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O ELEITORADO DO ESTADO

por falcao, em 07.12.23

 

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O PAÍS QUE VOTA - Desde 1975 realizaram-se em Portugal 66 eleições e a participação eleitoral tem sempre diminuído. Até 1987 todos os actos eleitorais tiveram mais de 60% de participação e desde 2008 nenhuma das eleições realizadas alcançou os 60% de votantes. Nas últimas legislativas, em 2022, a abstenção atingiu os 42 por cento entre os residentes em Portugal. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) indica que actualmente temos mais eleitores registados do que residentes, sublinhando que  em 2021 havia cerca de um milhão de eleitores a mais face aos residentes em Portugal com direito de voto, o que, sublinham os autores do estudo,  deturpa a análise das abstenções. Passo a citar: “os investigadores analisaram os resultados eleitorais e concluíram que esta abstenção cairia sete pontos percentuais se os portugueses que residem no estrangeiro ­- mas mantêm a sua morada no país, estando assim registados para votar em Portugal - fossem inseridos nos cadernos dos círculos eleitorais no estrangeiro. Os autores defendem que a emigração é a principal causa da abstenção técnica no país. Ou seja, é responsável por aquela parte da taxa oficial de abstenção que não resulta da opção de não votar, mas sim da existência de um número de eleitores registados superior ao dos eleitores reais”. Pegando ainda em dados da FFMS, os pensionistas representam actualmente cerca de 36% do eleitorado,cerca de 10% são funcionários públicos e quase 6% recebem rendimento mínimo ou subsídio de desemprego. Ou seja, traduzido por miúdos, 52% do eleitorado está dependente financeiramente do Estado e quase 24% têm mais de 65 anos. Todos os dirigentes partidários sabem que numa situação de abstenção alta, este eleitorado, tão dependente do Estado, estará mais inclinado para colocar a cruz do seu boletim de voto em quem fizer mais promessas de aumento de rendimentos. E não é preciso ser um analista político credenciado para perceber como estes dados condicionam as estratégias dos partidos e o resultado das eleições.  

 

SEMANADA - Nos primeiros onze meses deste ano o Estado gastou mais de 41 milhões de euros em pareceres e serviços de sociedades de advogados, a maioria por ajuste directo; nesta semana 39 serviços de urgência hospitalar têm limitações consideráveis; nos últimos trinta anos o uso de carro triplicou no país; a investigação do processo “Influencer” tem 116 dossiês com escutas telefónicas; a economia portuguesa sofreu uma contração de 0,2% no terceiro trimestre com quedas na exportações de serviços, incluindo o turismo;   desde o fim do SEF, a nova Agência Para a Integração, Migrações e Asilo recebeu 93 de pedidos de asilo no aeroporto de Lisboa, mais 60% do que a média mensal do ano passado em todos os postos de fronteira do país; está a subir o número de idosos, sem abrigo e imigrantes internados em unidades hospitalares por não terem para onde ir; até outubro as multas de trânsito já renderam 79,5 milhões de euros, um aumento de 30% face ao mesmo período do ano passado; O número de insolvências decretadas pelos tribunais portugueses está a aumentar, em particular entre as empresas e é nos distritos de Braga e do Porto que o impacto se sente mais com indústrias, sobretudo no textil e calçado a registar uma subida de 40% ; em 2022 foram registados 219 mil acidentes domésticos, sobretudo com crianças e idosos.

 

O ARCO DA VELHA - A realidade da situação económica: em apenas um ano a população sem abrigo aumentou 25% na região metropolitana de Lisboa.

 

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OUTRA FORMA DE PINTAR  - João Queiroz deu à sua nova exposição o nome de “Gepetto- Encáusticas sobre madeira”, evocando o carpinteiro que criou um pequeno boneco de madeira a que chamou Pinóquio. Não é por acaso - a exposição mostra 39 obras de pequena dimensão, todas de 21x31 cms, feitas sobre madeira e com a mesma técnica - a encáustica (na imagem). João Queiroz diz sobre estas obras: “Podemos chamar isto de brinquedos visuais”. A encáustica é uma técnica de pintura que se caracteriza pelo uso da cera como aglutinante dos pigmentos e pela mistura densa e cremosa. Depois a pintura é aplicada com pincel ou espátula quente, é uma técnica usada desde o Egipto antigo e Pompeia, frequente na Idade Média e muito utilizada para elaborar os ícones. Foi esta a técnica que João Queiroz utilizou. O artista sublinha que “a maneira de pintar o quadro é bastante diferente da pintura sobre tela, tem que ser uma construção passo a passo, é quase como fazer um brinquedo, pode raspar-se, pode fazer-se incisões, pode colocar-se pinceladas uma por cima da outra, é um processo que fica entre a carpintaria, a gravura e a pintura”.  São também de João Queiroz estas palavras sobre a sua exposição: “ não é um quadro grande, é pequeno, é outro tipo de quadro. O pequeno tem tanta intensidade como um grande, tem é que ser visto de uma forma diferente “. Gepetto- Encáusticas sobre madeira” está na Galeria Miguel Nabinho, Rua Tenente Ferreira Durão, 18B. 

 

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CANÇÕES PARA A LUA CHEIA - Desde o início do ano Peter Gabriel tem colocado mensalmente nas plataformas de streaming uma canção inédita. Com a que publicou no início deste mês ficam 12 canções, que constituem “I/O”, o seu primeiro álbum de originais desde há 21 anos. “The Guardian” diz que são doze canções que “enfrentam o tempo e a mortalidade, ao mesmo tempo que celebram a regeneração e a reconciliação”. O tema de “I/O” é a visão que Gabriel tem de um futuro onde a informação é ilimitada, procurando conciliar a tecnologia que avança do presente para o futuro, enaltecendo aquilo que só o ser humano pode dar: amor, pertença e compaixão. Gabriel, agora com 73 anos, continua a ser um perfeccionista, o que se sente na composição, nas letras, nos arranjos. Mais uma vez o título do álbum só tem  duas letras como aconteceu com “So” (1986), “Us” (1992) e “Up” “2002). “I/O” é a abreviatura de “Input/Output”. Na canção que dá o título ao álbum ele canta ““Stuff coming out, stuff going in/I’m just a part of everything.”  Ao longo destes meses, quando publicou uma nova canção, sempre na noite de lua cheia, em honra do ciclo da natureza, Peter Gabriel fez acompanhar cada canção com uma obra de um artista contemporâneo.  Para este disco Peter Gabriel voltou a contar com colaborações como a de Brian Eno, com gravações experimentais feitas ao longo dos anos e com registos de coros sul-africanos. A versão final do álbum oferece duas versões para cada canção - o “Bright Side” , com misturas de Mark Spike Stent, e o “Dark-Side”, com misturas de Tchad Blake. As primeiras são mais efusivas e as segundas mais intimistas. Quem utilizar o sistema de som Dolby Atmos também terá acesso a uma terceira versão, “In-Side”, com misturas de Hans Martin Buff. E este é o desafio que Gabriel deixa a quem ouvir o álbum - que seja cada um a decidir se quer o bright side ou o dark side. Mark Spike Stent resume a coisa assim: “não há o certo e o errado - há apenas uma escolha que cada um pode fazer”. Disponível nas plataformas de streaming.

 

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OS POEMAS DE POMAR  - “Prima Construção” é uma recolha de poemas inéditos de  Júlio Pomar. Ele já tinha editado dois livros de poemas e nos últimos anos da sua vida dedicou-se à realização de um terceiro, que nunca recebeu versão definitiva. Deixou um espólio abundante de várias centenas de poemas, alguns concebidos como letras de fados (e vários já foram musicados), “muitos aparentemente inacabados, ou constando de variações sobre o mesmo tema, sem indicação de preferência entre variantes», dizem os organizadores do volume, José Alberto Oliveira e José António Oliveira. O preâmbulo, escrito por António Lobo Antunes, começa assim: “O Júlio Pomar disse-me sempre, em alturas difíceis da minha vida: Aguenta-te, que de facto é a única coisa que se pode dizer”. Logo a seguir vêm palavras de Pomar, em jeito de resposta a António Lobo Antunes que, diz Pomar, lhe perguntava por este livro de poemas . Pomar,  em resposta, cita João Cabral de Melo Neto, em “A lição de pintura”. Disse ele: “quadro nenhum está acabado”. “Prima Contradição” é apresentado como “sentenças e dislates, divertimento em forma de poesia, arbitrariamente dividido numa dúzia (de treze) cantos”, cada um com treze poemas. Termino com uma estrofe de um dos poemas de “Prima Contradição”: ”Entre paixão e traição/Qualquer um no dia-a-dia/ Não tem que pedir perdão/Vale tudo em poesia”. Edição Assírio & Alvim. E deixo aqui uma ideia- peguem no livro e visitem o Atelier-Museu Júlio Pomar a exposição que evoca dez anos do museu e que mostra até 14 de Janeiro uma selecção dos trabalhos do artista em diversas épocas e sobre vários temas.


DOCE DE ÉPOCA - Chegou a altura das broas, o mesmo é dizer que cheira a Natal. As broas castelar são um dos doces mais característicos desta época do ano, mas cá por mim até podiam existir todos os meses. A broa castelar deve o seu nome aos proprietários da Confeitaria Francesa, os irmãos Castelar. Casa fundada em 1860, na Rua do Ouro, as suas broas depressa se tornaram um vício desde que surgiram naquele estabelecimento no final do século XIX. Os ingredientes da receita original incluem farinha de milho, farinha de trigo, batata doce, açúcar, ovos, amêndoas, canela, casca de limão e casca de laranja. Têm formato elíptico e alongado com uma cor dourada na cobertura. Há quem não as dispense a acompanhar o peru no dia de Natal, e há quem não as dispense no final da refeição, ao lado de um café. Faço parte destes últimos. E embora a concorrência seja feroz, com muitas pastelarias a terem broas castelar de fabrico próprio nos seus escaparates, para mim as que actualmente levam o primeiro prémio ex-aequo são as da Alcoa e as da Gleba. As da Alcoa são mais volumosas e densas, sem serem demasiado doces, com sabor a canela bem presente. As da Gleba, mais pequenas e afiladas, têm um sabor mais frutado e porventura são as que se aproximam mais da receita original. Na dúvida, se puderem, experimentem ambas.

 

DIXIT - “Desde 2015, o poder socialista aproveitou a folga criada por Passos Coelho para cultivar a dependência do Estado, enquanto partidarizava as instituições, mantinha a mais alta carga fiscal de sempre, e submetia a economia ao regime de favores e de compadrio exposto na Operação Influencer. Fez mais: introduziu a extrema-esquerda no poder, importou o wokismo americano, inventou divisões e promoveu a polarização. “ - Rui Ramos

 

BACK TO BASICS - “A Nossa História é um estendal de ocasiões perdidas” - Eduardo Lourenço





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