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NÓS POR CÁ TODOS BEM?

por falcao, em 15.07.22

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CARTA A UM AMIGO EMIGRADO - Perguntas-me no teu mais recente e-mail como estamos nós por cá. Para te responder podia citar o título de um filme, “Nós Por Cá Todos Bem”, do Fernando Lopes, lembras-te? Mas a coisa termina no nome do filme. Se queres saber, este rectângulo à beira mar plantado continua a ser disputado por estrangeiros que aqui procuram sol e pechinchas. Mas nós, que gostosamente aqui andamos há uma vida, não vemos grande razão para sorrisos. Recordas-te da nossa velha conversa, da última vez que aqui estiveste, sobre a necessidade de mudar, de fazer reformas? Pois não tenho novidades. Nem mudanças nem reformas, nada. A localização do novo aeroporto continua emperrada e a CP aconselhou as pessoas a não viajar de comboio nestes dias de calor, as urgências dos hospitais vão fechando, as notas de matemática vão descendo e as greves vão aumentando desde que a geringonça gripou. Como te recordarás, quando António Costa chegou a primeiro-ministro, prometeu mudanças. E, como saberás, escolheu para parceiros os dois partidos que menos mudanças querem para desenvolver o país e a economia: o Bloco e o PCP. O resultado dos quatro anos desse ménage à trois foi que nada se fez, a não ser recuar nos indicadores comparativos da União Europeia. Não é de admirar - as geringonças têm tendência para andar para trás, são primas dos caranguejos. Depois, este ano, quando o Costa ganhou com maioria absoluta, houve quem pensasse que agora é que ía ser - livre dos seus sócios anteriores, alguma coisa iria mudar. A coisa que mais mudou é que ele agora passa mais tempo no estrangeiro - está como tu, meu amigo. Quem cá fica é que anda pior. Não há sítio onde surja um sinalzinho de mudança - nem na justiça, nem na carga fiscal, nem na lei eleitoral. A coisa que mais muda nesta terra é o preço dos combustíveis e até já há quem tenha saudades de um litro de gasolina ser a dois euros. Não te maço mais. O rectângulo continua firme à beira mar. Imutável. E com a dívida a crescer. Esperemos que não afunde outra vez, como com o Sócrates.



SEMANADA - Em 2021 foram realizadas menos 700 mil cirurgias em comparação com o ano anterior e verificou-se um redução de 18,5% nos internamentos hospitalares; os hospitais privados pesam apenas 4% na despesa do Serviço Nacional de Saúde; até Maio foram comunicados 452 pré avisos de greve, valor semelhante ao que foi atingido em 2015; mais de metade dos alunos do 9º ano teve negativa no exame de matemática; o Fisco só ganha 23% dos processos que são julgados com recurso à arbitragem fiscal; o actual executivo já nomeou mais de 800 pessoas para os gabinetes dos vários membros do Governo;  o Estado tem mais de 400 organismos consultivos, alguns redundantes e outros sem actividade; segundo a Pordata a percentagem de pessoas em risco de pobreza aumentou de 16,2% para 18,4% entre 2019 e 2020; em 2020 um terço das famílias perdeu 25% do seu rendimento anterior; segundo a Marktest o número de portugueses que encomendam refeições por telefone ou aplicações quase triplicou desde 2018 e o MB Way é o método de pagamento mais utilizado em compras online; o Novo Banco vendeu casas a um preço tão abaixo do mercado que algumas delas valorizaram 200% no dia seguinte; 75% dos portugueses consideram que o Estado devia investir mais na cultura, revela um estudo promovido pela plataforma Gerador.

 

O ARCO DA VELHA - Em 23 meses o  Banco de Fomento, que ainda mal funciona, fez 73 contratos de aquisição de bens e serviços por ajuste directo, num total de cerca de seis milhões de euros, 47% dos quais a uma mesma entidade.

 

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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  - A minha sugestão desta semana é uma ida ao Museu Gulbenkian para visitar a exposição  “To Go To”, que coloca em confronto o trabalho do português Jorge Queiroz e do arménio Arshile Gorky. Jorge Queiroz concebeu a exposição como um cenário que permite o diálogo entre os trabalhos dos dois artistas. Gorky morreu em 1948, Queiroz nasceu em 1966. Claramente são de tempos diferentes e, como Jorge Queiroz refere, Gorky partiu da figuração e desejou a abstração, enquanto ele próprio passou da abstracção para a figuração. A forma como “To Go To” está montada e o cuidado posto no diálogo entre as obras dos dois artistas tornam-na numa exposição invulgar. A ideia desta mostra nasceu porque a Fundação Gulbenkian detém um depósito de 57 obras de Arshile Gorky, propriedade da Diocese da Igreja Arménia de Nova Iorque, e ainda três obras no acervo do Centro de Arte Moderna. Foi a partir deste conjunto que Queiroz selecionou as pinturas e desenhos de Gorky apresentados na exposição, todos pertencentes ao último período da sua obra, da década de 1940, considerada a sua melhor fase. A este conjunto veio ainda juntar-se o empréstimo de uma pintura excepcional, proveniente do Museo Thyssen-Bornemisza. Intitulada Last Painting (The Black Monk), inspirada pelo conto homónimo de Tchekov, esta obra é e datada de 1948, e é provavelmente a última pintura de Gorky, uma vez que foi encontrada no cavalete do estúdio quando o artista se suicidou. Em “To Go To” Jorge Queiroz mostra cinco telas realizadas para a exposição, nas quais pintou sobre linhas serigrafadas, como se fossem papel de carta, evocando a leitura que fez da extensa correspondência de Gorky recentemente publicada. A exposição inclui ainda três outras pinturas e um vídeo de Queiroz, expressamente realizados para este projeto, além de vários seus trabalhos anteriores, sobre tela e sobre papel. A curadoria é de Ana Vasconcelos e a exposição fica patente até 17 de Outubro. 

 

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ENTRE A VIAGEM E A AVENTURA  - Gosto muito de livros que relatam viagens e os policiais e livros de mistério também figuram nas minhas leituras preferidas. Por isso, à medida que fui avançando na leitura de “Nas Montanhas da Loucura”, percebi como o seu autor, H. P. Lovecraft, conseguia relatar uma expedição à Antárctida, escrevendo-a como um romance de terror. Devo dizer que o resultado é fascinante.  Stephen King considera  Lovecraft como o melhor escritor de romances de terror do século XX e  Jorge Luis Borges dizia de Lovecraft que “as imagens que cria são horrendas, mas as sensações que provocam não o são”. O romance e a obra de Lovecraft combinam a fantasia com a ficção científica e com elementos cósmicos, tendo como pano de fundo a fragilidade e a efemeridade do ser humano. Howard Philips Lovecraft morreu cedo, em 1937, com menos de 50 anos. “Nas Montanhas da Loucura”, publicado originalmente em 1931, é uma das suas obras mais importantes. Na expedição, cujos preparativos são descritos minuciosamente no romance, os cientistas, que procuram fósseis pré-históricos numa viagem atribulada, começam a testemunhar factos estranhos. A partir daí o livro cria um clima de mistério e suspense que se vai adensando, no meio do clima desafiante da Antárctida e das suas paisagens avassaladoras. “Nas Montanhas da Loucura” integra a nova colecção "Admirável Mundo do Romance” e foi agora editado pela Guerra & Paz, com tradução de Sónia Amaro.

 

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O JAZZ DO HOMEM DOS WEEKND - Benny Bock tem trabalhado com os Weeknd, compondo algumas das suas canções e, sobretudo, assegurando a produção de vários dos seus álbuns. A novidade é que Bock iniciou agora uma carreira a solo com o álbum “Vanishing Act” onde mostra a sua proximidade ao jazz, assumindo a referência do jazz ambiental. Bock teve a ajudá-lo Pete Min, um reputado engenheiro de som que trabalhou com nomes como Diana Ross ou The Strokes. “Vanishing Act” desenvolve-se a partir de sessões de improvisação onde Benny Bock tocou seguindo as indicações de Min, ambos explorando sonoridades. A primeira faixa do disco”Erwins Garden” é uma homenagem de Bock ao pianista de jazz Erwin Helfer, que foi seu  professor de música. O piano assume neste tema e em vários outros do álbum o papel principal, mas cedo se mistura com sons de electrónica. Em “Dynamo”, o tema seguinte, uma batida repetida estabelece o padrão sobre o qual se desenvolve o piano e também o trabalho dos teclados electrónicos, num contraste entre sonoridades clássicas e o improviso que percorre caminhos inesperados. Estes dois temas iniciais estabelecem o padrão que se vai desenrolando ao longo dos restantes oito que constituem este álbum, sempre avançando um pouco na direcção de ambientes que bem podiam fazer parte de uma banda sonora de filme,  de tal maneira cada um dos temas deixa no ar sugestões de imagens. No tema título, “Vanishing Act”, um baixo eléctrico surge de forma marcante e em “Eight Below Zero” um steel pedal sugere universos musicais alternativos ao pano de fundo do jazz ambiental que foi escolhido por Bock.  Disponível em streaming.


A SARDINHA SETUBALENSE  - Um amigo que vive há muitos anos em Setúbal desafiou para umas sardinhas na sua terra. Não indicou nenhum dos restaurantes mais conhecidos, disse apenas que era um sítio onde ele gostava de ir, mais frequentado por locais que por turistas. Durante o almoço, e enquanto as sardinhas estavam nas brasas, ele lá contou as transformações sofridas por Setúbal nos últimos anos e disse uma coisa que para mim foi novidade completa: Setúbal é um dos destinos portugueses mais procurados por norte-americanos de classe média para aí comprarem uma casa e, actualmente, essa é uma comunidade de estrangeiros que está a crescer e que por este andar será a que lidera a nacionalidade dos novos proprietários de Setúbal. Alguns dos americanos que compraram casa decidiram uns tempos depois abrir um negócio, que vai desde lojas diversas até uma livraria que já está em preparação. Voltando à mesa, com um piscar de olhos, o meu amigo explica que, para comer boa sardinha em Setúbal, o truque é não ir ao fim de semana e evitar os restaurantes de primeira linha junto ao rio ou na avenida Luísa Todi. É nas ruas mais interiores que há os melhores restaurantes, com as melhores grelhas e peixe de confiança. Na esplanada que ele escolheu as sardinhas, já de Julho, estavam aprimoradas no tamanho, na frescura e no preparo, a salada era abundante e a fatia de pão para embeber o rasto deixado pelas sardinhas recomendava-se. Até tenho medo de referir o nome do sítio, mas aqui fica: Tasca Xico da Cana, Travessa do Seixal 10, tel 265 233 255 ou 915 420 976.

 

DIXIT - “Na democracia portuguesa os partidos só estão preparados para a competição política e não para a cooperação” - Paulo Trigo Pereira

 

BACK TO BASICS - “Quem em tudo quer parecer maior, não é grande”  - Padre António Vieira

 




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