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O DINHEIRO DA CULTURA

por falcao, em 09.12.22

 

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A SUBSÍDIODEPENDÊNCIA  - Um dos temas da semana passada foi o apoio financeiro do Estado à cultura e às artes. Foram revelados os resultados de seis concursos de apoio e a polémica nasceu de imediato. Quase 60 candidaturas contestaram os resultados e cerca de 800 estruturas e profissionais do sector da Cultura subscreveram um abaixo-assinado de apelo ao reforço de verbas dos concursos. Estamos a falar de um volume global de apoios no valor de 148 milhões de euros. Este é um protesto recorrente: o volume de apoios vai crescendo mas nunca chega para todos e há sempre queixas e insatisfeitos. Nasce assim um pântano que condiciona tudo. Creio que existem três problemas fundamentais a considerar: a existência de estruturas de produção artística que se desenvolveram com um modelo de dependência exclusiva, ou muito maioritária, dos subsídios do Governo ou das autarquias; a nula ou diminuta aplicação de mecanismos de avaliação que tenham em conta dados concretos de captação de novos públicos e da audiência conseguida, por forma a ter uma leitura, pelo menos nos casos das artes performativas, dos resultados práticos dos apoios recebidos; e a grande dificuldade dos agentes envolvidos na produção artística em conseguirem apoios privados - quer pela ineficácia da lei do mecenato, quer por razões conjunturais, nomeadamente porque as causas sociais e ambientais são hoje mais procuradas pelas empresas do que as culturais. Há uma parte do sector da produção cultural que se sente bem a não ter que depender do público, e ambiciona viver para sempre de apoios oficiais. A propósito José Pacheco Pereira escreveu no “Público” de sábado passado: “Quando se olha para o fundo dos cartazes de concertos, performances, acções culturais de todo o tipo, percebe-se que na sua esmagadora maioria são suportadas pelo Estado e pelas autarquias, o que levanta a questão maldita da “subsidiodependência”. Só nomeá-la suscita de imediato uma fronda de insultos, processos de intenção, acusações com sucesso garantido dada a facilidade com que este mundo chega à comunicação social e mais, a presunção de que há em matérias de cultura — entendida erradamente como sinónimo de criatividade — uma espécie de noli me tangere , que ninguém me toque, porque os “criadores” são intocáveis.” Em Portugal vive-se com a ideia de que os apoios do Estado são definitivos, eternos e que não podem mudar. Esse pensamento é paralisante, e, em última análise, prejudica o surgimento de novos valores. Quem o defende está no fundo a impedir a dinâmica de transformação e renovação da produção cultural.  

 

SEMANADA - Comparando com 1991 Portugal tem agora mais um milhão de pessoas acima dos 65 anos, segmento que no conjunto alcança quase 2,5 milhões, ou seja 23,4% da população; no mesmo período perdeu mais de um milhão de crianças e jovens até aos 25 anos, cujo total é já inferior ao de maiores de 65 anos; dos 12 mil médicos dentistas inscritos na Ordem cerca de 13% foram para o estrangeiro e, dos que trabalham em Portugal, 98,5% estão no privado; devido ao custo da habitação quase 60 mil pessoas foram forçadas a deixar Lisboa nos últimos três anos; a Banca portuguesa está a pagar em juros de depósitos quatro vezes menos do que a média da zona euro; segundo a DECO Proteste, o aumento da prestação de um empréstimo de 150 mil euros, com Euribor a 6 meses, é de 39%, entre junho e dezembro de 2022 e, com a Euribor a um ano, o aumento, de dezembro de 2021 a dezembro de 2022 chega mesmo aos 56%; em 2010 a nossa carga fiscal (impostos e contribuições sociais) era de 30,4% do PIB, mas em 2021 chegou a 35,8%, um valor acima da média da OCDE que é 34,1%; em Outubro deste ano o alojamento turístico teve mais 5% de dormidas do que em Outubro de 2019, antes da pandemia; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que os políticos portugueses são mais tolerantes em relação à corrupção do que os cidadãos; o mesmo estudo indica que 59,9% dos cidadãos consideram a honestidade o valor mais importante em democracia, mas menos de 20% dos deputados tem a mesma opinião; o mesmo estudo revela que a eficiência e o mérito são mais considerados entre os cidadãos do que entre os políticos.

 

O ARCO DA VELHA - Segundo o Eurostat os jovens portugueses são, em média, os que saem mais tarde de casa, aos 33,6 anos. Só 10% do crédito à habitação foi concedido a jovens até aos 35 anos.

 

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IMAGENS - Proponho uma deslocação ao Barreiro onde, no espaço do Auditório Augusto Cabrita, o fotógrafo José Manuel Rodrigues expõe seis dezenas de imagens reunidas sob o título “Amanhã Será Ontem”, onde o autor cria uma narrativa, aparentemente dispersa onde mostra o olhar do fotógrafo através de imagens observadas e de outras, encenadas. Todas estão aparentemente desligadas mas a montagem criada e o jogo de variações nas dimensões apresentadas conseguem estabelecer um fio condutor que nos leva a ligar vários tempos. Cito o texto de José Manuel Rodrigues sobre o trabalho que apresenta: “a rotação da terra define a vida, o nosso pensamento. Para eu encontrar essa continuação foram precisos milhares de milhões de anos, para enfrentar o que está agora à minha volta. (...) É a evolução do olhar até este sítio onde me encontro a escrever sobre a existência representada numa fotografia. A ligação de todos os tempos.”. A exposição apresenta inéditos, novas provas de autor, fotografias a preto e branco e a cor, em muitos formatos, alguns pequenos, abordando um grande leque de assuntos e que, nas palavras de Alexandre Pomar permite ver “uma grande diversidade de assuntos numa larga panorâmica do trabalho do JMR sempre em renovação”. A nona edição do Fotografia no Barreiro fica no Auditório Augusto Cabrita até 29 de Janeiro e se lá for pode também aproveitar e ver o trabalho de Patrícia de Melo Moreira, “Passado-Presente”.

 

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UM SUICÍDIO POÉTICO -  “Uma Temporada no Inferno”, de Arthur Rimbaud, é por si só um livro que proporciona uma leitura apaixonante. Começamos a lê-lo, surpreendemo-nos, voltamos atrás, temos a tentação de saltar umas páginas para depois regressar. Este livro é um vício. Como se não bastasse o texto de Rimbaud, a nova edição tem uma deliciosa introdução, de Manuel S. Fonseca, que nos leva à ligação entre Rimbaud e Paul Verlaine, nascida quando, em Setembro de 1871, o jovem Arthur Rimbaud, a um mês de completar 17 anos, bateu à porta do poeta Paul Verlaine. Ambos mergulharam numa vertigem de poesia, boémia e absinto. A relação de ambos viria a superar as barreiras da experimentação poética, e o escândalo gerado pelas extravagantes aparições públicas dos dois amantes levou-os a abandonar Paris, vivendo a paixão primeiro na Bélgica e depois em Londres, até à ruptura total, após Verlaine balear o seu amante num pulso. Sentindo-se rejeitado, Rimbaud – o adolescente Casanova, como um dia Verlaine lhe chamou – quis libertar-se daquela longa visita ao Inferno, expurgando num último livro as suas memórias e inquietações, antes de partir numa viagem de absoluto silêncio pelo deserto africano. Aos 19 anos Rimbaud decidiu deixar de publicar e fez o mais célebre “suicídio poético” da história da literatura. Nascia assim, em 1873,  “Uma Temporada no Inferno”. Controverso a raiar o escândalo, este é uma das grandes obras da poesia mundial, agora recuperada pela editora Guerra e Paz, numa edição bilingue (português e francês).

 

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DISCOS COMENTADOS - Bob Dylan começou a escrever “ The Philosophy Of Modern Song” em 2010 e editou-o este ano. Ao longo de 350 páginas Dylan mostra a sua visão sobre o que entende ser o melhor da música popular. São dezenas de ensaios sobre as canções de outros artistas, de Hank Williams a Nina Simone, passando por Elvis Costello. Aqui Dylan vai ao pormenor de cada canção, às palavras, às melodias, aos géneros musicais. E aproveita o que pensa sobre estas canções para, no fundo, escrever sobre a condição humana. Mais de seis dezenas de canções são contadas por Dylan neste livro, desde "Detroit City”, de Bobby Bare, de 1963, até “Where Or When”, de Rodgers e Hart, numa interpretação de 1959 por Dion And The Belmonts. O livro inclui centena e meia de fotografias escolhidas a pensar nas canções, com um grafismo cuidado que encerra ele próprio uma narrativa. The Clash, Who, Elvis Presley, Willie Nelson, Jackson Browne, Ray Charles, Grateful Dead, Platters, Johnny Cash, Peter Seeger, Eagles, Little Richard, Judy Garland, ou Sinatra, entre tantos outros, passam por aqui. Há os nomes que estão e os que faltam, que também são muitos - até podemos adivinhar  aquilo de que Dylan gosta e aquilo que não lhe interessa. Mas acima de tudo este é um livro que fala de canções, da época em que foram feitas e como Dylan as ouviu e descobriu. Não é um livro sobre intérpretes, é sobre a matéria prima da música popular - a canção. Edição original à venda na Amazon Espanha.

 

DEGUSTAR? - Há uns anos ia-se ao teatro ou a um concerto e depois comia-se alguma coisa. Juntava-se o espectáculo com um aconchegar do estômago. Depois, houve quem quisesse juntar dois em um: fez do jantar uma tentativa de espectáculo, coreografada, encenada, excessiva, provocadora. Da mesma maneira que não interferimos no que se passa no palco, limitamo-nos, nesses casos, a assistir. O chamado fine dining fez dos clientes dos restaurantes sujeitos passivos que se sentam e levam com um menu fixo, pomposamente intitulado menu degustação, uma expressão que diz que a escolha não é do cliente naquele local. É a ditadura do menu e do seu autor, o todo poderoso Chef. Por isso estou cheio de vontade de ver o filme “O Menu”, onde Ralph Fiennes desempenha o papel de Chef despótico, reproduzindo o ambiente de um restaurante estrelado pelo Guia Michelin. Leio que o filme tem um olhar acutilante sobre a natureza do serviço e que o menu de degustação é central à história,  apresentado como um exercício de exibicionismo. Uma das críticas que li diz o que eu acho que se aplica a muitos locais: “O filme retrata um Chef psicopata e autoritário que comanda um exército de assistentes submetidos ao seu absolutismo moral”. Já está em exibição em Portugal.

 

DIXIT - «Alunos que nem português sabem já querem usar o "todes". A linguagem inclusiva é, na verdade, um código para entrarmos no Lux. Corremos o risco de ela se tornar uma palavra-passe para mostrarmos se estamos in ou out» - Rui Zink

 

BACK TO BASICS - “Uma sociedade que coloca a igualdade acima da liberdade vai acabar por perder ambas” - Milton Friedman

 

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