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O NOSSO RETRATO - Segundo o Eurobarómetro de Outubro deste ano, divulgado há dias pela Comissão Europeia, os portugueses são dos europeus mais críticos da carga fiscal no seu país, ficando apenas atrás da Estónia e Lituânia neste parâmetro. A avaliação da situação económica é das mais baixas entre os congéneres europeus e a subida do custo de vida é a principal preocupação. A confiança no Governo e no Parlamento sofreu a maior quebra de toda a Europa face ao mesmo período do ano passado. Quando foram questionados  sobre como avaliam a atual situação económica do país, oito em cada dez portugueses responderam com insatisfação. Os resultados do estudo mostram que os portugueses são os segundos mais pessimistas de toda a UE, ficando apenas atrás da Grécia. Mas esta desesperança não é exclusiva dos portugueses. Se olharmos para um outro estudo, desta vez efectuado na Dinamarca, 73% dos inquiridos são da opinião que os políticos têm falta de visão e 75% que serão incapazes de resolver problemas estruturais a médio-longo prazo. Uma percentagem ainda maior de dinamarqueses, 82%, pensa que as decisões dos políticos actuais são apenas paliativos de curto-médio prazo, mas que não resolvem as questões de fundo que podem contribuir para a melhoria de vida das pessoas. Aquilo que é mais interessante é que 72% das pessoas inquiridas manifesta a opinião de que a sua apreciação sobre os políticos e os partidos poderia melhorar de forma substancial se surgissem visões e estratégias consistentes de desenvolvimento a longo prazo. Quando olho para estes resultados - o dos portugueses e o dos dinamarqueses, tenho a mesma sensação: a política degradou-se, o sistema partidário está insolvente e abre o caminho a populismos que apregoam salvadores ocos de ideias mas abundantes em verborreia como aqui acontece com André Ventura. O espírito reformista que caracterizava alguns partidos, o desígnio de fazer um país melhor, está desaparecido em combate. Nas próximas eleições vamos ver o resultado disto.

 

SEMANADA - As rendas na grande Lisboa são 34% mais caras que no Porto;  aumentou o peso das despesas com habitação e agora representam mais de um terço do total do orçamento das famílias; quase uma dezena de associações de natureza recreativa, social, regional e cultural de Lisboa foram despejadas nos últimos anos; no Algarve há 200 mil casas vazias destinadas a alojamento turístico e registam-se 10 mil casos de pessoas com “absoluta necessidade” de uma casa; segundo o Fundo Monetário Internacional a taxa de sobrevalorização das casas em Portugal é de 20%; em Julho, Agosto e Setembro foram vendidas em Portugal menos 19% que casas que no mesmo trimestre do ano anterior; este ano aposentaram-se mais de 800 médicos do Serviço Nacional de Saúde, o maior numero dos últimos anos, ultrapassando em muito as previsões do Governo; segundo o presidente da Associação Portuguesa de Admnistradores Hospitalares, Xavier Barreto, existiam estudos que indicavam que o pico das aposentações aconteceria agora, mas nada foi feito com tempo para minorar o efeito de todas estas saídas; apenas metade das unidades de urgências hospitalares estarão a funcionar em pleno na última semana do ano; há seis distritos sem camas de cuidados paliativos hospitalares;  os resultados das provas de aferição  do  2º, 5º e 8º ano de escolaridade revelam graves deficiências de aprendizagem em matérias fundamentais como português e matemática, com 50% dos alunos a manifestarem fortes dificuldades nas provas efetuadas; um estudo recente indica que existem mais 48% de casos de violência escolar do que se pensava, com uma  média de 9051 casos por ano, 65% dos quais de natureza criminal; em 2023 registaram-se 160 rondas de despedimentos em empresas tecnológicas em Portugal, mais 150% que em 2022.

 

O ARCO DA VELHA - Apesar de terem existido fiscalizações que apontavam para graves irregularidades na Misericórdia de Idanha A Nova, algumas desde 2008, a Segurança Social fechou os olhos e não aplicou as sanções devidas.

 

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A DIVERSIDADE DE UM ARQUITECTO - Para assinalar o centenário do nascimento de Fernando Lanhas (na imagem) podem ser vistas até Março duas exposições evocativas da sua obra, uma no Porto, na Fundação de Serralves e outra no Centro de Artes Visuais, de Coimbra. Fernando Lanhas é considerado uma das figuras mais destacadas da arte portuguesa do século XX e a sua pintura foi pioneira na introdução do abstracionismo geométrico em Portugal a partir de meados dos anos 1940. Arquiteto de formação, Lanhas trabalhou outras áreas como a pintura, o desenho, a arqueologia, a botânica, a astronomia, a etnologia, a museografia, assim como a escrita poética e ficcional. A exposição de Serralves reúne um núcleo muito significativo de obras suas, quer da Coleção de Serralves, quer do depósito da sua obra acordado ao longo de mais de vinte anos em diálogo com o artista. Com o título “Fernando Lanhas, o Homem é fenómeno magistral”, frase retirada de um seu escrito de 2000, a exposição  mostra a multiplicidade de áreas que o artista explorou e permite compreender a diversidade e coerência da sua obra. A curadoria é de Marta Moreira de Almeida, diretora-adjunta do Museu de Serralves. Em Coimbra o Centro de Artes Visuais apresenta “Sabe o que não sabes”, com curadoria de Miguel Von Hafe Pérez, cobre também as várias áreas de intervenção do artista e é composta por um núcleo maioritário de obras que vieram diretamente de sua casa, em atenciosa colaboração com o filho Pedro Lanhas. 

 

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CUMPLICIDADES MUSICAIS  - Para o jornal britânico “The Guardian” o melhor disco de música do mundo de 2023 é “Love In Exile”, de Arooj Aftab, Vijay Iyer e Shahzad Ismaily, respectivamente na voz, piano e produção e baixo. Como o jornal sublinha este disco é a prova de que não é preciso muito, para além de talento, para fazer um disco de sonoridade única, intimista e envolvente. Aroof Aftab é uma cantora de origem paquistanesa que vive nos Estados Unidos e tem trabalhado sempre com recursos musicais minimalistas. “Love In Exile” é o seu quarto disco e o anterior, “Vulture Prince”, ganhou um Grammy em 2021. No novo trabalho, editado no primeiro trimestre deste ano, ela juntou-se ao pianista de jazz Vijay Iyer e ao multi-instrumentista Shahzad Ismaily que desenharam paisagens sonoras perfeitas para a voz de Aroof Aftab. O disco incluiu sete temas, tem cerca de uma hora e um quarto e de cada vez que a voz de Aftab se faz ouvir o efeito é surpreendente, pela conexão que consegue estabelecer com os músicos e pela forma como a sua voz se assume ela própria como instrumento musical que complementa o trabalho de Iyer e Ismaily sem o ofuscar. Este é um exemplo de como um trio tão diverso pode partilhar de forma intensa um mesmo sentimento musical num ambiente de grande tranquilidade e cumplicidade . Disponível nas plataformas de streaming.

 

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POEMAS - Li vários romances de Roberto Bolaño e deixei-me entusiasmar, em quase todos eles, pela sua escrita. Nunca tinha lido os seus poemas e isso é o que faço desde há alguns dias. Escolhi falar hoje de “Poesia Completa”, editado recentemente em Portugal, porque é provavelmente o livro que mais me marcou neste ano. Este não é um livro de quadras soltas nem de rimas fáceis. Tem a outra dimensão da poesia, a que vem da ligação entre os sentimentos, a observação e a forma como as palavras se podem encaixar em tudo. Aqui estão poemas escritos em prosa, histórias em verso, fragmentos, frases e palavras que se juntam e que não sabemos bem o que podem ser até as lermos e nos tocarem, desde as mais simples às mais duras, desde olhar para uma rua ou recordar uma paixão. Manuel Villas escreve no prólogo desta edição que há muito desespero e desamparo na forma como Roberto Bolaño encara a  poesia: «Bolaño estava obcecado pelos poetas, porque eram os únicos a resistir ao dinheiro. Os poetas não tinham dinheiro, mas tinham conhecimentos.» Cada página é uma descoberta, desde os poemas escritos quando o autor trabalhava como guarda-nocturno num Parque de Campismo, uma escrita onde a influência de William Burroughs é abertamente assumida, até aos seus momentos mais difíceis, como quando esteve hospitalizado, ou aqueles onde procurou os lugares secretos das cidades, dos quais muitas vezes não se fala e sobre os quais muito menos se escreve poesia. “Imagina a situação: a desconhecida esconde-se no patamar da escada” - começa assim o poema em prosa “os motociclistas”, uma página de aventura, a meio do livro. Muitos destes poemas são profundamente autobiográficos, tal como muita da sua ficção - uma vida inquieta e de mudanças. Roberto Bolaño, chileno, nascido em 1953, aos 15 anos foi viver para o México e depois fixou-se em Espanha, em Barcelona,onde morreu em 2003, tinha 50 anos. A tradução, exemplar, é de Carlos Vaz Marques e a edição é da Quetzal.


PARA SAIR DO PERU - Descansem que hoje não venho falar de aproveitar restos de peru - embora umas fatias finas do peito do animal fiquem bem numa sanduíche de fatias de pão de centeio barradas de mostarda. Deixemos para trás o que sobrou e vamos ao supermercado procurar gambas de bom tamanho, funcho, arroz para risotto, limão e rúcula. Para o risotto siga o método clássico, um leve refogado de base, mas em vez de cebola use um bolbo de funcho finamente picado, a seguir frite o arroz durante dois minutos, adicione um copo de vinho branco e continue mexer até evaporar e depois vá juntando aos poucos o caldo de legumes previamente preparado. Quando o arroz tiver consumido quase todo o caldo adicione os camarões e vigie-os atentamente até começarem a ficar rosados. Nessa altura  adicione o sumo e a raspa da casca de um  limão e uma colher de sopa de manteiga, deixe mais um minuto em lume brando, adicione uma boa quantidade de rúcula, desligue o lume e tape o tacho, deixando repousar o risotto durante três minutos. Está pronto a servir e acabou de sair das tradições gastronómicas de natal. Aconselho o Greco di Tufo, um branco de uma casta de uvas do sul de Itália, plantada na Quinta da Bacalhoa há uns anos, e que liga muito bem com este prato.

 

DIXIT - “ A linguagem política tem-se transformado, ao longo das últimas décadas, numa torrente palavrosa sem significado” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “As pessoas podem perdoar-te por estares enganado, mas jamais te perdoarão por estares certo - especialmente se os acontecimentos mostrarem que estás certo ao mesmo tempo que mostram que elas estão erradas” - Thomas Sowell.

 



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