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VITAMINAS ABSTENCIONISTAS - Se o Parlamento não se respeita a si próprio, como podem os eleitores respeitá-lo e porque hão-de os abstencionistas querer votar? A pergunta surge numa semana em que se descobriu mais um caso no Parlamento, depois das moradas falsas que deputados indicaram para ganharem mais uns cobres em subsídios de deslocações. Desta feita a coisa desceu a um nível ainda mais baixo, com um deputado, que é secretário geral do maior partido da oposição, a vigarizar a folha de presenças no plenário, pedindo a um colega de bancada para assinar por ele - no caso electronicamente através de uma password de exclusivo uso pessoal que assim, contra todas as normas, foi desviada da sua finalidade. Nem parece que estamos num parlamento, a coisa assemelha-se a um recreio onde miúdos inconscientes fazem asneiras que pedem a amigos para depois ocultar. A pouca vergonha cometida vale 69 euros por dia - curioso número como em tempos disse um Presidente da Assembleia da República. O facto de um deputado entrar na batota - e o embaraço silencioso dos seus pares - diz tudo sobre o estado a que chegámos. A coisa chegou ao nível das anedotas do menino Tonecas, só que a asneira, em vez de punida exemplarmente pelo líder do partido a que pertence, é classificada por Rui Rio como uma “pequena questiúncula” sem importância. Tenciona ele manter José Silvano como Secretário-Geral do PSD ou vai reforçar a dose de vitaminas abstencionistas ao eleitorado? Este Parlamento está a entrar na idade das trevas. E ao PSD não há luz que o ilumine.

 

SEMANADA - Na semana da Web Summit em Lisboa, a capital grega, Atenas, foi designada Capital Europeia da Inovação; no caso de Tancos, desde que se realizaram as detenções de elementos da PJM, o Presidente da República e o Primeiro Ministro já se pronunciaram publicamente 19 vezes sobre o tema - 11 por parte do Presidente e oito pelo chefe do Governo; António Costa afirmou que o Presidente da República manifestava ansiedade em relação a Tancos; um estudo divulgado esta semana indica que dois em cada três portugueses lêem as notícias de actualidade on line; o total das transações imobiliárias realizadas em 2017, representou um investimento de 24,3 mil milhões de euros, mais seis mil milhões de euros que em 2016, uma variação homóloga de 33,5%; há 14 concorrentes à construção de uma base espacial nos Açores; 50 milhões de euros é o investimento para os próximos cinco anos do STARLab, um laboratório conjunto de investigação e desenvolvimento tecnológico para o Espaço e para os oceanos que vai ser criado por Portugal e a China;  o Governo anunciou 100 milhões de euros para startups tecnológicas provenientes do Fundo Europeu de Investimento Estratégico; a Liga dos Bombeiros Portugueses classificou esta quarta-feira como "completamente desajustada da realidade do país" a nova lei orgânica da Autoridade Nacional de Proteção Civil.

 

IDIOSSINCRASIAS SOCIALISTAS - Manuel Alegre escreveu uma carta-aberta a António Costa, a propósito da posição da Ministra da Cultura sobre as touradas, onde sublinha que “é chegada a hora de enfrentar cultural e civicamente o fanatismo do politicamente correcto”.

 

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ANA, EU GOSTAVA DE IR CONTIGO PARA ÁFRICA - “Metade da Vida”, de V.S. Naipaul, originalmente publicado em 2001 (o ano em que o escritor  ganhou o Nobel) é um romance absolutamente cativante em que parte da história se passa com referências a Moçambique, ainda no tempo em que era uma colónia portuguesa. As origens familiares de Naipaul, vêm da Índia - embora tenha nascido em Trindade e Tobago e ido cedo para Inglaterra, onde estudou. Este romance cruza o dilema da própria família de Naipaul, entre as tradições e castas da Índia e a descoberta de novos mundos. O romance gira à volta de Willie Somerset Chandran, fruto da união entre um pai brâmane e uma mãe de casta inferior. Willie vai estudar para Londres onde, entre várias peripécias e aventuras, publica um livro de contos e se defronta com a descoberta da sua sexualidade - afastada de qualquer sentimento. O amor descobre-o por acaso numa noite londrina com Ana, uma jovem mestiça, de Moçambique, que ali estudava e que lhe escreve elogiando esse livro de contos. Apaixonado pela primeira vez, Willie segue Ana até ao seu país, ainda sob domínio colonial. As páginas do livro em que Willie conta a sua experiência africana, relatadas do ponto de vista de um homem que não sabe de onde vem, são brilhantes. No fim, após 18 anos, em vésperas da independência, Willie decide que precisa de viver outra vida - a que deixou de viver. E parte, dizendo a Ana: “Tenho quarenta e um anos. Estou cansado de viver a tua vida”.  V.S. Naipaul, “Metade da Vida”, tradução de José Vieira de Lima, editado pela Quetzal.

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DE OLHOS NOS OLHOS - Pedro Calapez produziu quatro dezenas de novas obras para serem apresentadas de forma invulgar - a maioria delas cirurgicamente colocadas ao longo das salas da Casa Museu Medeiros e Almeida (na imagem). A exposição tem um percurso recomendado e sugere-se a consulta de uma folha informativa que permite ir seguindo sala a sala o que se passa - e aí procurando e descobrindo as obras (algumas delas em locais pouco evidentes). O título da exposição é “Olhos nos Olhos” : “Procurarmos perceber porque determinados olhares não se fixam no nosso é o que permite penetrar no interior da pintura” - escreve Pedro Calapez no texto que acompanha a exposição. A montagem é muito cuidada, cada obra de Calapez integra-se nuns casos e provoca noutros, no meio da colecção de preciosidades do local, desde a capela à biblioteca, passando pelas outras salas do 1º andar. Na realidade trata-se de uma dupla descoberta - a de visitar este espaço pouco conhecido com a memória que lá está salvaguardada e, paralelamente,  ver a nova produção artística de Calapez, que em várias peças abre pistas de desenvolvimento da sua obra. Para além da miscigenação com a colecção da Casa Museu, há um espaço onde várias obras se apresentam a solo, com destaque para um conjunto da série de onze telas “ A Dor passou Para Os Quadros” e a pintura a pastel de óleo sobre papel “Como Os Homens Se Metem Para Dentro”. Todas as obras seguirão depois para a Alemanha, onde Pedro Calapez terá uma mostra brevemente. A exposição pode ser vista até 21 de Dezembro na Casa Museu Medeiros e Almeida, Rua Rosa Araújo nº 41.

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MAGANICES  - Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa Magano é quem demonstra pouca ou nenhuma responsabilidade e é dado à lascívia, quem é jovial ou gosta de se divertir ou ainda quem demonstra malícia ou malandrice. Dito isto é também o nome de um trio dedicado à música popular alentejana, sem conservadorismos e com arrojo. Francisco Brito no contrabaixo e teclados, Nuno Ramos na guitarra e voz e Sofia Ramos na voz e no harmónio constituem os Magano cujo disco de estreia acaba de ser editado. O disco tem ainda participações de André Sousa Machado na percussão (exemplares, por sinal) e André Santos na Viola de arame e braguinha. Das 13 faixas deste álbum a maioria é baseada em temas populares.alguns com intervenções nas letras de nomes como João Monge ou Vanda Rodrigues. Dois são originais - “Que É Feito Dos Velhos Montes” de José Borralho e o magnífico “Açorda d’Alho”, uma deliciosa receita cantada de Joaquim Marrafa e Joaquim Banza. Tenho para mim que uma das razões da importância deste disco está nos arranjos e na sua conjugação com a voz de Sofia Ramos - o expoente é o tradicional “Trigueirinha Alentejana”, mas “Promessas” não lhe fica atrás. Sofia Ramos é uma voz rara, pela sua capacidade de interpretação, pelo timbre, pelo ritmo, pela entoação. Não é frequente em Portugal encontrar uma voz assim e, só por si, ela é razão bastante para ouvir este “Magano” com muita atenção.

 

ÁGUA-PÉ E CASTANHAS -  De onde vem a tradição de S. Martinho? Remonta ao início do século V e evoca Martinho de Tours, que fundou o mais antigo mosteiro conhecido na Europa, na região de Ligugé. Conhecido pelos seus milagres, o santo atraía multidões, foi ordenado bispo de Tours em 371 e foi sepultado a 11 de Novembro de 397 DC em Tours, que, por isso,  poucos anos depois se tornou local de peregrinação. Manda a tradição que desde essa época, na véspera e no dia das comemorações, o tempo melhora e o sol aparece, o que está na origem da expressão “verão de São Martinho”. O dia de São Martinho é festejado um pouco por toda a Europa, de forma diferente. Por exemplo em Espanha matam-se porcos, tradição que deu origem ao ditado popular “a cada cerdo le llega su San Martín” (“cada porco tem o seu São Martinho”). Em Portugal é tradição fazer-se uma festa, o magusto, beber-se água-pé ou jeropiga e provar-se  o vinho novo saído das vindimas de Setembro - seguindo o ditado popular, “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”. Mas a grande bebida deste dia é a água pé - que resulta da adição de mosto remanescente das uvas pisadas para o vinho com água e o engaço esmagado - o resultado é uma bebida leve, frequentemente um pouco gasosa. As normas europeias e a cegueira dos burocratas nacionais arredaram a água pé da legalidade e ela passou a ser mais ou menos clandestina ou comercializada com outros nomes. Acompanha bem os petiscos naturais desta época do ano, na celebração do Outono - castanhas, marmelo nas suas várias formas, e romãs.

 

DIXIT - “Se pensam que me calam, não me calam” - Marcelo Rebelo de Sousa

 

BOLSA DE VALORES - A Balcony é uma das mais recentes galerias de arte de Lisboa que trabalha com jovens artistas. “Sanditosamente” é uma exposição de Philipp Schwalb e DeAlmeida e Silva com obras muito estimulantes cujos preços vão de 600 a 8000 euros, dependendo dos materiais e dimensões, a grande maioria entre os 1500 e os 2000 euros. Rua Coronel Bento Roma 12A, www.balcony.pt

 

BACK TO BASICS - Não é a morte que devemos temer, mas sim não sentirmos que devemos começar a viver - Marcus Aurelius Antoninus

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