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QUE PAÍS É ESTE?

a esquina do rio nº 1049

por falcao, em 25.07.25

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A PAISAGEM PORTUGUESA - A realidade é esta: apesar de haver uma grande falta de habitação muito do que se constrói em Portugal não é feito a pensar nos portugueses, mas em quem nos visita. Já sei da importância económica do turismo, da influência que tem tido na recuperação de património imobiliário que estava em ruína no centro das principais cidades, ou na quantidade de empregos que cria. Mas também sei que tem favorecido a construção desenfreada em zonas do litoral, sobretudo a sul do Tejo, que deviam ter sido protegidas, que há abusos na interdição de passagem para praias, que há uma especulação enorme nos preços nas zonas mais turísticas, que a especulação no mercado imobiliário ultrapassa tudo o que se pensava possível, que nalgumas cidades o número de veículos turísticos e TVDEs é superior ao número de veículos dos residentes em circulação, que muita gente foi levada a sair de Lisboa devido ao aumento dos preços e que o encerramento forçado de lojas históricas e comércio tradicional de proximidade alteram os hábitos sociais. E também sei que as vantagens fiscais concedidas a estrangeiros são negadas aos sobrecarregados contribuintes portugueses, criando situações de flagrante desigualdade. Olhemos pois para Lisboa, uma cidade que deixou de ser para os lisboetas, uma cidade refeita para visitantes e turistas ocasionais. António Costa e Fernando Medina lançaram os alicerces do parque temático para turistas em que Lisboa se transformou, mas Carlos Moedas pôs a feira a bombar ao som de Tony Carreira. Aviões nos céus a toda a hora, congestionamento cada vez maior num trânsito invadido por tuk-tuks e congéneres, lixo abundante nas ruas e descaracterização cada vez mais acentuada são marcas contemporâneas da capital. Aos seus subúrbios regressaram as barracas que se julgavam erradicadas, onde sobrevivem muitos dos que trabalham na grande cidade, enquanto que noutros locais surgem empreendimentos a preços milionários, muitas vezes adquiridos por estrangeiros que nem os habitam nem usam e querem ignorar a lei do país, estabelecendo manigâncias para interdição de acessos a zonas públicas, como praias. A Ministra Graça Carvalho esteve bem ao lançar uma campanha para garantir que todos os acessos ao litoral devem ser livres e sem restrições. Olhou para os portugueses. Uma raridade na política hoje em dia.

 

SEMANADA - Segundo o Eurostat Portugal foi o país da União Europeia que em média mais despendeu em alimentação, com uma despesa real per capita de 3300 euros por ano, uma subida de 43,5% face aos níveis de 2020; o preço da habitação aumentou 18,7% no primeiro trimestre; em Portugal há 115 reclusos por cada 100 mil habitantes, uma taxa de encarceramento superior à média europeia, de 105 por 100 mil; em Portugal existem em circulação 1,6 milhões de carros com mais de 20 anos; no primeiro semestre deste ano registaram-se mais acidentes, mais mortos e mais feridos nas estradas portuguesas do que há dez anos: de acordo com dados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária, desde 1 de janeiro até 15 de julho registaram-se  70.817 acidentes, mais 3490 do que no mesmo período de 2016 e em quatro anos registaram-se 2300 mortes na estrada; segundo o INE, a região do Algarve e o concelho de Albufeira em particular são os territórios com as taxas de criminalidade mais elevadas do País; Portugal é o país da UE com menos alunos do secundário a aprender duas línguas estrangeiras; segundo o Eurostat, Portugal é o segundo país da UE com a maior proporção de famílias com apenas um filho, ficando somente atrás da Eslováquia; em junho o número de pessoas sem médico de família atingiu novo recorde, com um total de 1.669.695,  mais 24 886 do que em maio e mais 64.738 do que há um ano; há 4721 casais em que ambos os membros estão desempregados.

 

O ARCO DA VELHA - Um total de 847 óbitos fetais e neonatais ocorreram em Portugal continental em 2023 e 2024, representando 0,52% dos nascimentos, com a Grande Lisboa a registar 0,70%, a percentagem mais alta entre as regiões do país.

 

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A HISTÓRIA DO MARQUÊS - Uma das figuras mais fascinantes da História de Portugal é o Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo. Personagem controversa, foi secretário de Estado do Reino durante o reinado de D. José I no século XVIII, tendo sido o responsável pelo plano de reconstrução de Lisboa depois do terramoto de 1755, além de ter lançado importantes reformas económicas, sociais e políticas. Ficou também conhecido pelo reforço do poder do Rei, diminuindo o poder da nobreza e do Clero, tendo nomeadamente confiscado os bens da Companhia de Jesus, que expulsou de Portugal. Pombal foi apelidado como o primeiro-ministro de D. José I, de quem era o homem-forte, com uma enorme influência. Esta “Primeira Biografia do Marquês de Pombal”, um conjunto de manuscritos que agora foram editados pela primeira vez em forma de livro, é baseado na obra escrita ainda em vida do Marquês, no final do século XVIII, por D. José de Mendonça, que foi Reitor da Universidade de Coimbra e, mais tarde, nomeado Cardeal Patriarca de Lisboa em 1786. É um extenso volume que retrata não só a figura do Marquês, mas também os acontecimentos ocorridos no reinado de D. José I, nomeadamente as reformas empreendidas.  A esse nível é um guia precioso para compreender a História de Portugal nesse período e não apenas a figura do Marquês de Pombal. O livro é fruto do trabalho de um grupo de investigadores, entre os quais se destacam Alícia Duhá Lose e Rafael Magalhães. No prefácio, de Pedro Calafate, Viriato Soromenho-Marques e José Eduardo Franco é sublinhado: “Pombal não foi um estadista amado, foi sobretudo um estadista temido, conquistando o poder com pulso firme, aproveitando as circunstâncias, por vezes trágicas, do mundo em que viveu, e capaz de eliminar impiedosamente os muitos obstáculos com que se debateu, em ordem à reforma profunda do país.” . Edição Temas e Debates.

 

 

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ARTE EM ELVAS - Em Elvas, até 19 de Outubro, a exposição “Um Silabário por Reconstruir” proporciona a rara oportunidade de ver uma selecção de obras de quatro dezenas de artistas contemporâneos, oriundas de três origens: a Colecção de Arte Contemporânea do Estado que está em depósito em Coimbra, a colecção da Caixa Geral de Depósitos e a Colecção António Cachola.  O Museu de Arte Contemporâneo de Elvas, MACE, onde decorre a exposição, alberga a colecção constituída ao longo dos anos por António Cachola, está localizado no centro de Elvas, na rua da Cadeia, foi inaugurado em 2007 e nasceu da recuperação do edifício de um antigo Hospital. Para esta exposição o MACE chamou como curador José Maçãs de Carvalho, que além de ser ele próprio artista com obra no campo da fotografia e do vídeo, é Professor no Colégio das Artes de Coimbra e curador do Centro de Arte Contemporânea de Coimbra - e nessa qualidade conhece bem a colecção do Estado. No caso desta exposição chamou para trabalhar consigo um dos seus alunos, Tiago Candeias. Ambos selecionaram obras de 38 artistas como Alberto Carneiro, Ana Jotta, Cristina Ataíde (na imagem o desenho “Todas as Montanhas do Mundo”, de 2010), Ilda David, José Loureiro, José Pedro Croft, Lourdes de Castro, Luísa Cunha, Pedro Cabrita Reis, Pedro Proença e Rui Chafes, entre outros. Na apresentação da exposição é indicado que o projecto curatorial é pensado a partir do universo literário, por um lado procurando as relações entre a imagem e a palavra e, por outro, pela criação de uma narrativa que pretende estabelecer um fio condutor entre as obras apresentadas.

 

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ROTEIRO - Esta semana destaco no Museu Arpad-Szenes- Vieira da Silva a exposição “Notas Sobre a Melodia das Coisas”, o quarto capítulo do projeto expositivo “331 Amoreiras em Metamorfose” concebido por Nuno Faria, que passou a dirigir o espaço no ano passado, para assinalar o 30.º aniversário da abertura do museu. O título, “Notas Sobre a Melodia das Coisas” é inspirado num livro do  poeta  Rainer Maria Rilke, e a exposição acompanha o processo criativo dos artistas e “o fascínio que a vida silenciosa dos objectos sempre suscitou nos poetas e nos pintores.” Para além de dar a descobrir, ou a redescobrir, um conjunto de obras de Vieira e Arpad (na imagem), menos vistas ou conhecidas, como ensaios sobre o tema da natureza-morta, experiências cromáticas ou composições de espaços interiores, a exposição integra trabalhos de artistas próximos do casal como Manuel Cargaleiro, Jorge Martins, Carlos Botelho, Costa Pinheiro e René Bertholo. Integra, ainda, um conjunto de pinturas de Bruno Pacheco, também sobre histórias de metamorfoses narradas por Ovídio, assim como pinturas de Eugénia Mussa e peças em cerâmica de Bela Silva. Outras sugestões: em Serralves poderá ver uma exposição dedicada à obra de arquitectura e design do finlandês Alvar Aalto e das duas mulheres com quem casou, Aino e Elissa, que com ele trabalharam num grande número de projectos. E na Casa Museu Manoel de Oliveira, também no espaço do jardim de Serralves, está patente uma exposição sobre a obra de Luís Miguel Cintra, “Pequeno Teatro do Mundo”. Para finalizar duas exposições de fotografia: em Vila Franca de Xira, no celeiro da Patriarcal, Alfredo Cunha apresenta  até 12 de Outubro a exposição “Rock” uma seleção antológica de fotografias captadas pelo autor desde 1970 até à atualidade, centradas no universo do rock em Portugal; e na Narrativa, em Lisboa, até 9 de Agosto, pode ver uma exposição da fotógrafa francesa Chloé Jafé, “Sakasa”, que documenta  a vida das mulheres da máfia japonesa, a Yakuza, onde o amor muitas vezes se cruza com violência.

 

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MÚSICA ARGENTINA - A sugestão da semana é o cruzamento entre o bandoneon (uma espécie de concertina) do argentino Dino Saluzzi com as guitarra acústica do seu filho José María Saluzzi e a guitarra eléctrica do norueguês Jacob Young, no álbum “El Viejo Caminante”. O disco inclui 12 temas instrumentais, entre os  quais alguns inéditos, outros clássicos da música argentina que  evocam o tango, mas também temas de jazz e a versão de uma  canção da norueguesa Karin Krog. Edição ECM, disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Tem graça, mas cansa: quando estão no poder, PSD e PS só vêem o que corre bem; quando não estão no poder só vêem o que corre mal” - Bárbara Reis, no “Público”.

 

BACK TO BASICS -  “Vivemos com o que ganhamos, mas o que deixamos da vida é aquilo que conseguimos fazer” - Sir Winston Churchill

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS





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