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A NOVA POLÍTICA - Em 1964 Bob Dylan escreveu um dos seus grandes clássicos - The Times They Are A-Changin’. Dylan relatava como tudo mudava cada vez mais depressa. Se isto já era verdade há 61 anos, agora ainda é mais certo e tudo se altera de forma cada vez mais rápida. O primeiro iPhone foi apresentado por Steve Jobs há 18 anos com a promessa de que iria mudar a forma como comunicamos e vivemos. A promessa cumpriu-se e hoje as pessoas de 18 anos que irão votar nas próximas presidenciais pertencem à chamada geração Z, nascidos entre 1997 e 2012 já cresceram com smartphones, redes sociais, acesso instantâneo à informação e, também, à desinformação. Desde muito novos vivem num universo de vários ecrãs que muitas vezes utilizam em simultâneo. Em Portugal a geração Z representa, segundo o Censos de 2021, mais de 1,6 milhões de pessoas, ou seja cerca de 17% do total de eleitores inscritos. As suas escolhas entre a multidão de candidatos que se apresenta nestas presidenciais pesará muito e vão reflectir-se no resultado final. Daniel Agis é um professor e consultor catalão, especialista em comunicação e marketing. Escreveu recentemente um artigo sobre a campanha que deu a vitória a Zohran Mamdani nas eleições em Nova Iorque. Nesse artigo Agis classifica como brilhante o fenómeno mediático criado em torno do vencedor e afirma, sem subterfúgios: “Mamdani não é um ideólogo: é uma construção. Um artefacto visual desenhado com precisão por uma equipa que entende a psicologia do espectador contemporâneo.” Agis sublinha o impacto visual da campanha que fugiu aos grafismos e cores habituais nas campanhas políticas americanas e adoptou “a estética dos letreiros das mercearias de bairro: tipografia irregular, cor saturada, textura de comércio de rua”. Em vez de programa há iconografia, os vídeos utilizados, criados com o ritmo e impacto dos videoclipes dos artistas mais conhecidos, exploraram temas como rendas de casa altas, transportes públicos deficientes, falta de apoio a cuidados infantis. Na campanha Mamdani conversou com taxistas, fez comícios relâmpago no meio da rua junto a quiosques, tudo a parecer improviso, mas na realidade cumprindo um guião bem elaborado. O resultado é o que se conhece, seguidores que criaram conteúdos próprios favoráveis a Mamdani, uma comunidade que se alargou e que não seguia apenas o candidato, mas sobretudo a personagem criada. Conseguiu surgir não como um político tradicional, mas como uma marca, “recorrendo a uma estética replicável, tal qual um meme vivo, uma figura TikTok: breve, contundente, reconhecível, viral.” A história de Mamdani não é a de um desprotegido como por vezes se insinuava:”filho de intelectuais, educado em colégios caros, casado com uma designer síria, Mamdani move-se na cultura da comunicação como no seu elemento natural”, sublinha Agis, ao mesmo tempo que deixa um recado: “a política de hoje, líquida e volátil, vence-se não com ideias, mas com "vibes". Zohran Mamdani entendeu isso como poucos: na era do scroll infinito, a ideologia já não se vota. Consome-se” . Dá que pensar, não dá?
SEMANADA - Os hospitais da Grande Lisboa e do Vale do Tejo têm mais de 340 camas fechadas por falta de enfermeiros; o número de utentes que ligam para a Linha SNS 24 e ficam sem resposta tem vindo a aumentar; de Janeiro a Setembro deste ano, a linha recebeu 5,8 milhões de chamadas, mas 1,46 milhões (25,1%) não foram atendidas; as urgências do SNS registaram quase 16 milhões de atendimentos entre 2022 e junho de 2024, mais do dobro da média da OCDE; até ao final de outubro, segundo dados do Ministério da Saúde, registaram-se 154 nascimentos fora de unidades hospitalares: já houve bebés a nascer em casa, em ambulâncias, na rua, em espaços comerciais, em áreas de serviço de auto-estradas e até num TVDE; no total, desde 2022, já são quase 700 os bebés que nasceram fora de uma maternidade; os partos fora de unidades de saúde levaram o jornal espanhol El País a fazer uma reporatgem com os Bombeiros da Moita, que são os recordistas em assistência a partos em ambulâncias durante o transporte de parturientes; de acordo com o último relatório da Eurostat, Portugal está ao nível da Grécia e de países de Leste no que toca à distância que os utentes têm de percorrer até chegar a uma unidade de saúde hospitalar; quase metade dos médicos fazem trabalho à tarefa; um estudo recente indica que mais de metade dos idosos que estão em lares têm défice cognitivo, 28% nunca vêem os filhos e 75% dos idosos com demência não saem à rua; Portugal é dos países com menos camas e pessoal para tratar dos mais idosos; mais de 2000 pessoas pediram apoio através da nova linha telefónica para a prevenção do suicídio no primeiro mês de funcionamento.
O ARCO DA VELHA - Mais de três mil alunos do primeiro ciclo continuam nesta altura do ano sem professor e 25% dos alunos do 2º ano lêem com dificuldade.

COMPREENDER UM PAÍS - “Complexo Brasil”, na Gulbenkian, é uma exposição que vale mesmo a pena ver. Traça um retrato do Brasil em múltiplas componentes, mostrando diversas formas de arte, mas indo muito para além da arte e mostrando o quadro dos problemas sociais e políticos que atravessam e marcam o país. Através de vídeos, fotografias, música, pintura, escultura, arte popular e artesanato mostra-se a diversidade e criatividade do Brasil. Os vídeos, curtos, incisivos, muito bem produzidos, ajudam a perceber o que se passa e porque se passa, quer nas cidades, quer na Amazónia. Destaco o vídeo sobre a construção de Brasília e o texto, magnífico, de Clarice Lispector, lido por Adriana Calcanhoto e que é também uma das chaves para compreender os contrastes e diferenças. Há uma das frases desse texto que diz tudo: “Brasília é artificial. Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado“. Ao percorrer a exposição é mais fácil perceber como Bolsonaro ou Lula chegaram ao poder. E entende-se como o poder se mistura com a corrupção, que por sua vez se mistura com o crime, como tudo convive com as religiões ancestrais, tradicionais e modernas. Percebe-se, sobretudo, como o Brasil é um país de excessos, que parece estar sempre a recomeçar do zero e em que a cultura popular faz o papel de eixo de ligação entre tudo o resto. É, também, uma exposição sobre as relações históricas entre Brasil e Portugal, mais do que sobre as actuais. Projetada por Daniela Thomas e com curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik, a exposição, patente até 17 de Fevereiro, ocupa as duas galerias do Edifício Sede da Fundação Calouste Gulbenkian, e é acompanhada por um programa de actividades paralelas que pode ser consultado on line, por um bom catálogo que reúne textos e ensaios, além de toda a informação sobre a mostra e uma edição especial da revista Colóquio, da Gulbenkian, “Este Brasil”. Na imagem estão duas peças marcantes da exposição: “Bandeira 2011”, tinta acrílica sobre chapas de alumínio, de Emmanuel Nassar, e “Satélite Baldio 2006”, baldes e parafusos, de Marepe.

ROTEIRO - A Galeria Belo-Galsterer assinala o seu 13º aniversário com a exposição “Lost In Translation”, que reúne obras de 13 artistas, como Cristina Ataíde, Cecília Costa (na imagem), Claudia Fischer, Daniela Krtsch, Jorge Molder, Inês Moura, Maria Sassetti, Gwendolyn van der Velden e Mané Pacheco, entre outros. A curadoria é de Alda Galsterer e Alexia Alexandropolou e ficará patente até 24 de Janeiro (Rua Castilho 71, r/c). No Centro Cultural de Cascais está patente até 18 de Janeiro a exposição “A Deslocação do Olhar” que apresenta uma seleção da Coleção de Arte Contemporânea Américo Marques, que reúne obras de mais de duas dezenas de artistas portugueses, entre eles Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Eduardo Batarda, Pedro Casqueiro e Michael Biberstein, entre outros. A Galeria Zet, de Braga, inaugurou um espaço em Lisboa, na Rua da Prata 176, com fotografias de Alfredo Cunha, da sua recente série “Cartografia do Desejo”. E na Galeria This Is Not A White Cube (Rua da Emenda 72), Ana Malta apresenta novas obras sob o título “Impermanentia”.

OBSERVAÇÕES - “Relato de Certos Factos” é um dos melhores títulos que conheço para um livro que mistura relatos de casos de justiça com observações e memórias pessoais de quem escreve. E quem escreve é Yasmina Reza, uma dramaturga, argumentista e escritora francesa que juntou nas 240 páginas deste livro 53 curtos textos, sobre os mais variados assuntos, uns que são relatos de sessões de tribunais, outros que contam episódios vividos ou conhecidos pela própria e que vão de encontros com actores como Bruno Ganz a descrições do que vê à sua frente e meditações provocadas por tudo isto. O livro começa logo com uma dessas descrições: “Quando estou em Veneza, fotografo velhos de costas. quero dizer, velhos casais. Pessoas que nunca vi em lado nenhum”. Logo a seguir conta o caso da auxiliar de enfermagem que matou o marido com um tiro de carabina e o que se passou no tribunal. Pelo meio evoca ter ficado trancada dentro de uma casa de banho e elabora sobre a semelhança entre filmes de gangsters e a vida real de criminosos que estão a ser julgados. Os textos são pequenos, a maioria de meia dúzia de páginas, outros até menos. O ritmo de escrita cativa e leva-nos a querer saber mais, como Yasmina Reza pensa, o que observa e como olha para o mundo à sua volta. Fascinante. Edição Quetzal

DUETO - “Memories Of Home” é o título do primeiro registo conjunto do guitarrista John Scofield e do baixista Dave Holland. Com temas antigos e recentes compostos por ambos, o álbum foi gravado no ano passado em Nova Iorque após uma longa digressão do dueto. O nome do álbum é de um tema original de Holland, a sonoridade do disco deve muito aos blues e é um espelho das referências e preferências dos dois músicos. Edição ECM disponível em streaming.
ALMANAQUE - Até 15 de Fevereiro a Tate Britain de Londres apresenta a maior exposição dedicada à obra da fotógrafa Lee Miller, desde a sua ligação aos surrealistas parisienses aos seus trabalhos de fotografia de moda e fotografia de guerra, ao longo de 250 fotografias, entre provas de época e alguns inéditos nunca antes expostos.
DIXIT - “A pátria não consegue colocar professores nas salas de aulas nem grávidas nas salas de parto. Mas vai liderar a IA a nível mundial. Só mesmo quem acredita em unicórnios pode engolir uma treta destas”. João Miguel Tavares , no Público
BACK TO BASICS - Diz-me a experiência que aquelas pessoas que não têm vícios têm muito poucas virtudes - Abraham Lincoln
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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