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TV POLÍTICA - A campanha eleitoral oficial ainda não começou e já tivemos três fins de semana de comícios, maquilhados de Congressos e Convenções convenientemente agendados para captar tempo de antena. Primeiro foi o PS, depois veio o Chega e por fim a AD, já para não falar de iniciativas menores de outros partidos parlamentares - desde os queixumes à la Calimero de Rui Tavares sobre a falta de atenção que lhe é dada, até aos malabarismos oratórios de outro Rui, o Rocha,  da nova IL. A seguir, já no período de campanha,  vamos ter cerca de três dezenas e meia de debates em vários canais de televisão. E, claro, teremos todos os dias comentadores, analistas, oráculos de raças diversas que farão a análise de tudo o que se passou, nos mesmos canais, repetindo-se em círculo vicioso como se analisassem um jogo de futebol. É um país a falar para o umbigo, fechado no universo da política, cada vez mais distante das pessoas. Por curiosidade andei a seguir como tinha sido o comportamento das audiências das televisões nos canais de cabo que maior acompanhamento fizeram das reuniões do PS, Chega e AD, muitas vezes com transmissões quase integrais desses eventos. Olhando para os números verifica-se que nenhum deles conseguiu audiências significativas e, nalguns casos, até ficaram abaixo dos resultados da programação habitual que tinham nos mesmos horários em fins de semana anteriores. Num panorama de  queda progressiva de audiências dos canais generalistas (SIC, TVI e RTP1) será curioso ver como esta avalanche de debates e comentários impacta , ou não, nos valores da abstenção e na evolução das tendências de voto. Já agora, o programa de televisão mais visto da semana passada foi “O Preço Certo”, de Fernando Mendes. 

 

SEMANADA - Em 2023 passaram pelo terminal de cruzeiros de Lisboa 758.328 passageiros, mais 54% do que no ano anterior; o cabaz de alimentos estudado pela DECO sofreu um aumento de 28% em dois anos, superando em 16 pontos a soma dos aumentos das taxas de inflação no mesmo período; o número de casos de doenças sexualmente transmissíveis está acima dos valores pré pandemia, nomeadamente a sífilis que aumentou 125% em três anos; no ano passado foram concedidos mais de dois mil milhões de euros de empréstimos para compras de carros usados, o maior valor de sempre; a produção intensiva de fruta e hortícolas em Alcácer do Sal já ocupa três mil hectares e usa água de 130 furos, ameaçando os recursos hídricos da região; a venda de casas caíu 17% em 2023; em doze meses de liderança de Rui Rocha a Iniciativa Liberal perdeu mais de 40 membros por divergências ideológicas, acusações de nepotismo e de falta de democracia; só 0,7% dos alunos do 5º ano sabem identificar um mapa da Península Ibérica; a disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica perdeu 122 mil alunos no espaço de uma década; o número de desempregados subiu em Dezembro para 317.659 pessoas; no ano passado a Ordem dos Enfermeiros recebeu 1689 pedidos para emigrar, mais 527 do que no ano anterior, um aumento de 45%; ao longo de 2023 inscreveram-se nos centros de emprego 562 mil pessoas, num aumento de 10% em relação ao ano anterior.

 

O ARCO DA VELHA - Nas eleições de há 50 anos houve 500 mil abstenções, há 20 anos um pouco mais de três milhões e, há dois anos, perto de cinco milhões e meio.

 

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A DERROTA DOS FRANCESES - Vale sempre a pena recordar a História, neste caso as invasões francesas. E aqui está um livro mesmo bom para ler nestes tempos em que assistimos a uma nova, e por vezes desagradável, invasão francesa em algumas das nossas cidades. "Mapa Cor de Sangue", do jornalista Rui Cardoso, é uma obra sobre as lutas e tragédias vividas em Portugal no tempo das Invasões Francesas e mostra o retrato sangrento de uma época. O livro faz uma pormenorizada descrição da forma como decorreram, do ponto de vista militar, as três invasões e ajuda a compreender os movimentos das tropas em confronto. Rui Cardoso, que já anteriormente escrevera sobre as invasões francesas, salienta que “massacres como os ocorridos em Leiria, Évora e tantos outros locais estão perfeitamente documentados e não podem ser esquecidos. Pelos critérios de hoje seriam considerados genocidas e violadores dos mais elementares direitos humanos”.  Os invasores franceses fizeram reféns, executaram sumariamente guerrilheiros , saquearam localidades e cometeram horrores por onde passaram. A coisa não ficou, felizmente, sem resposta, mesmo sabendo que quem ousou rebelar-se contra os franceses seria punido. Os habitantes de Vila Viçosa, Rio Maior, Alpedrinha e Régua são brutalmente castigados pelos soldados de Napoleão, mas nada se compara aos massacres cometidos pelos franceses em Leiria e Beja. Em São João da Madeira, a retaliação pela morte de um oficial francês leva à execução de um em cada cinco homens e rapazes da Arrifana. Há duzentos anos por três vezes os generais de Napoleão invadiram Portugal e por três vezes os franceses foram derrotados pelos portugueses, com o auxílio dos nossos aliados ingleses. Às vezes é bom recordar como resistimos e vencemos os invasores. “Mapa Cor de Sangue”, de Rui Cardoso, edição Oficina do Livro.

 

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OUTRO FADO - O Estado, esse polvo sufocante, tem falta de memória e esqueceu-se das comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões. Mas a fadista Lina (Lina Cardoso Rodrigues) é um dos expoentes da nova geração desse género musical e não se esqueceu e revisitou a lírica camoniana, com recurso a composições tradicionais do Fado. Na tarefa foi ajudada por Amélia Muge e sem pruridos recorreu aos talentos de Justin Adams, um produtor que já trabalhou com Brian Eno e vários nomes da World Music. A seu lado, musicalmente, estiveram Pedro Viana (guitarra portuguesa), John Baggott (teclas) e Ianina Khmelik (violino). Ou seja, Lina ousou a heresia de navegar fora de águas conhecidas e lançou-se à aventura, tal como Camões. E foi muito bem sucedida no cruzamento da lírica camoniana com a estrutura dos fados tradicionais. Para “Fado Camões”, o seu quarto disco, Lina e Amélia Muge escolheram, entre as melodias tradicionais, as que mais se coadunam aos temas dos poemas. O início faz-se com “Desamor”  e logo aí se percebe que estamos num patamar pouco habitual - do ponto de vista musical mas também vocal. São 12 poemas de Camões onde a guitarra coexiste com teclados, caixas de ritmo, guitarra eléctrica ou violino até ao final com “Pois Meus Olhos Não Cansam de Chorar”. Lina, que cantou no Círculo Portuense de Ópera e estudou canto no Conservatório do Porto,  estreou-se como compositora neste álbum e musicou dois dos poemas. Canta com uma voz limpa e intensa, emotiva sem ser piegas. Um grande disco, disponível em streaming.

 

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O FASCÍNIO DO ORIENTE -  Albano da Silva Pereira foi o criador dos Encontros de Fotografia de Coimbra, é ele próprio um fotógrafo reconhecido, um eterno viajante e um coleccionador compulsivo. “Netsuke”, é  exposição que preparava há anos e que está agora patente no Pavilhão Branco, das Galerias Municipais de Lisboa, com curadoria de Sara Antónia Matos, até 31 de Março. É a exposição de uma vida, que junta a obra fotográfica de Albano da Silva Pereira, as suas incursões no cinema (foi assistente de Manoel de Oliveira) e a sua colecção de objetos e talismãs provenientes da cultura japonesa. Inclui também uma alusão às referências principais do cinema japonês, da escrita e da estampa japonesa. O nome da exposição, netsuke,  evoca uma pequena cavilha entalhada ou esculpida, criada no Japão no século XVII, para prender pequenas bolsas aos quimonos. A construção da exposição baseia-se em dois eixos, que se cruzam entre si: o coleccionador e o artista. Do primeiro resulta a colecção de objectos, raros e preciosos da cultura japonesa e do segundo provém um conjunto de imagens em fotografia e filme que decorrem das viagens do autor ao Japão. As fotografias incluem imagens das ruas de Kyoto, Tóquio ou Hiroshima, mas também de objectos e uma série feita no tradicional Imperial Hotel. A exposição começa e encerra com  auto-retratos do artista, feitos na sequência de um acidente de moto, série a que deu o nome “Still Alive”. Outro destaque vai para  a exposição “Uncertain Smile - Auto Retratos e Paisagem”, que recolhe pintura e desenho de Miguel Navas, que pode ser vista até 17 de Fevereiro na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101). Além de cerca de uma dezena de pinturas que nos fazem percorrer o universo que Navas vai descobrindo, há uma parede repleta de desenhos, todos eles auto-retratos, que por vezes surpreendem e por vezes inquietam.

 

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UM EXEMPLO - Maria da Graça Dias Coelho Carmona e Costa, que desapareceu esta semana aos 91 anos, é um raro exemplo do que pode ser a actuação empenhada da sociedade civil em prol da cultura. Fundadora e Presidente da Fundação Victor e Graça Carmona e Costa, foi, apesar das limitações da Lei do Mecenato, uma mecenas activa e conhecedora que gostava de falar e estar com os artistas, que apoiou exposições, projectos, patrocinou catálogos e livros. Foi galerista, coleccionadora, amiga. O desenho era a sua paixão, mas foi sempre observadora informada e atenta da produção artística contemporânea nos seus vários géneros. Ajudou o início de carreiras, seguia de forma muito presente a produção dos artistas que acompanhou ao longo da vida, desde a Galeria Quadrum, onde trabalhou com Dulce d’Agro, depois na Giefarte, que criou, e mais tarde na Fundação e nas exposições que patrocinava em diversos locais. Ainda viu a sua coleção exposta, nomeadamente na Fundação a que presidia e no  MAAT, onde continua o seu “Álbum de Família “. Criou o BAC, Banco de Arte Contemporânea , que inicialmente financiou e que continua sem ter local condigno onde o espólio dos artistas possa ser preservado, estudado e mostrado em boas condições, como ela desejava. Infelizmente não o conseguiu ver a funcionar em pleno,  apesar de todo o esforço que fez. O sorriso da Maria da Graça a entrar numa nova exposição era único. É disso que me vou recordar.


DIXIT - “E tudo poderia ser tão diferente! Poderíamos ter, neste 10 de Março, uma verdadeira revolução dentro da democracia! Poderíamos ter 230 círculos eleitorais, cada um elegendo, por maioria absoluta, um só deputado. Este seria alguém já conhecido pela comunidade, ou que passaria a sê-lo depois da campanha e da eleição” - António Barreto, no Público.

 

BACK TO BASICS- “Toda a verdade passa por três fases: primeiro é apelidada de ridícula, depois é hostilizada e por fim é considerada uma evidência” - Arthur Schopenhauer



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