilegiado, num salmo para ajuste directo, numa regra para encomendas familiares e um tratado de recrutamento preferencial” - António Barreto.

 

BACK TO BASICS - “Quem trabalha sentado geralmente ganha mais do que quem trabalha de pé” - Ogden Nash

 

 

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