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O CANCELAMENTO DA CRIATIVIDADE

por falcao, em 24.05.24

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 TIRANETES - Há alguns meses, no âmbito da participação da Selecção Nacional de Futebol Feminino no Mundial da modalidade, o Banco que é o patrocinador da equipa portuguesa e da respectiva Federação fez uma campanha publicitária, desenvolvida pela Dentsu Creative, com o título “É Uma Menina!”. O spot publicitário conta a história da vida de uma rapariga que se supera, quer jogar futebol ao mais alto nível e atinge o seu sonho, de integrar a Selecção. No YouTube o filme teve mais de cinco milhões de partilhas. Com uma realização claramente emotiva, desde o nascimento e a reacção da família ao ver que era uma menina, até ao seu esforço e à sua presença no estádio integrada na  Selecção.  Esta é sobretudo a história de como não deve haver barreiras no desporto entre géneros e que, com esforço, tudo pode ser possível. Pois este filme  foi eliminado da shortlist dos prémios do Clube de Criatividade de Portugal porque parte do júri acusou a campanha de ser machista, instalando-se uma polémica sobre a igualdade de género que acabou por ditar a sua saída da shortlist final, apesar de uma decisão inicial em sentido contrário. Esta situação é o espelho daquilo que se está a passar hoje em dia, nas mais diversas áreas, quando opiniões ideológicas  prevalecem sobre a liberdade de expressão. O que agora lamentavelmente se passou, num júri publicitário, nasce do clima desenvolvido por pessoas que querem impôr a sua própria opinião acima de tudo o resto. E estas pessoas conseguem criar um clima de intimidação e desconforto que inclusivamente levou elementos do júri a mudar de posição, talvez receosos de serem esmagados pelo batalhão dos novos censores. Já tínhamos visto esta política de cancelamento em universidades, no cinema, na literatura. Chegou agora à publicidade, esse terreno de criatividade e liberdade. Quem diria que os criativos albergam censores em nome dos bons costumes?  É sempre em nome dos bons costumes que tudo de mau se passa no campo da censura. No passado, em nome dos bons costumes, também conhecemos censura precisamente nas áreas mais criativas, nos jornais, espectáculos e filmes, arredando jornalistas, músicos, actores, realizadores e argumentistas do trabalho com base em preconceitos ideológicos e da pureza das ideias. Há gente que deseja que a liberdade já não passe por aqui.

 

SEMANADA - Quase 7% dos bebés nascidos na última década foram de mães que já tinham ultrapassado os 40 anos e mais de 17% dos bebés nasceram de pais que não viviam juntos; segundo um estudo do ISCSP,  50 anos após o 25 de Abril o fraco desempenho da justiça e dos tribunais e a falta de combate eficaz à corrupção são as principais queixas dos portugueses; pela primeira vez o número de estudantes do ensino anterior que recebem bolsa de estudo ultrapassou os 80 mil; em 2023 existiam 575 mil idosos a viver sozinhos; apenas 5% das mensagens publicitárias divulgadas por influenciadores cumpre a lei; as mortes por doenças do aparelho respiratório e por tumores malignos representam quase metade dos óbitos registado em Portugal; Lisboa foi a terceira cidade do mundo com mais congressos em 2023; o número de beneficiários do Rendimento Social de Inserção é o mais baixo dos últimos 18 anos; um em cada quatro utentes do SNS na  região de Lisboa e Vale do Tejo não tem médico de família; em Portugal, segundo o INE, 90% da população tem acesso à internet e, segundo a Marktest, há 6,3 milhões de portugueses que utilizam regularmente redes sociais, com o Facebook a liderar; em 2023 cerca de 70% dos portugueses usaram redes sociais, um valor acima da média da União Europeia; em 2022 foram dadas metade das licenças de construção de há 30 anos. 

 

O ARCO DA VELHA - Um estudo recente indica que em Portugal cerca de 20% dos trabalhadores referem sofrer ameaças ou outras formas de abuso nos seus locais de trabalho e sintomas de ‘burnout’ ameaçam quase 80%.

 

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A VIDA NO ATELIER - Devo começar por fazer uma declaração de interesse. Durante os últimos meses trabalhei com a equipa que acompanhou Pedro Cabrita Reis na exposição Atelier, uma viagem pelos seus 50 anos de carreira artística e que abriu na semana passada nos pavilhões da Mitra, em Marvila. Não serei a pessoa mais isenta a olhar para o resultado, mas creio que esta exposição, que é talvez a maior antologia de trabalhos de um artista contemporâneo já apresentada, pode surpreender os visitantes e dar uma visão da diversidade e qualidade da obra de Pedro Cabrita Reis. A exposição tem mais de 1500 trabalhos do artista, com várias técnicas e em diversos suportes, feitos ao longo desses 50 anos. Os primeiros datam ainda da adolescência, antes de ingressar em Belas Artes e os mais recentes foram feitos entre finais de Abril e início de Maio deste ano, no próprio local onde decorre a exposição. Podem ser vistas pinturas, desenhos, esculturas, cerâmica e fotografias que se sucedem sem ordem cronológica, replicando a ideia do trabalho em construção num atelier. Nalguns casos há imagens que mostram obras feitas  propositadamente para um determinado local, por exemplo, uma barragem, ou estudos para outras, como As Três Graças, expostas no Jardim das Tulherias, no Louvre, em 2022. A exposição desenvolve-se em oito pavilhões da Mitra e num jardim contíguo onde está uma escultura metálica e pode ser vista até 28 de Julho, de quinta a domingo, entre as 14 e as 18 horas.

 

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ROTEIRO -  Esta semana todos os caminhos vão ter à Cordoaria, na zona da Junqueira, em Lisboa. Até domingo 26 ali decorrerá a sétima edição da Feira de Arte Contemporânea de Lisboa, a ARCO. Nesta edição um dos temas fortes é a reflexão sobre a criação artística contemporânea e a descoberta de novos projectos e também “As Formas do Oceano”,uma secção que trará projectos centrados nas relações entre África e a diáspora africana. Na edição deste ano participam 84 galerias, de 15 países, que mostram obras de 470 artistas. Paralelamente à realização da ARCO decorre no Torreão Nascente da Cordoaria uma exposição organizada pelas galerias municipais e que mostra as aquisições de obras de arte realizadas pela Câmara Municipal Lisboa para a sua coleção. A ARCO Lisboa está aberta ao público de sexta 24 até domingo 26, entre as 12 e as 20 horas na sexta e sábado e entre as 12 e as 19 horas no Domingo. Em grande número de galerias de Lisboa realizam-se iniciativas complementares da feira durante toda esta semana. Mas há mais coisas em Lisboa e entre elas destaco a exposição que inaugurou na Cristina Guerra Contemporary Art, “Discipline of Subjectivity” (na imagem) . O  artista austríaco Erwin Wurm apresenta até 29 de Junho trabalhos recentes como esculturas em vidro Murano, alumínio,  poliéster, resina acrílica, bronze polido e pintura a acrílico sobre tela. Rua de Santo António à Estrela 33.

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O LIVRO MAIOR  - Aqui está uma edição de “os Lusíadas”  que surge no tempo certo - o novo aeroporto irá chamar-se Luís de Camões, cujo quinto centenário do nascimento tem sido ignorado pelos poderes do pensamento conveniente. A sua obra “Os Lusíadas” , que é hoje alvo dos que querem calar a realidade e travar o conhecimento, tem uma edição que celebra Luís de Camões, e que inclui também a reflexão com que Jorge de Sena intelectualizou e conceptualizou as emoções que o poema encerra. “Os Lusíadas de Luís de Camões e a Visão Herética de Jorge de Sena” é o nome desta edição. Na abertura está uma curta apresentação descritiva, que Sena escreveu para a Enciclopédia Britânica, em 1972, e a que se deu o título «Sobre os dez cantos de Os Lusíadas (1972)». Segue-se, “Os Lusíadas” de Luís de Camões na sua versão integral, e a edição fecha com um incontornável texto de Jorge de Sena, escrito em Fevereiro de 1972, para um simpósio camoniano na Universidade de Connecticut, por ocasião da comemoração do 4.º centenário de Os Lusíadas, intitulado «Camões: novas observações acerca da sua epopeia e do seu pensamento». Como Jorge de Sena escreveu, “Camões jamais perde uma oportunidade de sublinhar ou afirmar a sua mensagem de liberdade”. À falta de comemorações oficiais, esta é uma boa forma de assinalar o 5.º centenário do nascimento de Camões, que terá ocorrido em dia incerto, entre 1524 e 1525. A edição, da Guerra & Paz,  é feita com o apoio da Fundação Gulbenkian, um livro de capa dura, faces do miolo pintadas à mão, lombada à vista. Uma delícia, para ler, folhear e ver.

 

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SEDUÇÃO SONORA - É muito difícil ouvir a voz de Beth Gibbons sem pensar logo nos Portishead, apesar de o último disco da banda, “Third” ter sido editado em 2008, há 16 anos portanto. Agora, quando comecei a ouvir “Lives Outgrown”, o álbum a solo de Gibbons revelado neste mês, após anos de silêncio invadiu-me um misto de saudade e surpresa. Saudade porque esta voz e esta maneira de fazer música e cantar era há muito desejada; e surpresa, porque o resultado supera as expectativas, as minhas pelo menos. Fazer um regresso depois de um interregno tão grande nunca é coisa fácil, manter a coerência criativa num território musical que mudou muito ao longo de quase duas décadas tão pouco.  Em primeiro lugar a voz de Beth Gibbons continua a ser tão intimista como as letras que escreve para as suas canções. Em segundo lugar os arranjos, que ela própria e James Ford desenharam, são surpreendentes - e utilizam várias formas de percussão, um clarinete, violinos, um coro de vozes e um teclado Farfisa para não me alongar demasiado. Mas é talvez graças à percussão de um ex Talk Talk, Lee Harris, que as coisas verdadeiramente mudam de figura. Este disco esteve onze anos em preparação e sente-se que houve tempo para pensar a melhor forma de concertar o passado com o presente e abrir pistas para o futuro. Claro que há uma evocação da folk music, evocação em que as guitarras e cordas têm papel, como na faixa final, “Whispering Love” ou em “For Sale”, mas também há lugar a uma incontornável elegância pop em “Floating On a Moment”, ou  à percussão que se anuncia ao lado do piano na faixa de abertura, “Tell Me Who You Are Today” e reincide em “Beyond The Sun”, num exercício entre vozes e ritmos arrebatador. “Lives Outgrown” consegue ser inesperado, desafiante, elegante e sedutor. Não é pouca coisa. Disponível em streaming.

 

DIXIT - “ Destruir uma floresta para pôr painéis solares não é fantástico.” - João Manso Neto

 

BACK TO BASICS - “Estudem o passado se quiserem definir o futuro” - Confúcio



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS

 

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