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O SONO - Ao contrário do que o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, prometeu em novembro do ano passado, e apesar da aprovação pelo Governo, em Março, de uma portaria que proibiria os voos no aeroporto de Lisboa entre a uma e as cinco da manhã, a verdade é que nada se alterou e o número de voos nocturnos aumentou mais uma vez. A situação é esta, segundo a associação ambientalista Zero: no período entre as zero e as seis da manhã registam-se o dobro dos vôos legalmente permitidos e, entre a uma e as cinco da manhã, em junho passado, o número de aviões que sobrevoou os concelhos de Almada, Lisboa, Loures e Vila Franca de Xira entre a 1:00 e as 5:00 passou de uma média de cerca de 30 por semana para cerca de 60, o que contraria os objetivos anunciados pelo governo. O excesso de ruído nocturno pelos vistos diz pouco ao Governo e, já agora, também aos autarcas envolvidos. Apesar de Câmara de Lisboa ter aprovado por unanimidade, em Setembro do ano passado, uma moção em que defende a redução do número de movimentos por hora no Aeroporto Humberto Delgado, não se ouve a voz do seu Presidente, muito vocal noutras questões, a exigir o cumprimento da Lei e a defender o direito ao descanso dos lisboetas. Nem Pinto Luz cumpriu o que promete, nem o Governo força o cumprimento da Lei, nem Carlos Moedas toma uma posição de força sobre o que se está a passar, apesar de o aeroporto de Lisboa ter 51% do tráfego aéreo e ter crescido no primeiro semestre face a 2024. O que eu sei é que em vez de contar carneiros e adormecer tranquilo, passo noites a contar aviões e a ficar acordado. Fala-se muito da importância económica do turismo em Lisboa, mas vale a pena recordar que o grupo de trabalho para o estudo e avaliação do tráfego noturno no aeroporto Humberto Delgado, constituído em 2020 por despacho governamental, já tinha calculado que os custos do excesso de ruído entre as 23h00 e as 7h00 se tinham situado em 2019 nos 206 milhões de euros em termos económicos, além dos impactos negativos na saúde dos 400 mil residentes das áreas mais afectadas pelo ruído dos aviões. Nas próximas eleições autárquicas aqui está mais um ponto a ter em atenção quando for a hora de votar.
SEMANADA - Em cinco anos foram sinalizados 554 casos de negligência de bebés; desde 2013 realizaram-se 220 greves de guardas prisionais, uma média de 18 por ano; a Infraestruturas de Portugal perdeu 995 milhões de euros de fundos europeus para o projecto de linhas ferroviárias de alta velocidade; segundo a OCDE Portugal pode perder nos próximos 35 anos cerca de 23% da sua força laboral devido ao envelhecimento da população; faltam 12.475 vagas no pré-escolar a nível nacional; há 600 escolas a necessitar de obras urgentes; 40% dos estudantes do ensino secundário frequentam o ensino profissional; mais de 70% dos alunos do ensino profissional têm emprego dois anos após terminarem o curso; o imposto sobre as bebidas adicionadas de açúcar contribuiu com 472 milhões de euros para o SNS em sete anos; em cinco anos os portugueses consumiram menos 7400 toneladas de açúcar; comprar ou arrendar casa implica taxa de esforço superior a 50% em mais de 75 municípios; dois terços dos concelhos possuem menos de dez agências bancárias; as exportações de alta tecnologia são apenas 5,2% do total das exportações portuguesas, número que compara com os 17,3% de média da União Europeia; voltou a aumentar o número de utentes sem médico de família, em junho havia 1.669.680 utentes sem médico, mais 24.873 do que no mês anterior e a região de Lisboa e Vale do Tejo continua a ser a mais crítica; Portugal é o país que mais depende de fundos europeus e por cada dez euros gastos pelo sector público, nove são suportados por verbas de Bruxelas.
O ARCO DA VELHA - Foram detidos cinco inspectores da Autoridade Tributária sob acusação de serem os cabecilhas de um grupo de funcionários suspeitos de deixar passar várias toneladas de cocaína pelos portos de Setúbal, Sines ou Lisboa, a soldo de vários grupos criminosos internacionais entre eles a MoccroMafia e o Primeiro Comando da Capital (PCC), a multinacional do crime da América do Sul.

AS FRASES - “Tudo quanto fazemos, na arte ou na vida, é a cópia imperfeita do que pensámos em fazer” - esta citação, de Bernardo Soares, é uma das que se podem ler em “Como Viver (ou não) em 777 Frases de Fernando Pessoa”, uma recolha organizada por Richard Zenith em 2014 e que tem agora nova edição. Zenith, radicado em Portugal há mais de trinta anos, é escritor, tradutor, investigador e um dos mais destacados especialistas da vida e obra pessoanas. É o autor de “Pessoa, Uma Biografia”, finalista do Prémio Pulitzer em 2022 na categoria de Biografia e galardoado em 2012 com o Prémio Pessoa. Disposto em sete secções temáticas, “Como Viver (ou não) em 777 Frases de Fernando Pessoa” é um conjunto de reflexões e conselhos úteis para, nas palavras de Zenith,“viver, ou não - sendo o não viver uma das estratégias que Pessoa nos propõe para lidar com o misterioso e nem sempre cómodo facto de existirmos”. Zenith, que descreve Fernando Pessoa como um fingidor inveterado, sublinha: “apresentada isoladamente, uma frase arrebatadora - tal como uma jóia preciosa - pode ganhar mais brilho e ter um sentido luminoso, mais forte”. Ao longo da sua vida Fernando Pessoa escreveu milhares de páginas em diversos géneros, sobre todos os assuntos imagináveis e com muitos nomes diferentes, e cultivou ao longo da vida frases capazes de impor-se graças à originalidade da sua expressão e à grande capacidade de síntese, como por exemplo nesta outra citação: “Não ensines nada, pois ainda tens tudo que aprender”. E, mais esta: “Contra argumentos não há factos.” Edição Quetzal.

AGUARELAS - “The Analysis of Beauty” é o título da nova exposição de Pedro Proença, que decorre até 30 de Agosto no Museu de História Natural e da Ciência. A exposição consiste numa série de 60 aguarelas sobre papel que Proença tem vindo a fazer desde há 5 anos, inspiradas em temas naturais, e com referência à rica tradição da ilustração científica, sobretudo do século XVII ao início do século XIX. Como sublinha a curadora, Sofia Marçal, “Pedro Proença através dos seus desenhos de uma representação metafórica e simbólica, exalta o Universo, enquanto poética, enquanto linguagem figurada, metáfora para uma literalidade crua delicada sem artifício, despojada”. E prossegue: “ o virtuosismo deste artista não nos deixa indiferente. Num contexto de expansão da temporalidade e da espacialidade a exposição habita a sala, em movimento, com gestos, pinceladas repetidos infinitivamente até à exaustão. ” Outras obras partem de catálogos pessoais de morfologias (que Pedro Proença metodicamente faz e coleciona), para depois criar variações livres com base nessas ilustrações. O Museu de História Natural e da Ciência fica na Rua da Escola Politécnica 56, em Lisboa.

ROTEIRO - Esta semana destaco a exposição “Vernissage”, de Pedro O Novo, na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A) até 6 de Setembro (na imagem). São dez pinturas, que mostram um universo onde a fantasia se cruza com o rigor geométrico do fascínio do autor pela arquitectura e uma imaginação delirante que utiliza o cenário do interior das casas que cria. No MUDE, em Lisboa, até 12 de Outubro pode ser vista a retrospectiva da obra de João Machado, um dos mais importantes nomes do design gráfico português, a partir da colecção doada pelo próprio ao Museu. No Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado Noé Sendas junta obras da sua autoria com uma selecção de peças da colecção do MNAC, numa exposição com o título “...On Thin Ice”, com curadoria de João Silvério, até 25 de Setembro. Em Reguengos de Monsaraz, Pedro Cabrita Reis apresenta até 5 de Outubro uma exposição com duas dezenas de obras recentes de pinturas e esculturas de parede executadas com materiais encontrados, da série “Natura Morta”. A exposição decorre na Igreja de Santiago, em Monsaraz e na Biblioteca Municipal de Reguengos de Monsaraz e tem por título “Pedro Cabrita Reis, Paisagem, Figura e Natureza Morta”. Nos Açores, em Ponta Delgada, a Galeria Fonseca Macedo apresenta até 13 de Setembro a exposição "Celebração e Resiliência" com obras de João Miguel Ramos, Maria Ana Vasco Costa e Pedro Cabrita Reis.

BALADAS IMPROVISADAS- O novo disco do saxofonista Joshua Redman, “Words Fall Short”, inclui oito temas originais compostos por ele próprio, um dos quais com a participação de Gabrielle Cavassa na voz, no último tema do disco, uma balada emocionante intitulada”Era’s End”. Outras participações dignas de nota são da saxofonista chilena Melissa Aldana e do trompetista Skylar Tang que participam em alguns temas ao lado dos restantes membros da banda que acompanha Redman, o pianista Paul Cornish, o baixista Philip Norris e o percussionista Nazir Ebo. Depois de um álbum anterior essencialmente vocal, este “Words Fall Short” mostra o regresso de Redman àquilo que faz melhor - a construção de temas onde o seu saxofone se articula com os outros membros da banda, em sucessivos diálogos e improvisações, como se pode ouvir logo no tema de abertura, “A Message To Unsend”, o diálogo entre os saxofones de Redman e Melissa Aldana em “So It Goes” ou a forma como o saxofone de Joshua Redman se articula com o baixo de Phil Norris na balada “Borrowed Eyes”. Álbum Blue Note, disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - E que tal um passeio na Avenida da Liberdade? Até 27 de Julho decorre a segunda edição do Arte In Avenida, que decorre em vários espaços como lojas, hotéis e escritórios da Avenida da Liberdade, onde estão expostos originais de pintura, fotografia e escultura, da autoria de artistas da Sociedade Nacional de Belas Artes, responsável pela curadoria e organização da iniciativa. E no sábado 19 decorre o Passeio da Estrela, entre as 15 e as 19 horas, que propõe um percurso entre oito galerias da zona da Estrela e Rato, como 3+1 Arte Contemporânea, Cristina Guerra Contemporary Art, Encounter, Jahn und Jahn, Madragoa, Monitor, No- No e Pedro Cera. Mais informações nos sites destas galerias.
DIXIT - “A escola tem de ser democrática, não tem de impingir a doutrina democrática “ - António Barreto
BACK TO BASICS - “Cultura não é ler muito, nem saber muito; é conhecer muito” - Bernardo Soares
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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