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Foi bonita a festa. Havia quem falasse, houve quem cantasse e tocasse. A sala estava cheia e o dia cinzento convidava a um agasalho. Quando a sala se esvaziou e as pessoas se dirigiram para o local onde estavam a ser servidos aperitivos, ficou perdido numa cadeira este casaco. Onde estaria o seu dono? Se os objectos falassem talvez se ouvisse ali, naquela sala agora vazia, a pergunta: onde está o meu dono que me deixou aqui abandonado? Às vezes acontece isto: encontra-se alguém conhecido, que há muito não se vê, e deixamos para trás alguma coisa que trazíamos quando chegámos. Foi, se calhar, assim: trocámos o que tínhamos por uma conversa que desejávamos. E como uma conversa puxa outra e uma cara conhecida nunca vem só, acaba o objecto por ficar sozinho, a quebrar o vazio das cadeiras de uma sala. Ali perto o seu dono envolve-se cada vez mais em palavras e olhares. Os encontros desejados que demoram tempo a ser alcançados, quando se concretizam finalmente, ocupam o espaço da atenção disponível. Não se pensa em mais nada do que dizer o que antes ficou por falar, na esperança que a conversa retomada possa trazer de volta a emoção que antes se sentira e nunca mais se repetira. E o casaco perdido fica ali solitário, no frio da sala vazia, enquanto a conversa que o substituíu envolve quem o deixou para trás. A vida é isto - perdem-se umas coisas quando se encontram outras.
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