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A ESPIRAL  - Quando olhamos para os dados da evolução da inflação em Portugal constatamos um pico na segunda metade dos anos 70, que se prolonga com valores ainda altos nos anos 80 e que só a partir dos anos 90 começa a baixar. Em 1993 o valor da inflação média andava muito perto daquele que já registamos este ano, acima dos 6%. Serve isto para dizer que há quase 30 anos não tínhamos a experiência de viver com esta situação. Ou, se quisermos colocar as coisas de outra forma, há três décadas que empresas, sistema financeiro e cidadãos não se confrontavam com a incerteza que esta situação traz. Podemos ver as coisas noutro ângulo: há várias gerações de gestores, políticos e consumidores que não sabem o que é lidar com uma situação de inflação como esta que estamos a viver. Por mais que tenham estudado o mecanismo da inflação não conhecem a incerteza real e psicológica que provoca. Quem hoje está à frente do Estado e das empresas não está habituado, e muitas vezes não tem conhecimentos nem experiência, para reagir às brutais alterações que a inflação provoca a vários níveis da sociedade. Essa falta de saber e experiência é a face mais perigosa deste período que estamos a passar. Sentimos o improviso nas decisões, o receio nas medidas tomadas, a demora na reacção. E sentimos, também, uma falta de mecanismos de controlo que possam evitar que a espiral dos preços se descontrole. Uma simples visita a um supermercado ou a uma grande superfície mostra como os preços dos mais variados produtos estão a subir muito acima dos valores públicos da inflação. Nalguns casos, em bens não essenciais é certo, essa subida atinge valores muito altos. Existe a sensação de que o momento está a ser aproveitado para estabelecer preços de uma forma especulativa e não controlada. A inflação, como alguns estão agora a descobrir, produz efeitos colaterais que condicionam a vida das pessoas, obrigam a alterar comportamentos, vai acelerar todos os problemas que existem na sociedade portuguesa. Governo e empresas estarão preparados para isto?

 

SEMANADA - A execução do PRR "foi inferior a um décimo do que deveria ser" em julho e agosto, afirmou o Fórum para a Competitividade; o IVA da electricidade e do gás  podia ter descido de 23 para 6% desde Abril, quando Bruxelas o autorizou, mas o Governo não quis fazer essa redução e nem agora a tornou generalizada; a energia e os combustíveis absorvem 17% do orçamento das famílias com menores rendimentos; em Julho o INE registou 183 mil turistas vindos dos Estados Unidos, o maior número de sempre no período de um mês; especialistas defendem que para salvar a floresta 60% do pinhal tem que desaparecer; o grande incêndio da Serra da Estrela parou à entrada de Manteigas de forma natural, junto aos carvalhos e à floresta folhosa, que é de difícil combustão, ao contrário do pinhal; cinco anos depois dos incêndios que devastaram o pinhal de Leiria o mato seco vai-se acumulando, as espécies invasoras ganharam terreno e há árvores plantadas que já morreram; o diploma da reorganização da Protecção Civil, que tutela o combate aos incêndios florestais, está na gaveta há três anos; apenas 2% dos portugueses estão filiados em partidos políticos e, destes, quatro em cada cinco estão inactivo; PS e PSD têm a maioria dos seus militantes na função pública; o último relatório do Grupo de Estados Contra a Corrupção, um organismo do Conselho da Europa,  sublinha que em Portugal 12 das 15 recomendações não foram integralmente cumpridas e afirma que os juízes são os principais culpados da situação que se vive.

 

O ARCO DA VELHA - Por cada 10 euros que o Governo prometeu investir no Serviço Nacional de Saúde apenas foram gastos 1,2 euros nos primeiros seis meses do ano, o que significa que o investimento na saúde está a cair 33%.

 

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FOTOGRAFIA SEM FRONTEIRAS - O destaque desta semana vai para uma exposição de fotografias de Moira Forjaz, “Ilhéus”, patente no Mira Forum até 22 de Outubro. Moira Forjaz, natural do Zimbabwe, foi para Moçambique em meados dos anos 70, fez parte do grupo que fundou a Associação Moçambicana de Fotografia, trabalhou com nomes como David Goldblatt e Ricardo Rangel e foi uma das fotógrafas oficiais de Samora Machel. Depois, durante alguns anos viveu em Portugal e chegou ter uma galeria em Lisboa. O trabalho agora exposto foi fotografado na Ilha de Moçambique, onde vive desde 2012. Este projecto é baseado em ilhéus idosos que deixaram entrar a fotógrafa na sua intimidade, contando as suas vidas na primeira pessoa. As mulheres da Ilha vestiram as suas melhores capulanas e assim foram fotografadas e deste trabalho resultou o livro “Ilhéus”, publicado em 2019. A exposição patente no Mira Forum é baseada nesse livro e algumas destas fotografias foram expostas em Veneza, no Pavilhão de Moçambique, em 2019. O Mira Forum fica na Rua de Miraflor 155, Campanhã, Porto, e está aberto de quarta a sábado entre as 15 e as 19h00. Outro destaque vai para o Museu do Neo Realismo, em Vila Franca de Xira onde Jorge Calado apresenta uma nova montagem da exposição “A Família Humana”, integrando uma centena de novas fotografias, entre as quais trabalhos de alguns dos maiores nomes da fotografia, como Walker Evans, Alfred Eisenstaedt, David Seymour, David McCullin e Claude Jacoby. Pela primeira vez nesta colecção estão representados trabalhos de portugueses: Rita Barros, João Mariano e Pedro Bello. A colecção, que tem sido desenvolvida por Jorge Calado, já tem cerca de meio milhar de fotografias de duas centenas de autores de várias nacionalidades.

 

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NA HISTÓRIA DE PORTUGAL - Bernardo Futscher Pereira é um experiente diplomata português com vasta experiência em diversos cargos nacionais e internacionais e tem-se dedicado a estudar a política externa portuguesa e a nossa história diplomática, tendo escrito anteriormente “A Diplomacia de Salazar (1932-1949)” e “Crepúsculo do Colonialismo (1949-1961)”. Actualmente é embaixador em Rabat e  o seu novo livro,  continua os seus trabalhos anteriores, completa  a trilogia dedicada à História diplomática do Estado Novo e é um precioso contributo para melhor conhecermos a nossa História recente: “Orgulhosamente Sós, A Diplomacia em Guerra (962-1974)”. Na apresentação deste novo volume Bernardo Futscher Pereira sublinha: “ Este livro é uma crónica do último acto de uma odisseia que durou 560 anos, desde a conquista de Ceuta em 1415, até à evacuação de Luanda, em 1975. É a história de uma resistência inglória, quixotesca, por vezes criminosa, conduzida com teimosa persistência, a um processo inexorável de mudança. Essa resistência merece ser analisada para explicar a longevidade do Estado Novo e como conseguiu, de 1961 a 1974, conduzir uma guerra em três frentes numa situação de crescente isolamento internacional”. Este volume começa com a evocação da invasão de Goa em 1961, um ano terrível para o regime, o ano em que a guerra em Angola começou. A escrita de Bernardo Futscher Pereira é aliciante, factual mas não enfadonha, bem ritmada, permitindo estabelecer relações entre acontecimentos, fazendo citações da época e procurando interpretar os posicionamentos políticos. Tais como os volumes anteriores desta trilogia “Orgulhosamente Sós - A Diplomacia Em Guerra” é uma obra fundamental para a compreensão dos anos que antecederam o 25 de Abril de 1974. Editado pela D. Quixote.

 

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A GRANDE MÁQUINA CANTADA- A Garota Não chama-se Cátia Oliveira, trabalha na Câmara Municipal de Setúbal com programas para a juventude, fez rádio, escreveu e aprendeu viola quando era adolescente. Já tinha passado dos 30 anos quando gravou o seu primeiro disco, “Rua das Marimbas”. Agora lançou “2 de Abril”, o nome do bairro de Setúbal onde nasceu e cresceu, onde foi ouvindo as músicas que se cruzavam no ar, melodias ciganas, ritmos africanos, rap suburbano. No meio de tudo isto nasceu um estilo próprio, uma identidade musical rara de encontrar hoje em dia na música portuguesa - mais dada a imitações do que à descoberta criativa de novos caminhos. E esse é o grande trunfo de A Garota Não, ao conseguir afirmar-se de forma diferente, com um grande sentido do que é uma canção. Neste “2 de Abril”, há 20 temas com títulos que vão do inicial “Canção sem final” até “Manancial de livre pensamento” culminando numa homenagem: “Canção a Zé Mário Branco”. Pelo meio há uma música de Fausto, a evocação recorrente de Zeca Afonso, sobretudo na escrita das letras das canções. A sua voz e a sua forma de cantar são invulgares, as canções são histórias que ela vai narrando, episódios do quotidiano, observações sobre o que se passa à sua volta - ouçam por exemplo a “A Grande Máquina”, uma prova de vida. No disco A Garota Não tem um leque de colaboradores que vão de Ana Deus a Chullage, passando por Maria Roque e Francisca Camelo e a produção é de Sérgio Mendes. Vale a pena ouvir - está nas plataformas de streaming.

 

DE VOLTA AO PEIXE FRESCO - Depois de passar uns dias do lado de lá da fronteira regresso a Portugal e, no primeiro restaurante onde me sento, em Vila Real de Santo António, dirigem-se-me simpaticamente em espanhol. Sorri e respondi em português - mas na realidade grande parte da clientela era espanhola. E, desta, uma enorme percentagem escolhia um dos vários pratos de bacalhau propostos na lista, que aliás tinha uma secção destacada dedicada ao fiel amigo. Prosseguindo na estatística não deixei de reparar que uma boa parte dos espanhóis que escolhiam bacalhau, mostrando uma grande divergência com a Dra. Graça Freitas, nossa estimada Directora Geral da Saúde,  optava por  Bacalhau à Brás. Deixando para trás o bacalhau devo dizer que a melhor surpresa que tive em Vila Real de Santo António foi o Sem Espinhas Guadiana, na Avenida da República 56. Fui lá depois de ter tentado, sem êxito ir ao tão recomendado Cantarinha do Guadiana, sempre cheio. Mas não tive razão de queixa. No Sem Espinhas provei umas honestíssimas amêijoas à Bulhão Pato e um robalo do mar bem grelhado, fresco e saboroso. Os clientes eram maioritariamente portugueses, o serviço foi escorreito e simpático. Aqui está um sítio onde voltarei com gosto.

 

DIXIT - “É tão estranho vivermos num país onde a principal preocupação é a de gastar dinheiro, mas nunca ou quase nunca de fazer dinheiro, criar negócios, desenvolver actividades e, numa só palavra, criar riqueza” - António Barreto


BACK TO BASICS - Quando alguma coisa deixa de ser controversa, deixa também de ser um assunto interessante - William Hazlitt

 

 




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