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SOBRE A IMPORTÂNCIA DA INDEPENDÊNCIA NAS PRESIDENCIAIS

a esquina do rio é publicada às sextas feiras no weekend do jornal de negócios

por falcao, em 30.12.25

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AS PRESIDENCIAIS - 2026 vai ser marcado pelo resultado destas eleições presidenciais disputadas por um grande leque de candidatos. Entre os que têm ligações e  filiações partidárias há que distinguir aqueles que estão somente a concorrer para usarem tempo de antena em prol dos seus partidos e respectivos ideários, e outros que disputam a possibilidade de vitória a partir das ligações partidárias que têm. E há também quem não deva obediência partidária a ninguém, um fenómeno raro em anteriores eleições presidenciais, nas quais, quase sempre, os candidatos com maiores possibilidades eleitorais  tinham um passado partidário, com militância assumida até ao dia das eleições. Por definição, o Presidente da República deve ter uma postura acima dos partidos - e uma análise honesta das últimas décadas mostra que nem sempre isso aconteceu. De Soares a Cavaco, passando por Sampaio, mais do que opções ideológicas abstractas, as origens partidárias pesaram em várias decisões tomadas por todos eles. No caso de Marcelo Rebelo de Sousa, creio que pesaram menos e algo me diz que ainda podemos vir a ter saudades dele. Com o número de candidatos em disputa existe a natural tendência para se votar, na primeira volta, em quem parece politicamente mais próximo, ou em alguém cuja base ideológica e partidária se pretende reforçar no contexto da política nacional, para depois jogar a cartada do voto útil na segunda volta, aí para derrotar o candidato que não se deseja. Mas, da maneira que estão as sondagens sobre tendências de voto, cada vez me convenço mais que o voto na primeira volta é que  vai dizer quem disputará a inevitável segunda volta e definir quem será Presidente. Qual o perfil que desejo? Alguém capaz de respeitar a Constituição e procurar o entendimento das várias forças políticas, sem ter ou ter tido dependências de nenhuma delas. Não me sinto confortável a apoiar candidatos que têm atrás de si máquinas partidárias bem oleadas, nomeadamente com demasiadas ligações a um Governo que está longe de ser um exemplo de transparência e boas práticas. Não vou votar em nenhum candidato que, no momento de decidir o que estiver na sua esfera de competências, pense naquilo que seria melhor para o partido a que pertenceu e que o apoiou, ou aos clientes que teve. A transparência é um sinal essencial da independência. Está feita a minha escolha e chama-se Gouveia e Melo, 

 

SEMANADA - Num ranking da relação entre salário e custo de habitação Lisboa ocupa a pior posição, com um ratio pior que Moscovo, Nova Iorque, Barcelona ou Londres; na semana passada foi noticiado que existem casas de luxo à venda em Lisboa com o metro quadrado a 30.000 euros; a subida percentual do preço das casas de luxo em Lisboa supera os valores de Berlim, Dublin  e Paris; o preço médio de venda de habitações em Lisboa, o mais caro do país, foi este ano de 4865 euros por metro quadrado; o preço mediano do metro quadrado de habitação a nível nacional foi de 2605 euros por metro quadrado; Portugal é o país da OCDE com o pior acesso à habitação, com preços de casas mais do que duplicados (135% de aumento) contra um crescimento de rendimentos de 33% em 10 anos, segundo dados de 2024/2025; o bacalhau da ceia de Natal está este ano 21% mais caro que no ano passado.

 

 O ARCO DA VELHA - Os inquéritos sobre casos de corrupção abertos pela PJ aumentaram 54% em cinco anos.

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PARA ALÉM DA FOTOGRAFIA - Embora a fotografia constitua o pilar do seu trabalho, Noé Sendas é um artista que trabalha diversas áreas das artes visuais, com recurso a técnicas como a colagem ou a pintura. Nascido na Bélgica em 1972, tem trabalhado em Berlim, Madrid e Lisboa, onde expõe  regularmente na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos, Lote F ). É aí que pode ser vista até final de Fevereiro a  sua nova exposição, “For Keeps”. O núcleo principal é uma série de 14 fotografias intitulada “Crystal Girl”(na imagem), feitas entre 2011 e 2016 e que está na sala principal da galeria. Na sala lateral é apresentada a série “Fragmentos”, com nove peças, de 1992, obras criadas utilizando cera, pintura a acrílico e a óleo, lápis de cor, cola, papel e tela. Na mesma sala estão ainda “Binding”, de 2018, um trabalho com recurso a uma página de livro, postal e pvc, e “Old Studio”, de 2012, utilizando uma velha técnica óptica aplicada à fotografia conhecida por snapscope. Estão também expostas duas obras da série “One Off”, já de 2025, ambas fotografias impressas a jacto de tinta. “For Keeps” remete para a forma como Noé Sendas observa o que o rodeia, como imagina e fixa as imagens e as guarda, perpetuando a existência do que viu e criou. Esta exposição de Sendas é particularmente interessante porque permite ver o seu trabalho feito com recurso a diversas técnicas e em diferentes épocas, num arco temporal que vai de 1992 até 2025.

 

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ROTEIRO - Aqui vão algumas sugestões para começar bem o ano. O destaque vai para a exposição “Ensinamentos para Senhoritas”, de Sara Maia, na Galeria ZET de Lisboa (Rua da Prata 176). Este conjunto de obras foi inspirado no livro de Luísa Costa Gomes, “Visitar Amigos e Outros Contos” (na imagem) e a exposição fica patente até 3 de Fevereiro. Uma chamada de atenção especial para “Há mais para além do que os olhos conseguem ver”, de Luísa Cunha, no Centro de Artes Visuais (Pátio da Inquisição, em Coimbra). Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, a exposição mostra obras recentes de Luísa Cunha, com destaque para uma instalação sonora, num trabalho que abrange som, fotografia, vídeo e objetos, e pode ser visto até 8 de Março. 

 

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UM GRANDE DESAFIO - “O Louco de Deus no Fim do Mundo”, de Javier Cercas, tem uma história curiosa, contada pelo próprio autor logo no começo do livro: em Maio de 2023 foi convidado por um representante das edições do Vaticano para acompanhar o papa Francisco numa viagem à Mongólia, em Agosto desse ano, com o objectivo de “escrever um livro sobre a viagem , sobre o papa, a Igreja, o Vaticano, sobre o que quisesse”. Javier Cercas, que se apresenta como ateu, anticlerical, laicista militante, racionalista obstinado e ímpio inveterado, perguntou ao representante do Vaticano que lhe dirigia o convite: “Mas, oiça, não sabem que sou um tipo perigoso?” Lorenzo Fazzini, o responsável pela Libreria Editrice Vaticana, respondeu-lhe que era a primeira vez que o Vaticano abriria as suas portas a um escritor para falar com quem quiser, perguntar o que quiser e acompanhar o papa numa viagem. E mais, confirmou que no Vaticano sabiam que Cercas não era crente e que justamente por isso lhe propunha que fosse ele a escrever o livro, sublinhando que não era uma encomenda, que o escritor teria toda a liberdade de escrever o que entendesse e que poderia publicar o trabalho onde , quando e como quisesse. A possibilidade de acompanhar a visita do papa Francisco à Mongólia era um desafio: a Mongólia é um país budista, com pouco mais de três milhões de habitantes e apenas quinhentos católicos - e esse é o fim do mundo que aparece no título do livro. “O Louco de Deus no Fim do Mundo” é o relato dessa viagem, mas também do que viu, ouviu e sentiu no Vaticano. O autor dá a sua visão do papa Francisco, a quem carinhosamente chama “o louco de Deus”, do trabalho que ele fez, relata o que sentiu na sua presença e quando ambos falaram. Já no final do livro Javier Cercas tem estas palavras: “Descobri o segredo de Bergoglio. O segredo de Bergoglio é que não tem segredo nenhum: o segredo de Bergoglio é ser um homem comum e corrente.” Esta obra ganhou este ano o Prémio Europeu do Livro Jacques Delors, vai na sua terceira edição em Portugal, pela Porto Editora. 

 

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MESA DE CABECEIRA - Dois livros para nos prepararmos para 2026, ambos sobre o estado do mundo. Comecemos por “O Divórcio das Nações - O colapso da ordem mundial visto por dentro”, um livro onde o embaixador João Vale de Almeida nos explica como os países foram caminhando tal como sonâmbulos para agravar as suas diferenças em vez de procurar entendimento e considera que hoje vivemos uma das situações geopolíticas mais perigosas dos tempos modernos. O livro percorre o quarto de século que agora se completa, desde o Brexit às crises económicas, até ao radicalizar de posições que levaram a guerras, passando pela ascensão do populismo. (Edição D. Quixote) O outro livro é “O Plano - Projecto 2025, a Bíblia de Trump para transformar a América e o Mundo”. O “Projecto 2025” é um documento de quase mil páginas publicado em 2023 pela ultraconservadora The Heritage Foundation e que tem sido o guia de acção de Donald Trump, logo desde a sucessão de ordens executivas dos primeiros dias da sua segunda presidência. David A. Graham é redator na revista norte-americana “ The Atlantic”, onde faz cobertura de política e de outros assuntos nacionais e neste livro disseca os aspetos essenciais do Projecto 2025. (Edição D. Quixote)

 

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O MEU DISCO DO ANO  - Depois de muitas voltas decidi que nesta semana de fim de ano voltaria ao disco que, no meu entender, foi o melhor trabalho português em 2025. Falo de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir”, de Carminho. Como escrevi em Outubro, de entre toda a nova geração de fadistas, Carminho é a intérprete que mais procura experimentar, romper tradições, ousar o acompanhamento de instrumentos improváveis, da guitarra eléctrica até teclados electrónicos.” . Sobre este seu disco sublinhava então que ele entrava “por terrenos musicais pouco explorados pelo fado, ao incluir alguns instrumentos como o mellotron. Dois dos principais temas do disco são baseados em poemas de Ana Hatherly - “Balada do País Que Dói” e “Saber” - este último com a participação de Laurie Anderson, que canta, em dueto virtual, este poema que gravou em inglês a pedido de Carminho. Volto ao meu texto original: “O disco inclui ainda poemas de Amália Rodrigues, Pedro Homem de Mello, a participação de Mário Laginha em “Dia Cinzento” e uma versão de um clássico de Norberto Araújo e Raul Ferrão, “Lá Vai Lisboa”. Na altura escrevi que este é um disco emocionante. Depois de o ter ouvido muitas vezes não tiro uma palavra ao que disse.

 

DIXIT - “Receio que as presidenciais tenham um resultado perigoso – não por quem for eleito, mas por delas resultar uma Presidência de autoridade diminuída. Na fase que o país vive não é o melhor dos cenários.” - José Manuel Fernandes, no Observador.

 

BACK TO BASICS -  “Um optimista fica acordado para ver o Ano Novo entrar; um pessimista fica acordado para se assegurar que o ano velho acaba” - Bill Vaughan.

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




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