Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O CASO DOS ABUSOS DA MAIORIA

por falcao, em 19.08.22

8F3906F9-8900-4CC6-BEA8-BDC7F7169CF3.JPG

A QUEM DEVEM SERVIR OS GOVERNANTES? - Uma maioria absoluta pode ser um factor de estabilidade, mas pode também ser uma fonte de instabilidade. Tudo depende do grau de civilização e da convicção democrática de quem a tem. Uma maioria absoluta, rezam os manuais, devia servir como alavanca de transformação e progresso do país, e não como mecanismo de travão da oposição. Infelizmente alguns acontecimentos dos últimos tempos não são tranquilizadores. Desde a forma como António Costa evita responder no Parlamento a perguntas da oposição, até ao caso das represálias contra a Endesa por causa de uma opinião veiculada pelo seu responsável em Portugal, passando pela desfaçatez da Ministra da Agricultura ao querer marginalizar a CAP por causa das posições que tomou nas mais recentes eleições legislativas, acumulam-se os sinais que fazem pensar que está a criar-se um padrão de comportamento que penaliza e combate quem não está com o PS. É triste que um partido fundador da democracia a torpedeie quando tem uma maioria absoluta no parlamento um comportamento que começa a mostrar ser autoritário e persecutório. No fundo todos estes casos fazem levantar uma pergunta: os membros do Governo, do Primeiro-ministro aos secretários de Estado, estão ao serviço do PS ou do país? Pensam em melhorar Portugal ou em beneficiar o seu partido? A maioria absoluta pode ser uma janela aberta ao futuro ou uma grade para evocar o passado. Nas últimas semanas a janela tem sido cada vez mais fechada. E vislumbram-se nas palavras de alguns, o secreto desejo de construir grades.

 

SEMANADA - As trotinetes eléctricas causaram 445 acidentes em três anos, a maior parte por negligência na condução; a Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal alertou para o perigo e a insegurança que as trotinetes provocam nos invisuais, dizendo mesmo que já há entre eles quem evite sair de casa com receio de ser atropelado num passeio; o Parque Natural da Serra da Estrela tem 88.850 hectares, dos quais já arderam 73.282 desde 2017; só este ano já lá arderam 23 mil hectares e apesar da gravidade da situação a Protecção Civil diminuíu o dispositivo no fim de semana sem consolidar o rescaldo o que facilitou novos reacendimentos;  a inflação na alimentação já chegou aos 13,9%; em julho as vendas no retalho alimentar cresceram 12,9%, o maior acréscimo desde o início do ano, empurradas por uma inflação de 9,1%; no retalho alimentar as marcas brancas cresceram 22,1% contra os 7,5% das marcas dos fabricantes; segundo a Marktest cerca de um quarto dos lares portugueses consome pratos confeccionados congelados ou refrigerados; dois mil médicos das urgências já apresentaram pedido de escusa de responsabilidades; a dívida total do Serviço Nacional de Saúde a fornecedores externos está no valor mais alto dos últimos oito anos e atinge os 2,3 mil milhões - António Costa é Primeiro Ministro desde Novembro de 2015; 87% das vagas de emprego abertas no retalho continuam por preencher devido à falta de interessados face às condições oferecidas; segundo o Instituto Nacional de Estatística mais de metade dos desempregados permaneceram sem trabalho entre o primeiro e o segundo trimestre; em Junho e Julho registaram-se 3054 assaltos a residências, cerca de 50 por dia.

 

O ARCO DA VELHA  - Segundo um inquérito recente um quarto dos juízes portugueses crê que há corrupção na justiça e que há magistrados que receberam subornos.

 

O Último Comboio Para a Zona Verde.jpg

A VIAGEM A UM MUNDO ABANDONADO - Há um livro, de 2013, em que Paul Theroux fala das experiências por que passou em Angola, a decepção com a decadência, a omnipresença da corrupção e da pobreza, a perda da comunhão dos povos com a natureza. Depois da grande narrativa de “Viagem por África”, que o levou do Cairo à Cidade do Cabo, Paul Theroux quis percorrer a «margem ocidental» do grande continente até ao Norte de África. O que viu em Angola mudou-lhe os planos. Viajando sozinho, como sempre, atravessando a África do Sul e a Namíbia, chegou a Angola para encontrar um mundo cada vez mais distante das esperanças originais pós-independência. Viveu desilusões, tristeza, desapontamento, amargura e irritação. Na realidade, Angola sai maltratada do derradeiro livro de Paul Theroux sobre África, “O Último Comboio Para a Zona Verde”. Escreve Theroux: “Sou um homem de 70 anos a viajar como um mochileiro no meio de Angola, e os únicos estrangeiros que vejo - uns seis ou oito - são homens de negócios que se esforçam por fazer lucro com os recursos do país. Talvez eu seja um deles, outra espécie de homem de negócios, outro género de vendedor ambulante, alguém que espera ganhar a vida estando aqui e tomando nota do que vê”. O livro,”O Último Comboio Para a Zona Verde”, agora editado pela Quetzal, com um boa tradução de Maria Filomena Duarte, tem por subtítulo, “O meu último safari africano”. Francisco José Viegas, que editou o livro e lhe escreveu um prefácio intitulado “Um escritor é assim”, conta como a ideia de ir a Angola nasceu num almoço, em Matosinhos, que juntou Luandino Vieira e Paul Theroux. Viegas classifica este livro como uma extraordinária reportagem sobre África, “um mundo abandonado”. 

 

CX 1 CRP 7 _01 (1).jpg

ROOFTOP DESIGN - Proponho um rooftop de vista extraordinária que está paredes meias com uma exposição de design gráfico absolutamente imperdível. Tudo isto se conjuga no antigo edifício Entreposto, na Praça José Queiroz 1, agora designado por IDB Lisbon (Innovation & Design Building). Este é o cenário para a mais recente exposição promovida pelo Museu do Design e da Moda, MUDE, e que mostra pela primeira vez a colecção de design gráfico Carlos da Rocha. Intitulada “O Mundo Vai Continuar A Ser Como Não Era”, a exposição permite viajar pelos últimos 100 anos de publicidade em Portugal, através da intensa actividade do atelier de Carlos Rocha, que trabalhou marcas portuguesas e estrangeiras, desde a Grunding até às farinhas Nacional, passando pelos gelados Rajá, bebidas como a Mosca ou várias marcas de conservas. São 100 anos de design. Ainda em vida, Carlos Rocha (1943-2016) doou o seu acervo ao MUDE e manifestou o desejo de se fazer uma exposição que apresentasse o seu trabalho à frente da Agência Marca e da LETRA Design, e que mostrasse também o trabalho de seu pai, Carlos Rocha Pereira (1912-1992) e o trabalho de seu tio, José Rocha (1907-1982), na ETP – Estúdio Técnico de Publicidade. Nesta genealogia familiar, vê-se a força do design gráfico e a sua importância na comunicação de Estado e na publicidade comercial e industrial em Portugal. Estes três designers conceberam marcas, imagens e publicidade para os vários sectores de produção nacional e através da exposição “O mundo vai continuar a não ser como era!” podemos seguir  as grandes mudanças da vida quotidiana em Portugal e os diferentes contextos políticos e socioeconómicos do nosso país, desde a década de 1930, até ao início do século XXI. E quando terminarem de ver a exposição podem ir, no mesmo edifício, ao terraço com vista panorâmica, onde há um bar, para um copo ao fim da tarde. A exposição, de entrada gratuita, está aberta de terça a domingo, entre as 11 e as 18 até dia 25 de Novembro.

 

image.png

JAZZ BRASIL - Antonio Adolfo Maurity Sabóia de seu nome completo é um pianista brasileiro que testemunhou os primórdios da Bossa Nova e depois se aventurou pelo jazz. Nascido em 1947, aos 16 anos já tocava com os pioneiros do novo som do Rio de Janeiro. Tem uma longa carreira musical, que passa por discos em nome próprio, uma intensa actividade didáctica e muitas colaborações com outros músicos. É um daqueles nomes menos conhecidos da música brasileira mas que tem uma carreira rica e criativa. Tocou e compôs para Maysa, acompanhou Elis Regina numa tournée europeia, estudou e trabalhou nos Estados Unidos com Sérgio Mendes, e agora, aos 75 anos, lança novo disco, “Octet & Originals”. Os dez temas do disco foram todos compostos por António Adolfo ao longo da sua carreira e alguns ganharam fama nas interpretações de nomes como Stevie Wonder, Herp Albert (“Pretty World”), Dionne Warwick (“Heart Of Brazil”) e êxitos que obteve no Brasil como “Teletema” , “Cascavel”, “Feito em Casa” ou “Toada Moderna”, dos anos 60, uma homenagem sua a Bill Evans. Aqui todas as versões são instrumentais, com novos arranjos compostos para o octeto que gravou o disco e que reúne músicos de eleição: Jessé Sadoc (trompete), Danilo Sinna (sax alto), Marcelo Martins (sax tenor e flauta), Rafael Rocha (trombone), Jorge Helder (baixo), Rafael Barata (bateria e percussão), e Ricardo Silveira (guitarra), além do próprio António Adolfo no piano. Sempre com referências bem brasileiras, nomeadamente à Bossa Nova e ao samba, os arranjos são muito marcados pelo trabalho de todos estes músicos no jazz. O resultado é um disco surpreendente que consegue dar nova alma a temas que nalguns casos têm seis décadas. Disponível nas plataformas de streaming.

 

UM PETISCO MARÍTIMO - Um destes dias fui brindado em casa de bons amigos, perto de Setúbal, com um petisco inesquecível e de uma enorme simplicidade. O que contou para o êxito do petisco foi a frescura e qualidade dos ingredientes - umas postas de pescada e amêijoas. A pescada fresca não tem comparação com o que normalmente aparece por aí, e que chega ao prato depois de sofrer as agruras da congelação. Estas postas, quando aterraram no prato, soltavam-se em lascas perfeitas, com sabor e a consistência ideal. Claro que o talento da cozinheira tem uma importante quota parte no sucesso e aqui deixo o meu obrigado. Vamos pois ao relato que ela fez: as amêijoas foram compradas fresquíssimas num viveiro, eram de bom tamanho, e a pescada, em postas gordas,  veio do mercado de Setúbal, o célebre Mercado do Livramento. Primeiro as amêijoas foram abertas ao vapor e deixadas a repousar enquanto a pescada cozia num molho à Bolhão Pato, com azeite, alho com fartura, vinho branco e um pouco de sumo de limão, tudo com abundante quantidade de coentros picados. Quando o molho levantou fervura entrou a pescada, rigorosamente vigiada para ficar na consistência ideal. E já no fim entraram as amêijoas abertas. Desligado o lume acrescentou-se mais um ramo de coentros, tapou-se a panela e levou-se à mesa onde o festim foi muito apreciado - sendo impossível não ensopar pão naquele molho. A acompanhar esteve um branco da região, muito cumpridor.

 

DIXIT- “A escola deve ser democrática, mas não impingir a democracia “ - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Dizem que o tempo muda as coisas, mas na realidade somos nós que temos de as fazer mudar” - Andy Warhol



Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:00



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2005
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2004
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D
  248. 2003
  249. J
  250. F
  251. M
  252. A
  253. M
  254. J
  255. J
  256. A
  257. S
  258. O
  259. N
  260. D