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QUEREMOS UMA POLÍTICA DA ESCURIDÃO?

por falcao, em 05.11.21

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A PRESSA É MÁ CONSELHEIRA - Pedro Nuno Santos tem uma vantagem: diz ao que vem, sem rodeios. Não cria suspense. Ora leiam o que afirmou esta semana: “o entendimento à esquerda não foi um parênteses na história da democracia portuguesa e a direita tem de se habituar a isso”. O discurso é apelativo aos militantes do PS que gostariam de estar no Bloco de Esquerda, mas preocupante para os que acreditam no ideário social-democrata puro da fundação do PS. Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, alertou: “dentro do PS, há uma atração que eu diria às vezes mesmo uma atração fatal, um certo fascínio por fazer do PS uma espécie de ‘BE 2.0’ e esse não é o meu Partido Socialista e não é o de muitos milhares de militantes e muitos milhares de homens e mulheres que fazem o PS”. E deixou um aviso: o PS não pode abandonar o centro político sob pena de abandonar uma parte importante do eleitorado. Assim sendo, entre o que Pedro Nuno Santos diz e o que Adalberto Campos Fernandes defende, surge a certeza de que também no PS, como no CDS e PSD, existe uma clivagem em questões fundamentais - não só de alianças, mas de todo um programa político. Numa situação assim as propostas sobre as quais o eleitorado é chamado a pronunciar-se têm de ser claras. Esta semana foi conhecida uma carta aberta de um grupo de cidadãos que apela a que não surjam precipitações e que se proporcione condições para que próximas eleições possam resultar numa clarificação e não numa nova confusão: “Está em causa o respeito integral pela igualdade de oportunidades e imparcialidade no tratamento de candidaturas expressamente garantidas pela Lei dos Partidos Políticos. Trata-se de um valor político-constitucional inafastável, que não podendo prevalecer em exclusivo, deve fazer parte da equação decisória. Havendo vários partidos com processos eleitorais internos, regulares, obrigatórios e previamente iniciados, a resposta democrática não pode ser exigir-lhes que prescindam da democracia interna.” E sublinham: “A preparação dos programas e escolha dos candidatos, os vários debates e a campanha devem decorrer em tempo rápido mas razoável, sem precipitações que sempre frustrariam os objectivos de esclarecimento dos eleitores e de superação dos impasses políticos”. Ao ler esta oportuna carta aberta lembrei-me desta velha citação: “O dever daqueles que são eleitos é defender o povo face ao Estado e não impôr o que o Estado decide ao povo.”. A pressa é má conselheira.



SEMANADA - Portugal aproveitou apenas metade dos fundos da União Europeia para apoio a refugiados e as organizações que trabalham no terreno queixam-se de um processo com muitas falhas e de falta de transparência na forma como o dinheiro tem sido gerido; o Plano de Recuperação de Aprendizagens lançado pelo Governo para apoiar a escola pública tem o cumprimento das metas em dúvida devido à falta de professores, de computadores, de redes wi-fi funcionais e até de falta de tomadas eléctricas em muitas salas de aula; o trabalho extraordinário  realizado por profissionais do Serviço Nacional de Saúde entre Janeiro e Setembro deste ano já atingia cerca de 17 milhões de horas, mais 36% do que em igual período do ano passado; a pandemia pode ter deixado sem diagnóstico 4400 casos de cancro; o endurecimento de penas e a simplificação de processos não estão entre as cinco medidas mais urgentes preconizadas pelo Observatório de Economia e Gestão da Fraude num livro recentemente publicado; uma reportagem da SIC mostrou que além de Eduardo Cabrita, também os carros oficiais de Pedro Nuno dos Santos, Matos Fernandes e João Galamba foram apanhados em excesso de velocidade; José Manuel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária portuguesa, afirmou que os carros do Estado não devem infringir as normas, até por uma questão de exemplo; 400 jactos privados transportaram participantes na cimeira do clima na Escócia; o Ministério da Economia divulgou uma avaliação onde se verifica que o impacto económico da web summit ficou aquém do esperado em termos de receita fiscal, no valor acrescentado bruto e na criação de emprego; segundo o Eurostat, em 2020 Portugal foi o 4.º maior produtor e o 2.º maior exportador de abóboras da Europa.

 

O ARCO DA VELHA - A GNR tem estado a investigar papel higiénico e fragmentos biológicos com o objectivo de tentar provar que Nuno Santos, a vítima mortal do carro que transportava o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita,  no dia 18 de Junho na A6, não estaria a trabalhar quando foi atropelado. 

 

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OS COLECCIONADORES  - No Centro Cultural de Cascais, pode ser vista uma exposição montada a partir da Colecção Norlinda e José Lima, iniciada há mais de 40 anos pelas mãos do empresário português da indústria do calçado José Lima,  uma das mais significativas e abrangentes coleções de arte privada do país, e que está baseada no vinda do Centro de Arte Oliva, de S. João da Madeira. Formada por aproximadamente 1300 obras de cerca de 480 artistas de todo o mundo, a mostra "Entre as Palavras e os Silêncios” reúne 104 obras dessa colecção, entre pinturas, desenhos, fotografias, esculturas e instalações, realizadas por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos, portugueses e estrangeiros, muitas delas nunca antes mostradas em Cascais ou Lisboa, com curadoria de Luisa Soares de Oliveira e Andreia Guimarães. Ali podem ser vistos trabalhos de Paula Rego, Andy Warhol, Julião Sarmento, Rui Chafes, Cindy Sherman, Júlio Pomar, Damien Hirst e Victor Vasarely, entre tantos outros. Esta fotografia da exposição é de Valter Vinagre. A ver até 6 de Fevereiro de 2022. Vem a propósito dizer que nos últimos tempos tem sido frequente a apresentação pública de colecções de arte privadas. O próprio Primeiro Ministro tem assinalado o 5 de Outubro para abrir as portas da sua residência oficial e aí mostrar obras de colecções particulares. Até ao mês passado estava a de Fernando Figueiredo Ribeiro e agora estão 41 peças da colecção de Ana Cristina e António Albertino, dois coleccionadores de Coimbra. Até bem recentemente esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga a “Colecção Utópica”, com peças do Museu do Caramulo, desde o primeiro Picasso que se expôs em Portugal, até obras de Amadeo-Souza Cardoso ou Maria Helena Vieira da Silva. E  no Museu Arpad Szenes / Vieira da Silva, que já em 2018 apresentou a colecção de António Pinto da Fonseca, estão  agora obras de Arpad e Vieira da Silva da colecção da Fundação Ilídio de Pinho. Em janeiro, no Museu do Chiado será mostrada a colecção de Mário Teixeira da Silva (galeria Módulo) . 

 

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CONTRIBUTOS PARA A COMPREENSÃO DA VIDA -  “Um Caminho no Mundo” é a 11ª novela de V.S. Naipaul, editada originalmente em 1994, muito antes de o autor ter recebido o Nobel da Literatura em 2001. O livro, agora com uma edição portuguesa, ultrapassa os limites daquilo que se pode esperar de uma obra de ficção. A história é composta por nove narrativas ligadas entre si e complementares, algumas de natureza mais pessoal, outras mais históricas e outras mais ficcionais. O conteúdo é épico e integra personagens como Cristóvão Colombo, Sir Walter Raleigh, Simon Bolívar e o revolucionário venezuelano Francisco Miranda. A obra começa nas Caraíbas dos tempos modernos, nos anos de 1940, e acaba num país da África Oriental. É na terra natal de Naipaul, Trindade e Tobago, mais especificamente em Port of Spain, a cidade onde viveu na juventude, que a história se inicia - tinha ele 17 anos, acabado de sair do ensino secundário, ocupando os meses de Verão com um trabalho administrativo, como escrivão nos Arquivos de Estado, até que aos 18 anos vai para Inglaterra, estudar literatura em Oxford.  Naipaul interroga-se sobre a sua própria vida, o caminho que percorreu até se tornar escritor, como se transformou de um tímido e inexperiente jovem de uma colónia distante numa voz do exílio que alcançou a fama. O livro conta a história de Blair, um funcionário público local competente, sistematicamente ultrapassado por quadros brancos vindos de Londres. Percebe-se a radicalização política na ilha e a desilusão de Blair que sai da sua terra e se transforma num reputado conselheiro financeiro que auxilia governos do terceiro mundo. Numa dessas missões, num corrupto país da África, Blair é assassinado por ordem de altos funcionários do governo envolvidos no contrabando, de marfim a ouro, que ele se preparava para denunciar. Esta é considerada uma das grandes obras de Naipaul, “uma viagem pelo mistério dos destinos humanos e uma observação de como a História molda a personalidade e esta molda a História”. Edição Quetzal, traduzida por Maria João Lourenço.

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O TROMPETE MÁGICO - O trompetista italiano Enrico Rava, actualmente com 82 anos, é uma das principais figuras do jazz europeu e tem desempenhado um importante papel na formação de jovens músicos no seu país.  O seu mais recente disco é uma gravação ao vivo, realizada no Middelheim Festival, de Antuérpia, há dois anos. Reza a história que Rava começou por tocar trombone mas, depois de ter ouvido Miles Davis, entregou-se ao trompete. Ao todo tem meia centena de discos e desde 2004 tem editado com a ECM. Como se pode ouvir neste “Edizione Speciale” ele fala com  o trompete ao longo dos seis temas que preenchem esta hora de gravação. Aqui ele é acompanhado por um grupo de jovens músicos que como ele se entregam à improvisação, deixando espaço para o trompete, mas respondendo sem receio aos desafios melódicos que Rava vai lançando: Francesco Bearzatti no sax tenor,  Giovanni Guidi no piano, Francesco Diodati na guitarra, Gabriele Evangelista no baixo e Enrico Morello na bateria. Os temas do disco incluem versões de trabalhos anteriores de Rava desde uma versão de uma gravação de 1978, até “Wild Dance” de 2015, passando por “The Fearless Five” de 1978,  ou a evocação de uma melodia italiana, “Le Solite Cose”, que evolui para um arrebatador “iva”. Registo também uma versão de “Once Upon A Summertime” de Michel Legrand e outra do clássico cubano  “Quizás, Quizás, Quizás”. Um dos temas mais fascinantes do disco é logo o de abertura, “Infant” onde os músicos deste sexteto mostram logo todo o seu potencial. 



DIXIT - “Não se vai para eleições nacionais a fugir de eleições partidárias. Ninguém vota em dois cobardes para tomar conta de um país” - João Miguel Tavares

 

BACK TO BASICS - São muito raras as pessoas que ouvem aquilo que não querem ouvir - Dick Cavett

 

 







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publicado às 11:00


1 comentário

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De Joao Almeida a 06.11.2021 às 08:45

0 remate final, Back to Basis, situa-se no âmbito do fora do comum.
Abraço. João

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