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Quando nestes dias de Outono ando nas ruas e olho para o chão fico sempre com uma dúvida: são as folhas que se sentem despejadas e mal-queridas nas árvores de onde caíram, ou são as árvores que se sentem abandonadas e nuas? Nos dias de vento tudo se agita ainda mais, as folhas rodopiam, esvoaçam, os ramos nus agitam-se, como se as quisessem ainda segurar. Andar em certas ruas nesta altura do ano é como passear no meio de uma multidão que se despe e vai largando as roupas pelo chão. Já imaginaram o que seria um cenário assim, corpos nus, das mais variadas formas e cores, todos de pé, uns mais direitos, outros mais tortos, sem sequer uma folha de árvore para os cobrir, como se fantasia que terá acontecido em tempos idos na origem do mundo? Pensar nisso aproxima-se mais de um pesadelo do que de um paraíso, digo eu. Há dias parei frente a uma árvore já despida, as suas folhas ali no chão à minha frente, e pensei que deve ter sido no ciclo das árvores que os desenhadores de moda se inspiraram para criar novas colecções conforme as estações. Tal como as montras das lojas também as árvores se vão vestindo de novas roupas ao longo do ano: depois de ficarem reduzidas aos ramos, começam a brotar rebentos e a ganhar de novo volume, para depois ficarem exuberantes, floridas, coloridas, cheias. Todos os anos recomeça este ciclo pelos campos fora e pelas ruas da cidade. Daqui a algum tempo havemos de estar a ouvir falar do recorrente encanto que os jacarandás anualmente desencadeiam quando rebentam floridos, mas agora a paisagem é feita das cores quentes do Outono no chão e dos ramos desenhados no horizonte.
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