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O PAPEL DO PRESIDENTE DEVE SER ATEAR OU APAGAR FOGOS?

a esquinado rio, duas páginas às sextas no weekend do jornal de negócios

por falcao, em 23.01.26

 

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QUE QUEREMOS? - O físico Carlos Fiolhais, com a sabedoria que lhe é reconhecida, colocou a questão da segunda volta das eleições presidenciais no ponto certo: “Há um candidato do regime e outro anti-regime. Estou em crer que, por muitos defeitos que tenha, o regime vai prevalecer.” E este é o ponto certo porque entre um candidato incendiário e outro que prefere combater as chamas não há muito que hesitar. De um lado temos António José Seguro, um candidato que em 2013, face ao memorando da troika, com o Governo de Passos Coelho a tentar tirar o país da bancarrota em que Sócrates o deixou, não hesitou em se mostrar disponível para um compromisso de salvação nacional, pedido pelo então presidente Cavaco Silva. Com essa disponibilidade, incompreendida pelo PS, acabou por ser afastado por António Costa. E do outro lado temos André Ventura, o dirigente de um partido que, socorrendo-me de um levantamento feito pela revista “Sábado” em Fevereiro de 2025, tinha então dezena e meia de responsáveis e dirigentes de vários níveis do Chega que estavam envolvidos em roubos, prostituição, violação de menores e pedofilia, violência doméstica e vários outros problemas com a justiça. O que queremos na Presidência: quem procura pacificar as tensões ou quem não consegue sequer manter a ordem dentro de casa? Espero que na campanha eleitoral para a segunda volta, ao contrário do que aconteceu na primeira, se fale mais do papel de Portugal neste agitado mundo em que vivemos: o que pensam os candidatos da interferência militar noutros países? Que acham das intenções de Trump de anexar a Gronelândia e se possível outros territórios? Quem aceita que é legítimo utilizar tarifas alfandegárias como arma coerciva? Quem quer que a Europa resista a Trump e à sua nova estratégia internacional baseada na estabilidade de relações com Putin e no combate à União Europeia e ao desmembramento da Nato? Que acham os candidatos de tudo isto? Estas são  questões sobre as quais temos que saber qual o pensamento do próximo Presidente da República. E sobre elas é melhor que os partidos do Governo tenham também posição e digam quem preferem ter em Belém.

 

SEMANADA - Segundo uma empresa gestora de fortunas, Portugal foi em 2025 o quinto país do mundo que mais milionários recebeu; o risco de pobreza ou exclusão social  ameaça 2,1 milhões de pessoas em Portugal, numa percentagem acima da média europeia; o preço da carne subiu 45% em seis anos e o preço do peixe subiu 29%; o número de empresas ligadas ao sector imobiliário cresceu 20% no ano passado, o valor mais alto de todos os outros sectores económicos; no âmbito do programa Escola Segura a PSP encontrou 54 armas nas escolas portuguesas ano lectivo de 2024/25 maioritariamente armas brancas; mais de 80% dos directores de escolas dizem não ter recursos para assegurar a educação de alunos com necessidades especiais; vídeos de agressões realizadas em esquadras foram partilhados por 70 polícias em grupos de whatsapp e foram identificados dez episódios de extrema violência; existem 4800 médicos estrangeiros inscritos na Ordem dos Médicos mas apenas 976 têm contrato com o SNS; em 2025 as duas maternidades onde se realizaram mais partos são de hospitais particulares; seis em cada dez partos em hospitais privados são feitos com recurso a cesarianas, o dobro do que se verifica no sector público.

 

O ARCO DA VELHA - Na quinta feira da  semana passada existiam 108 milhões de dólares investidos em apostas nas eleições presidenciais portuguesas no Polymarket, um mercado online de apostas.

 

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CONVERSAS - Deliciei-me a ler “Susan Sontag - A Entrevista Completa da Rolling Stone” onde aborda temas que vão do corpo à espiritualidade, ao rock, feminismo, amores e sexualidade. Susan Sontag foi ensaísta, professora, crítica de arte, romancista, dramaturga e cineasta, é considerada uma das intelectuais americanas mais influentes do século XX. Escreveu, cerca de 20 livros, entre romances e ensaios sobre temas como fotografia, cultura e mídia. O autor da entrevista, Jonathan Cott, foi aluno de Sontag e, no final dos anos 70, durante alguns meses entrevistou-a, em Nova Iorque e em Paris. Na publicação original feita na revista “Rolling Stone” em 1979,  apenas foi utilizado um terço da entrevista. Cott decidiu em 2013 editar em livro todas a versão integral dessa série de conversas e é  esse livro que agora foi publicado pela Quetzal em Portugal. É  uma excelente forma de conhecer o pensamento de uma das mais importantes figuras da cultura contemporânea. São dela estas palavras:  “gosto de entrevistas porque gosto de conversar, gosto do diálogo, sei que boa parte do meu pensamento é o produto de conversas. De certo modo, o mais difícil da escrita é estar só e ter de conversar comigo própria, o que é fundamentalmente uma actividade antinatural”.

 

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MESA DE CABECEIRA - Um filósofo britânico, Tom McClelland, defende que uma das questões mais complicadas da actualidade é que a regulamentação em torno da IA está a avançar muito lentamente, enquanto o progresso na IA está a avançar muito rapidamente. A propósito disto ocorrem-me dois livros. O primeiro é do físico português Carlos Fiolhais e é um autêntico dicionário dos termos mais usados na Inteligência Artificial. Recolhe uma série de artigos semanais que Fiolhais fez para o Correio da Manhã publicados em “Inteligência Artificial de A a Z”,  uma edição Gradiva. Outro livro bem actual é “Tech Agnostic”, de Greg M. Epstein, um capelão do Massachusetts Institute of Technology que tem trabalhado nas implicações éticas do progresso tecnológico. O livro aborda como a tecnologia se está a tornar na mais poderosa religião do mundo e porque  precisa de uma reforma. A edição é da Temas e Debates.

 

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UMA EXPOSIÇÃO INVULGAR  -  Até 31 de Maio poderá ver em Serralves, “Meteorizações”, uma exposição antológica de Filipa César que mostra um conjunto de trabalhos desenvolvidos ao longo de década e meia. Filipa César, que vive e trabalha em Berlim, é uma artista e realizadora portuguesa, nascida no Porto,  que se interessa pelos aspectos ficcionais do documentário. Esta exposição, com curadoria de Inês Grosso e Paula Nascimento,  resulta de um trabalho de investigação em torno da história e da memória do movimento de libertação da Guiné-Bissau, cruzando arquivos, memória e história e desenvolvido desde 2011. Segundo a Fundação de Serralves, “o projeto aborda materiais fílmicos e documentais, práticas de circulação de imagens e modos locais de cuidar da memória visual, dialogando com o pensamento político e cultural de Amílcar Cabral, figura central do anticolonialismo do século XX.” A exposição integra filmes, documentos e materiais inéditos, desde obras iniciais da artista até produções mais recentes, e pretende desafiar o público a reflectir sobre a História do passado colonial.

 

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ROTEIRO - No Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (Rua Castro Matoso, 18) José Maçãs de Carvalho apresenta até 21 de Março  a exposição “21 minutes pour une image”.  A exposição apresenta trabalhos em fotografia  e em vídeo, recusando a oposição entre os dois suportes, e evidencia que a imagem em movimento não substitui a imagem fixa, antes a multiplica. A exposição (na imagem) tem curadoria de Daniel Madeira, e pode ser visitada de terça a sábado, das 14h00 às 18h00, com entrada livre. No Centro Cultural de Lagos Rui Sanches apresenta  até 4 de Abril“ Linha e mancha, corpo e máquina” uma exposição concebida para o Centro Cultural de Lagos, a partir de um conjunto de obras pertencentes à Coleção de Serralves e a importantes coleções em depósito na Fundação, abrangendo o trabalho de Rui Sanches ao longo de quatro décadas nas áreas do desenho e escultura. Esta mostra  integra o Programa de Exposições Itinerantes da Coleção de Serralves que tem por objetivo tornar o acervo da Fundação acessível a públicos de todas as regiões do país. Em Ponta Delgada, na Galeria Fonseca Macedo, Teresa Gonçalves Lobo apresenta um conjunto de novos trabalhos sob o título “A Ilha Como Nascente."

 

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BELAS CANÇÕES - Kurt Weil foi um compositor alemão que fez parte da sua carreira nos Estados Unidos e trabalhou com Bertolt Brecht em finais da década de 1920 na produção e criação de óperas e musicais, como "A Ópera dos Três Vinténs". Weil fugiu da Alemanha nazi e viveu e trabalhou nos Estados Unidos entre 1933 e a sua morte em 1950. A meia soprano Katie Bray pegou nalgumas das composições mais conhecidas de Weil, e noutras menos populares, e em conjunto com o pianista William Vann, o acordeonista Murray Grainger e o contrabaixista Marianne Schofield criou “In Search Of Youkali” um álbum que é uma viagem da vida de Weil enquanto compositor. O tema central do disco é precisamente o tema “Youkali”, que Weill compôs em 1935 inspirado na melodia do tango. Para Weil Youkali era a terra desejada, prometida mas nunca alcançada. O disco inclui temas cantados em alemão, francês e inglês, incluindo canções escritas por Weil para um musical baseado na  obra de Mark Twain “As Aventuras de Huckleberry Finn” no qual o compositor estava a trabalhar quando morreu. Destaque para as interpretações de “Barbarasong” , “Je ne t’aime pas”, “Surabaya Johnny”, “Happy End” e “Berlin Im Licht”, uma canção de 1928 que celebrava Berlim dos anos 20, antes de a cidade ter sido escurecida pela vitória de Hitler. Edição  Chandos, disponível nas plataformas de streaming.

 

ALMANAQUE - A prestigiada  marca de produtos ópticos e fotográficos Leica tem há meio século uma fábrica em Portugal, perto de Guimarães. E tem  uma loja no Porto (Rua Sá da Bandeira 48), que além dos seus aparelhos fotográficos é também uma galeria. É nessa Leica Gallery que a fotógrafa portuguesa Matilde Veiga  mostra até 24 de Abril “Dia de Feira”, um trabalho que mostra o ambiente dos mercados tradicionais portugueses. O mesmo espaço recebe no início de fevereiro um workshop com o fotógrafo norte americano Todd Hido.

 

DIXIT -  ”A questão agora é simples: um socialista pode estar errado muitas vezes, mas um populista é perigoso todos os dias. Um socialista vive na mesma casa democrática do que eu, somos colegas de casa e até de quarto – como nesta segunda volta. Um chegano quer destruir esta casa onde vivo, quer a portuguesa, quer a europeia, quer a internacional. Qual é a dúvida?” - Henrique Raposo, no Expresso.

 

BACK TO BASICS -  “Tudo é passado na nossa vida. O presente é apenas um poleiro com rodas, que o vento vai empurrando para cada vez mais longe” - Miguel Esteves Cardoso



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS



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