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A BEBEDEIRA DO PODER - As peripécias deste desconfinamento parecem indicar que a abertura de portas foi muito mais desleixada que o seu fechamento. Todas as importantes e persistentes instruções de meados de Março e do início do confinamento resultaram porque foram claras e precisas; no desconfinamento aconteceu o contrário - pior comunicação, instruções mais difusas, menos preparação, menos acompanhamento, decisões contraditórias, mudanças de rumo frequentes - que ainda por cima é o que pode gerar maior desconfiança e perturbação, até na actividade económica. No final de Maio as pessoas estavam saturadas e era previsível que, a menos que tudo fosse muito salvaguardado, ocorreriam excessos. É dever de quem manda prever este tipo de coisas. Da mesma maneira que elogiei a persistente acção do Governo no confinamento e a forma como Costa acompanhou a situação, desta vez junto a minha voz a todos os que apontam o dedo aos dislates das últimas semanas. Já nem falo da triste cena da cerimónia de regozijo pela vinda da Champions, nem da ofensiva ideia de que aumentar o perigo era uma homenagem ao pessoal da saúde, nem das ridículas posições de Fernando Medina, que, durante os piores momentos não se ouviu nem se sentiu e que agora quer cantar de poleiro. Cito o que Ana Cristina Leonardo escreveu esta semana na sua página do Facebook: “Numa situação como a que estamos a viver, onde por muito cuidado que se tenha não existe risco zero, o inimigo é invisível à vista desarmada e o país é mesmo muito pobre, o equilíbrio entre economia e saúde pública vai ser — está a ser — difícil de gerir (...) E ter autoridade numa situação de crise conta bastante.” Foi essa autoridade que se perdeu neste recente e acidentado percurso. O poder é um vício, que por vezes embebeda e faz perder a noção da realidade, sobretudo quando os cocktails são servidos, como tem acontecido ultimamente, pelo próprio Presidente da República, em constantes happy hours com o Primeiro-Ministro.

 

SEMANADA - O número de casais em que ambos os cônjuges estão desempregados aumentou pelo terceiro mês consecutivo e atingiu em maio os 6.722 casos, uma subida de 1.207 casais face ao mesmo mês do ano passado; na segunda metade de Março verificou-se uma grande queda nas exportações, com efeitos sensíveis no défice externo do primeiro trimestre, que teve um saldo negativo de 544 milhões de euros; segundo a consultora KPMG a pandemia Covid 19 provocou uma desvalorização do plantel das equipas de futebol, que para alguns clubes do top 32 europeu ultrapassa os 20%, e que nos casos de Benfica e FC Porto supera os 15%; o PAN, que foi um dos triunfadores das mais recentes legislativas, atravessa uma intensa polémica interna com acusações de que há colaboradores pagos a falsos recibos verdes, que existem assessores parlamentares dos deputados do partido que são pagos pela Câmara de Lisboa e que as contas partidárias levantam suspeitas; segundo o INE existiam no final de 2019 10 295 909 residentes em território nacional, Lisboa mantém-se o concelho mais populoso do país, com cerca de 510 mil habitantes. Sintra, com 391 mil é o segundo maior e Vila Nova de Gaia o terceiro, com 300 mil, enquanto o Porto, com 217 mil habitantes, ocupa a quarta posição; as reservas de autocaravanas para os meses de verão aumentaram 50%, na sequência da procura de soluções alternativas para férias no contexto Covid 19.

 

CURIOSIDADES DOCES - Segundo a Marktest mais de cinco milhões de pessoas dizem ter consumido tabletes de chocolate no último ano, o que representa 59,5% da população, sendo que o consumo é maior junto das mulheres e que o consumo de  chocolate preto ultrapassa já o do  chocolate de leite.

 

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O PODER DO DESENHO -  Quando se descem os degraus da Galeria Miguel Nabinho e se chega à sala de exposições aquilo que se vê é um conjunto de desenhos que autenticamente se desenrolam por três das suas paredes. Trata-se de “Border Line”, o novo trabalho de Manuel Vieira, com praticamente sete dezenas de desenhos, relacionados entre si, mas cada um com vida autónoma. O papel pardo Kraft é a matéria prima utilizada, assim como a tinta da China e, ocasionalmente, guache. Isto, claro, além da prodigiosa imaginação do artista - onde a atracção pelo fantástico é dominante. A maior parte dos desenhos nasceu no início deste ano e a série ficou finalizada uma semana antes do confinamento - embora haja alguns que foram criados em 2017. O traço rigoroso, um trabalho manual de dimensão apreciável, a miscelânea de personagens, os temas que vão dos pesadelos do amor até viagens imaginárias e tentações variadas, criam na obra, como está exposta, um conceito de narrativa, quase uma banda desenhada gigante. A peça destina-se no entanto, também, a ser vista isoladamente - cada desenho pode ser vendido separadamente e isso introduz uma perspectiva de efémero nesta exposição - onde se sabe que o conjunto será disperso, percebendo que cada desenho acaba por contar a sua própria história. No texto da exposição Manuel Vieira escreve:  “A Arte é a última fronteira e faz-se o que se pode, com o material que se tem”. Não podia ter mais razão. A Galeria Miguel Nabinho fica na Rua Tenente Ferreira Durão 18-B, está aberta de terça a sábado à tarde, entre as 14h00 e as 19h45.

 

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ODE A NEW YORK - Delmore Schwartz, um dos escritores norte-americanos injustamente pouco conhecidos, escreveu “Nos Sonhos Começam As Responsabilidades”  em 1935 e esta colecção de short stories é considerada a sua obra maior, uma ode a Nova Iorque. Na Universidade de Siracusa, onde dava aulas, teve Lou Reed como aluno, que sublinha que Delmore foi a sua inspiração para escrever, não lhe poupando elogios no prefácio que escreveu. Delmore morreu ignorado e na miséria em 1966 e este livro foi publicado em português pela primeira vez em 2012. Nascido em Brooklyn, Delmore Schwartz foi, acima de tudo, um retratista de Nova Iorque e dos jovens heróis à descoberta do seu mundo. Com apenas 21 anos, escreveu este “Nos Sonhos Começam as Responsabilidades”, e mais tarde viria a imortalizar o seu nome como um expoente literário da geração que cresceu entre a Depressão e o começo da II Guerra Mundial. Nestes oito contos a realidade e a ficção misturam-se e, tal como o autor, também o protagonista da história é um jovem de 21 anos. Editado pela Guerra & Paz.

 

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O PODER DA PALAVRA - Em 79 anos já gravou 39 álbuns de originais. Chama-se Bob Dylan e a sua designação como Nobel da Literatura provocou polémica e levantou tempestades. Ouvindo as palavras que usa neste disco talvez os críticos possam entender melhor a razão de ser da distinção que recebeu. Este é um disco mais falado e escrito que os anteriores - “Rough And Rowdy Ways”, lançado há dias, é o seu primeiro álbum de originais em vários anos, o primeiro depois de lhe ter sido atribuído o Nobel. Antes deste novo trabalho andara no cancioneiro americano clássico, Sinatra incluído. Críticos de diversas proveniências já decretaram “Rough And Rowdy Ways” o seu melhor trabalho desde há muito tempo. É certamente aquele que transporta mais ideias, que afirma mais convicções, sobretudo aquele em que Dylan descreve melhor a forma como vê o que hoje se passa nos Estados Unidos. Não deixa de ser curioso que a primeira faixa do disco a ser divulgada, há uns meses, em pleno confinamento, tenha sido “Murder Must Foul”, um épico de 17 minutos que revive os tempos do assassinato do presidente Kennedy e salienta as lutas contra a injustiça que constituem a espinha dorsal da História da América. Ao ouvir o disco muitos criticarão a voz de Dylan, que em muitos pontos fala mais que canta, não muito longe do derradeiro registo de Leonard Cohen. Mas esta maneira de interpretar a sua música dá ainda mais força às suas palavras, coloca as ideias em primeiro plano. E, como sempre, o significado e as intenções de muitas das suas letras provocarão grandes discussões sobre todas as interpretações possíveis. Duplo CD, disponível no Spotify - dez canções, uma hora e dez de grande música. Imperdível.

 

UMA IGUARIA SERVIDA FRIA - Escolher rosbife num restaurante é muitas vezes uma aposta arriscada. Há um sem número de razões para isso: a mais frequente é que a carne não é boa; depois vem o tempero e a confecção - um rosbife fora do ponto e semi-cozido, em vez de mal passado, é fora de jogo completo! E finalmente o corte - um corte grosso e irregular arrisca-se a estragar boa carne bem confeccionada - e já nem falo dos cómicos que perguntam se queremos o rosbife aquecido com molho quente por cima para estragar ainda mais. Por isso há tão poucos sítios onde se possa pedir rosbife à vontade. Nestes dias que começam a ficar quentes, apesar da nossa proverbial ventania de fim de tarde, umas fatias de rosbife frio, de boa carne, bem cozinhado e bem cortado, sabem muito bem. Como eu cada vez gosto menos de experiências mal sucedidas e de surpresas desagradáveis, vou cada vez a menos restaurantes, escolhendo preferencialmente aqueles onde sei que não me desiludem o palato e onde sou bem atendido. Para eu ser fiel a um restaurante, o mesmo tem que ser fiel aos clientes e manter a constância da qualidade. De entre os restaurantes que mais frequento destaco hoje aquele que tem o melhor rosbife - o Salsa & Coentros, em Alvalade. Na lista  o rosbife aparece com uma anotação - “iguaria servida fria”. E de facto é uma iguaria - acompanhado por batatas fritas às rodelas feitas na hora a partir de boa matéria prima tubércula, servido com molho bearnaise e/ou mostarda de Dijon, este rosbife merece uma homenagem especial. Ele e José Duarte, o fundador e proprietário do Salsa & Coentros, sempre atento, sempre a controlar a boa qualidade daquilo que aparece nas mesas - dos vinhos da semana aos pratos tradicionais e às sugestões do dia. Fica na Rua Coronel Marques Leitão, 12, junto à Avenida da Igreja, telefone 218 410 990

 

DIXIT - “Se eu estivesse a escrever o romance da pandemia — Deus me livre e guarde! — garanto-vos que às tantas metia o Medina a dizer isto:  «Ó António! Olhe que os infectados não são meus!»” - Ana Cristina Leonardo, no Facebook

 

BACK TO BASICS - “Por aqui prefere-se o pontapé para a frente. E que o destino resolva o problema”  - Fernando Sobral



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