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A PROPAGANDA CULTURAL - Bem sei que politicamente a Cultura é apenas uma flor na lapela que, em tempos eleitorais, os políticos gostam de usar para dizerem que se interessam por ela e, sobretudo, para terem uns quantos artistas a apoiá-los e a aparecerem em eventos de campanha. Já das campanhas eleitorais o tema está ausente, como temos visto. Por curiosidade fui ler diversos programas partidários na área da Cultura. O ponto comum de todos eles é a existência de frases bonitas mas vazias, ausência de medidas concretas, substituídas por  proclamações gerais de intenções. Mesmo quando descem a temas concretos, em nenhum caso dizem o que de facto pretendem fazer. A Lei do Mecenato é um bom exemplo. Aqueles que defendem a necessidade de incentivar o mecenato privado não exemplificam, com uma medida que seja, o que consideram prioritário na revisão dessa Lei - nem mesmo a simples identificação de medidas constantes da legislação de um um país onde as coisas funcionem bem. É um contraste com outras áreas onde as medidas são pormenorizadas. Tantas com contas detalhadas em vários temas e tantas promessas vagas noutras. À esquerda do PS, ou seja Bloco, PCP e Livre, o mecenato nem sequer é tema e a entrega do sector à dependência do Estado é total. Os programas do Bloco e PCP são pouco mais que cadernos reivindicativos sindicais sobre as condições de trabalho no sector.  O PS, que reivindica ser o campeão na área cultural, aponta no seu programa uma série de medidas interessantes, mas que foi incapaz de tomar nestes anos em que foi Governo. Em teoria sabe o que quer, mas não faz. Mais grave ainda, em todos os programas há como que um pudor em premiar a procura de públicos e em associar os apoios a conceder à capacidade de conseguir atrair novos públicos, de forma quantificada. Em nenhum caso se põe em causa a continuidade das rendas pagas a entidades, que se repetem anos após anos, independentemente dos resultados alcançados. A manutenção do status quo da subsídio-dependência é coisa que invade os programas de todos os partidos, em maior ou menor grau. E é um dos maiores problemas para conseguir uma estratégia cultural diferente. Os programas são pouco mais que promessas, e essas, leva-as o vento…

 

SEMANADA - Portugal é o país que está a envelhecer ao ritmo mais acelerado no conjunto dos 27 países da União Europeia; 25% das pessoas com mais de 75 anos vivem sozinhas; as exportações de azeite ultrapassaram pela primeira vez os mil milhões de euros; o Alojamento Local significa 40% das dormidas turísticas em Portugal, quase metade das dormidas em Lisboa e mais de 60% no Porto; as exportações portuguesas de calçado caíram 8,2% em 2023; nos últimos cinco anos houve 10 008 profissionais que se reformaram no SNS e, destes, 3226 são médicos; o presidente da Associação dos Administradores Hospitalares diz que o pico das reformas está para chegar; o relatório de um organismo da União Europeia afirma que Portugal foi um dos países que nos últimos 25 anos mais aumentaram a taxa máxima de imposto sobre o rendimento, em contraciclo com a maioria do estados membros; nas últimas legislativas, em 2022, a percentagem de eleitores que apenas decidiram o voto no dia das eleições foi de 14%, ou seja mais de 750 mil pessoas; o cabaz alimentar de 63 bens essenciais monitorizados pela Deco atingiu na última semana mais 50 euros do que há dois anos; o valor da cesta de alimentos monitorizados semanalmente pela Associação de Defesa do Consumidor custa agora 236,60 euros, quando no mesmo período de 2022 se ficava pelos 185,66 euros, 27% acréscimo; 25% dos votos no Alentejo nas legislativas de 2022 foram para partidos eurocéticos; em janeiro as rendas de casa cresceram 6%, o maior audmento em 30 anos; o Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Chiado, tem a sua colecção de 4500 obras encaixotadas e armazenadas há vários anos; o peso das transferências do Orçamento de Estado para as universidades e politécnicos públicos diminuiu 8,5 pontos percentuais no espaço de uma década e meia; as reclamações de utilizadores sobre serviços de entregas ao domicílio subiram 62% em 2023 e a UBER Eats lidera as queixas; os jovens de 18 anos estão a consumir mais bebidas alcoólicas de forma diária e o aumento verifica-se em todas as regiões do país.

 

O ARCO DA VELHA - Em 2022 o Estado gastou 1,7 milhões de euros para a esterilização de 44 917 animais de companhia (cães e gatos), no âmbito do Programa de Incentivo Financeiro para o Bem-estar Animal. A comparticipação do Estado às diferentes entidades foi de 20 euros por gato e 40 por cão e de 46 por gata e 72 por cadela. 

 

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AS FIGURAS DE VIEIRA DA SILVA - Embora a pintura de Vieira da Silva seja  associada à abstracção, à representação do espaço e da perspectiva e ao uso das linhas e malhas geométricas, a artista teve também uma produção figurativa que é menos conhecida. Além da ilustração para livros infanto-juvenis, onde se sente a sua criatividade e experimentação, Maria Helena Vieira da Silva trabalhou também temas académicos, como a pintura de modelo, naturezas mortas, retratos e até espaços interiores. A nova exposição da Fundação Arpad-Szènes-Vieira da Silva (FASVS), “Aquém e Além da Abstracção, mostra este lado menos conhecido. A selecção  apresentada inclui obras dos primeiros anos da artista em Paris, de 1929 a 1936, algumas propostas para concursos de 1940 e uma série de retratos e ilustrações do período de exílio no Brasil, entre 1941 e 1946, durante a Segunda Guerra Mundial. Ao longo dos anos Vieira da Silva quis sempre manter consigo estas obras, até que em 1990 integraram a colecção do Museu da FASVS, como é o caso de “Elsa Dance”, a obra aqui reproduzida e patente nesta exposição, que tem curadoria de Isabel Carlos e pode ser vista até 2 de Junho (Praça das Amoreiras 56).  Na Casa-Atelier Vieira da Silva, bem próxima do Museu, está o trabalho que o artista plástico Xana fez inspirado na obra “Rua do Ouvidor”, pintada no Rio de Janeiro por Maria Helena Vieira da Silva em 1942, uma reinterpretação a que deu o título “Rua Projectada à Rua do Ouvidor”. 

 

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ROTEIRO DAS BOAS VISTAS - Patrícia Garrido apresenta na Galeria Diferença (Rua Filipe Neri 42), um conjunto de 34 desenhos que combinam uma base de aguarela, depois rodeada por linhas contínuas que no fundo limitam o seu espaço (na imagem), sob o título “Desenhos Fechados”.  Na Biblioteca de Marvila (Rua António Gedeão), destaque para “O Olhar Encantado”, que apresenta fotografias inéditas da rodagem do filme “As Ilhas Encantadas” realizadas por Augusto Cabrita e focadas em Amália Rodrigues, que protagonizou esse filme de  Carlos Vilardebó, realizado em 1965. “Liberdade - Portugal lugar de encontros” é o título da exposição comissariada por João Pinharanda e que reúne obras de artistas de diversas proveniências que têm em comum a língua portuguesa, entre os quais Abraão Vicente, Graça Pereira Coutinho, Ângela Ferreira, Oleandro Pires Garcia, Ana Marchand, Cristina Ataíde, Manuel Botelho, Francisco Vidal e Yonamine, entre outros. O núcleo principal está na UCCLA (Avenida da Índia 110), completado por um outro núcleo, mais pequeno, no Centro Cultural de Cabo Verde (Rua de S. Bento 640). Para finalizar, se for a Londres pode aproveitar para ver até 1 de Setembro, na Tate Modern, uma exposição sobre o trabalho multifacetado de Yoko Ono, “Music Of The Mind” e a exposição sobre a obra de Philip Guston termina dia 25 de Fevereiro. 

 

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MÚSICA FÍSICA - Há três décadas Vijay Iyer estava a fazer um doutoramento em física quando resolveu que o piano, que aprendera sozinho, seria o seu destino. Iyer já tinha estudado música clássica mas foi para o jazz que se virou, trazendo uma perspectiva inovadora que conjuga a precisão da física com o imaginário poético onde se inspira. Tem seguido esse caminho, explorando ainda diversos cruzamentos com outras artes. “Compassion”, o seu novo disco, é o resultado de um trio particularmente conseguido onde além de Iyer no piano, tocam a baixista Linda May Han Oh e o baterista Tyshawn Sorey. “Compassion” é um disco diferente, mais enérgico e menos contemplativo do que é hábito de Iyer - muito por força da forma como baixo e bateria estimulam o piano. “Overjoyed”, um tema de Stevie Wonder, aqui reinterpretado, é prova disso mesmo, assim como “Maelstrom” e “Tempest”. Já “Panegyric” e “Where I Am”, mostram o lado mais reflexivo e intimista. “Nonaah”, um original de Roscoe Mitchell, é um tributo à improvisação, assim como outra versão, “Free Spirits/Drummer’s Song” ( de John Stubblefield e Geri Allen). Edição ECM, disponível em streaming.

 

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UM ROMANCE À DISTÂNCIA - Uma canção é uma história, um conto. Sérgio Godinho canta histórias e também escreve romances. Não é caso inédito, mas se partirmos do princípio que uma canção deve ser um conto, então faz sentido pensar num romance escrito por alguém que fez da música o essencial da sua vida. Vejam só esta matéria prima de uma canção: “Era uma mulher e um homem, um homem e uma mulher, e vice-versa. Viviam em duas cidade separadas por mil seiscentos e onze quilómetros, e só se conheceram realmente no início da vida adulta” - é assim que começa “Vida e Morte Nas Cidades Geminadas”, o novo romance de Sérgio Godinho, que sucede a “Coração Mais que Perfeito” e “Estocolmo”. Este “Vida e Morte Nas Cidades Geminadas” conta a história de duas personagens: Amália, portuguesa, que canta fados e vive em Guimarães, e Cédric, francês, que trabalha na morgue de Compiègne,  no norte de França. Esta história de desencontros e coincidências decorre na atualidade mas atravessa várias gerações – e várias línguas. Amália e Cédric nasceram no mesmo dia e no mesmo ano, ela em Portugal, ele em França, partilham perplexidades e um amor cheio de coincidências e dificuldades. De tudo isto nasce uma ligação que ultrapassa as distâncias mas é posta em causa pelos quotidianos, desgastando-se e levantando interrogações, desencontros e, até, desencantos. Esta é a história que Sérgio Godinho nos conta - entre o nascer e o desfazer de um amor. Edição Quetzal.

 

DIXIT - “Estamos, de facto, perante um leilão eleitoral, em que cada partido tenta dar mais do que o outro. Lamentavelmente, cada partido está, nesta campanha, mais a olhar para o retrovisor do que para o pára-brisas” - António Saraiva

 

BACK TO BASICS - “É pois evidente que quanto mais o Estado intervém na vida espontânea da sociedade, mais risco há, se não positivamente mais certeza, de a estar prejudicando” - Fernando Pessoa




 

 

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