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UM PAÍS INVISÍVEL - Uma das questões mais graves da política cultural portuguesa é a fraca visibilidade no estrangeiro dos nossos artistas e das suas obras, excepção feita aos esforços de entidades privadas que asseguram presença em festivais de cinema, feiras de arte contemporânea ou festivais literários. Ao contrário de outros países, as embaixadas portuguesas têm muito pouca actividade nesta área cultural, resultado de um misto de esclerose do Instituto Camões com falta de verba, falta de dinamismo e criatividade por parte dos embaixadores e dos adidos culturais. Há excepções, Paris é uma delas, Madrid também, mas pouco mais. Ou seja, a divulgação da criação artística portuguesa no exterior não é uma preocupação e uma prioridade, é fruto das circunstâncias e de vontades individuais esporádicas. O mesmo se pode dizer em relação à actividade do serviço público audiovisual nesta área, mais vocacionado para as estrelas fugazes do que para a criação de um acervo que testemunhe o presente para gerações futuras. A criação de documentários sobre grandes nomes da cultura portuguesa é praticamente inexistente, o que tem reflexos nas iniciativas possíveis de dinamizar no exterior. Há uma linha comum nisto tudo: a inexistência de uma política cultural com objetivos e rumo conhecidos. Há iniciativas pontuais, muito fogo de artifício mas pouco trabalho consistente e continuado. A presença cultural de um país no exterior é um barómetro daquilo que os respectivos governos fazem dentro de portas. Se preferem fogachos a um trabalho sério e consistente os resultados não são bons nem interna nem externamente. O que falta na política cultural em Portugal é um desígnio, uma estratégia que sirva o país e que permita desenvolver a percepção da nossa imagem em termos internacionais. Hoje em dia um país sem uma política pública que dinamize uma produção audiovisual que espelhe a sua realidade criativa não existe neste novo mundo digital. Nesta matéria, infelizmente, caminhamos para a invisibilidade. Esta ausência de desígnio e de estratégia é o mal maior da situação da Cultura em Portugal.
SEMANADA - Na habitação o preço por metro quadrado pago por estrangeiros em Lisboa é 60% superior ao que é pago por compradores com domicílio fiscal em Portugal; a AIMA atribuiu 386.463 autorizações de residência até 22 de outubro deste ano, mais 60% do que no mesmo período de 2024; os portugueses continuam a não conseguir poupar e 64% afirmam conseguir guardar menos de 10% do seu salário líquido enquanto 36% dizem não conseguir poupar sequer 5% do que recebem; segundo a Marktest 3,7 milhões de pessoas apostaram na lotaria ou outros jogos de sorte nos últimos 12 meses, o que representa 49,8% dos residentes em Portugal; os estudantes portugueses de 15 e 16 anos consomem menos álcool, tabaco e substâncias ilícitas que a média dos seus congéneres europeus, mas envolvem-se mais em jogos de apostas a dinheiro; os crimes contra idosos aumentaram 26% entre 2020 e 2024, ano em que 42.313 pessoas com 65 ou mais anos foram vítimas; mais de vinte viaturas são roubadas todos os dias em Portugal; segundo a Marktest a rede social X/Twitter foi a mais abandonada no último ano pelos portugueses que utilizam redes sociais, na segunda posição ficou o Snapchat e na terceira o Facebook; o mesmo estudo revela que quase 24% dos utilizadores destas plataformas em Portugal abandonaram pelo menos uma rede no último ano.
O ARCO DA VELHA - Meia centena de bebés foram abandonados à nascença ou nos primeiros seis meses de vida entre 2019 e 2024.

IMAGENS QUE MARCAM - Até 29 de Novembro pode ser vista em Lisboa, na galeria Ochre Space, a obra de um dos maiores fotógrafos contemporâneos, o chinês Lu Nan, que integra a prestigiada agência Magnum e vive em Pequim. O seu trabalho resulta de observações prolongadas dos temas que aborda. Nesta exposição pode ser vista a série que realizou sobre as prisões e condições de detenção no norte da Birmânia, realizada ao longo de três meses em 2006. Estão expostas 63 fotografias, imagens duras, por vezes quase chocantes, mas incontornáveis e que permitem documentar a realidade que se vive nesses locais. Ao mesmo tempo a galeria projecta num vídeo de 28 minutos a totalidade das imagens do seu trabalho mais conhecido, “Trilogy”, que engloba as séries “the Forgotten people”, 56 fotografias sobre a doença mental na China, “On the Road” , 60 fotografias sobre a presença da igreja católica na China e “Four Seasons”, 109 fotografias sobre a vida diária dos camponeses tibetanos. Estas fotografias foram realizadas entre 1989 e 2004, ao longo de um intenso trabalho de 15 anos focado na condição humana. “Trilogy” está editado num livro que inclui as três séries e que está disponível na galeria. João Miguel Barros, que dirige a Ochre Space e fez a curadoria desta exposição, sublinha que a obra de Lu Nan “é uma síntese rara entre ética, estética e espiritualidade.” Lu Nan, prossegue” não nos oferece imagens para consumir - oferece-nos imagens para contemplar, para escutar, para encontrar”. A Ochre Space, fica na Rua da Bica do Marquês 31A, à Calçada da Ajuda, e está aberta quartas e sábados das 15h00 às 18h30.

MESA DE CABECEIRA - Esta semana trago dois livros que nos permitem conhecer melhor o planeta e a sua História. “A Rota do Ouro - Como a Índia Antiga transformou o mundo” relata como durante um milénio e meio, a Índia exportou a sua civilização diversificada e criou à sua volta um vasto império de ideias. A arte indiana, as religiões, a tecnologia, a astronomia, a música, a dança, a literatura, a matemática e a mitologia cruzaram o mundo ao longo de uma Rota do Ouro, que se estendia do Mar Vermelho ao Oceano Pacífico. O jornalista norte americano William Dalrymple recorda a posição da Índia enquanto coração da antiga Eurásia. Relata como a Índia transformou de facto o mundo, do maior templo hindu em Angkor Wat ao budismo da China, do comércio que ajudou a financiar o Império Romano à invenção dos números que usamos na atualidade (incluindo o zero). O autor mostra que a Índia marcou a cultura e a tecnologia não só do mundo antigo, como também do mundo de hoje. Edição D. Quixote. O outro livro, “Pólo Norte, história de uma obsessão” , é escrito por Erling Kagge, um explorador norueguês e a primeira pessoa a ter conseguido atingir os três pólos: o Pólo Norte, o Pólo Sul e o pico do Evereste. O Pólo Norte foi durante séculos um mistério e só há uma centena de anos começou de facto a ser melhor conhecido. Ali, no limite setentrional do planeta, há um único nascer do sol por ano, e o dia dura seis meses; depois, o sol põe-se, e a noite dura outros seis. Erling Kagge fez a sua primeira expedição ao Ártico em 1990, com Børge Ousland e a mais recente ocorreu em 2023 e permite-nos conhecer melhor a natureza no lugar que é considerado o mais inóspito do planeta. O livro tem uma enorme actualidade , já que nunca como hoje o Ártico, a Gronelândia e o Pólo norte estiveram nas primeiras páginas dos jornais e nos grandes debates de geopolítica. Edição Quetzal.

ROTEIRO - A Galeria Ratton apresenta até final de Dezembro a exposição “Correspondências”, que assinala os 38 anos da Galeria Ratton, celebrando azulejos criados por Menez, Graça Morais, Virgínia Fróis e Júlio Pomar. A Ratton tem uma actividade centrada no azulejo e tem trabalhado regularmente com alguns dos maiores artistas portugueses. Na imagem um painel com quatro azulejos de Júlio Pomar. Na galeria pode ainda ver, além desta exposição, algumas obras do seu extenso e importante acervo. No grande hall do MACAM está patente “Juliet and Juliet”, de Isabel Cordovil, a segunda parte do projecto Murmur que integra o programa de exposições temporárias do museu com a apresentação de obras de artistas portugueses e estrangeiros concebidas especialmente para aquele local. Isabel Cordovil apresenta uma instalação em torno da identidade, entre a herdada e a desejada, com curadoria de Carolina Quintela.

OS BLUES, SEMPRE - O saxofonista Charles Lloyd tem um novo disco, “figure in blue, memories of duke” , um dos seus melhores registos recentes. Acompanhado por Jason Moran no piano e por Marvin Sewell na guitarra, Lloyd apresenta 14 temas, predominantemente influenciados pelos blues, ao longo de hora e meia. Entre baladas como “Hina Hanta, the way of peace” e a sonoridade própria dos blues do delta do Mississipi, como Chulahoma”, o disco é uma homenagem a Duke Ellington, em temas como “Black Butterfly” and “Heaven.” e inclui originais de Lloyd além de versões de temas clássicos do jazz e dos blues como em “Blues for Langston”, “Abide for Me”. A forma de tocar guitarra de Sewell, recorrendo ao uso de bottleneck, um clássico dos blues do Mississipi, é uma preciosa contribuição para este disco e o piano de Jason Moran completa o trabalho do trio. A última faixa do disco é “Somewhere”, um tema de Leonard Bernstein para “West Side Story” , aqui numa versão notável. Este é o 12º disco de Charles Lloyd para a editora Blue Note e está disponível nas plataformas de streaming.

ALMANAQUE - Até dia 31 de Janeiro está patente na Lisboa Social Mitra, ao Beato, a exposição “Francisco Sá Carneiro e a Construção da Democracia Portuguesa”, organizada pela Associação Cultural Ephemera, com curadoria e textos de José Pacheco Pereira. A exposição pode ser visitada de terça a sexta-feira, das 14 às 18 horas, e aos sábados, domingos e feriados das 10 às 18 horas. Ali podemos seguir o que foi a vida pública de Francisco Sá Carneiro com três grandes núcleos temporais e documentais: antes do 25 de Abril, do período revolucionário até à consolidação do regime democrático e, por fim, o legado político do fundador do PPD. São também apresentados documentos inéditos pertencentes ao Arquivo Ephemera e um dos pontos altos é o espólio de Sá Carneiro, guardado pela sua secretária pessoal, Conceição Monteiro, que conservou grande parte dos documentos, pela primeira vez agora revelados ao público.
DIXIT - Todos os fundadores (do PPD) consideravam uma questão de fronteira, uma “linha vermelha” como agora se diz, o seu partido não ser um partido de direita, mas um partido de centro-esquerda (…) como Sá Carneiro sempre repetiu até à morte” - José Pacheco Pereira, no Público.
BACK TO BASICS - “A liberdade é importante, mas tão importante quanto a liberdade são a solidariedade e sermos capazes de lutar pela igualdade” - Francisco Pinto Balsemão
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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