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SOBRE A RAZÃO E OS SENTIMENTOS

por falcao, em 23.09.22

 

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SEM PAPAS NA LÍNGUA - Recentemente um dos grandes escritores espanhóis, Arturo Pérez-Reverte, esteve em Portugal para acompanhar a edição do seu mais recente livro, “Linha da Frente”. Na ocasião deu uma entrevista à revista “Visão”, da qual tomo a liberdade de fazer algumas citações porque elas retratam, bem, o mundo actual. Então aqui vai a primeira: “ Um dos grandes problemas em Espanha - também em Portugal, mas creio que ainda mais em Espanha - é a incapacidade de vermos virtudes nos inimigos e defeitos no nosso lado. É tudo muito bom ou muito mau. Essa radicalização é muito perniciosa. Os excessos e populismos da esquerda levaram aos excessos e populismos da direita.” E mais adiante: “O que vejo é que os mais jovens políticos espanhóis,  portugueses e europeus têm uma grande carência intelectual. Ideologicamente não têm uma base sólida. São mais de declarações rápidas, de tweets… vendem-nos uma simplicidade muito perigosa”. E prossegue: “No Ocidente trocámos a razão pelos sentimentos. Agora “sentimos”: as focas, as baleias, os golfinhos, os touros, os sem-abrigo, a pobreza. Trocámos Voltaire, Montesquieu, Tocqueville, Rousseau e Kant pelo espírito das Organizações Não Governamentais. Não tenho nada contra as ONG, mas isso é um sinal de que nos falta um sustento, um alicerce intelectual. A nova ideologia não passa pela razão, a nova ideologia é o coração”. E, por fim: “Creio que o Ocidente está a perder a batalha intelectual e a barbárie é isso. O Ocidente foi sempre a luz do mundo, com a gesta atlântica e índica  dos portugueses, a expansão dos espanhóis, o iluminismo em França, o parlamentarismo inglês, a Alemanha e o seu racionalismo filosófico. Tudo isso está a ser varrido, mesmo nas escolas. Não interessa nada se um  jovem conhece ou não Voltaire, tem é de sentir que pode ser homem ou mulher, tem é de respeitar os seus sentimentos, mas os sentimentos têm de estar baseados na razão! Essa é a batalha que está a perder o Ocidente e nos torna débeis.” 

 

SEMANADA - Existem 2,3 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social, o equivalente a 22,4% da população;o preço do pão subiu 15% no último ano;  no primeiro semestre do ano registaram-se 15.500 acidentes rodoviários que provocaram 210 mortos e 1120 feridos graves; um em cada três alunos inscritos no ensino superior público está deslocado fora da sua residência habitual; 36,5% dos funcionários públicos portugueses têm mais de 55 anos; temos a quarta Administração Pública mais envelhecida da OCDE; a tributação do tabaco já deu este ano mais 58,6 milhões de euros do que estava previsto; incêndios de agosto geraram prejuízos de 85 milhões de euros, abrangeram 14 municípios e queimaram 57 mil hectares, 28 mil dos quais no Parque Natural da Serra da Estrela; a entidade das contas já deixou prescrever este ano os processos relativos às contas dos partidos políticos de 2013 e 2014; 60 mil alunos não têm professores pelo menos a uma disciplina; em cerca de dez anos o programa dos vistos Gold já foi usado por 1123 brasileiros com investimentos imobiliários que ultrapassaram 860 milhões de euros; segundo a Marktest o Tik Tok já é a quarta rede social com mais notoriedade em Portugal e o Instagram a rede com maior penetração entre os mais jovens; 92% dos portugueses afirmam que a crise já os fez diminuir a ida a restaurantes e a compra de roupa; nos últimos dez anos os bancos fecharam metade dos balcões que existiam. 

 

O ARCO DA VELHA - O Primeiro Ministro afirmou em Junho na CNN que iria cumprir integralmente a Lei das Pensões, não avisou para qualquer problema de sustentabilidade na Segurança Social, e três meses depois anunciou que as reformas vão ter cortes e a Lei vai ser revista.

 

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UM CLÁSSICO - A nova exposição de Paulo Nozolino, “Oracle”, é uma viagem por temas que têm estado presentes na sua obra, ao longo dos anos: a vida e a morte, o sagrado e o profano, a força da natureza e a espiritualidade, o poder e a resistência humana. O olhar de Nozolino é característico e a diversidade dos temas que explora em “Oracle” reforça como esse olhar se exerce de forma coerente sobre situações tão diversas e geografias tão distantes umas das outras. As nove fotografias constituem uma das grandes exposições deste ano. Todas  foram enquadradas na vertical, numa fuga deliberada ao que é o ângulo de visão do olho humano, distorcendo de imediato a nossa percepção das coisas e forçando-nos a adoptar a visão do autor. A fotografia de Nozolino  aqui reproduzida, de Cefalu,  na Sicília, está colocada em local destacado na Galeria Quadrado Azul, e como que liga os mundos mostrados nas outras oito imagens. Já este ano Paulo Nozolino expôs no Centro Georges Pompidou, em Paris, sob o título “Le reste est ombre”, ao lado de Pedro Costa e Rui Chafes. A Galeria Quadrado Azul fica na Rua Reinaldo Ferreira 20A, em Alvalade e a exposição “Oracle” permanecerá até 12 de Dezembro. Outra nova exposição aberta na semana passada é “Patrícia”, de José Pedro Cortes, na Galeria Francisco Fino. Trata-se um trabalho centrado na actividade de Patrícia Mamona enquanto atleta - uma instalação de quatro vídeos, cada um com 16 minutos, onde as rotinas de treino são a matéria prima das imagens obtidas ao longo de quase três anos. O resultado pode ser visto até 15 de Outubro na Galeria Francisco Fino, Rua Capitão Leitão 76, a Marvila.

 

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UMA BELA HISTÓRIA - Tenho o velho hábito de considerar que os primeiros parágrafos de um livro são decisivos para lhes destinar o futuro nas minhas leituras. Se fico curioso e acho a ideia sensacional, é garantido que vou ler; se me parece um pouco hesitante mas ainda levanta curiosidade, entra para a lista de possibilidades; e se nem desperta entusiasmo nem curiosidade, passo à frente e está o caso arrumado. “Adeus Casablanca”, de João Céu e Silva, entrou directamente para a primeira categoria. Logo no primeiro parágrafo nasce a curiosidade quando, nos anos 40 do século passado, um polícia recomenda a uma banhista que use uma roupa mais comportada: “Não quero mulheres quase despidas nesta praia” - assim sintetizou o agente da Lei o seu pensamento. É o retrato do Portugal dessa época e é o ponto de partida para “Adeus, Casablanca”, um romance histórico que combina a espionagem internacional com base no Estoril, a oposição ao regime de Salazar e os caminhos da diplomacia no Estado Novo. O livro centra-se no relato de uma argumentista norte-americana que é encarregue de escrever a sequela do filme “Casablanca” e que decide fazer nascer o seu guião a partir do desvio de um avião da TAP que em 1961 Henrique Galvão tomou de assalto em Marrocos e que, depois, usou para espalhar cem mil panfletos anti-regime pelos céus de Portugal. Aqui Casablanca e Marrocos, são o palco onde se fala dos exilados políticos portugueses no norte de África, mas também da recriação da vida marroquina dos tempos em que Paul Bowles vivia em Tânger. “Adeus, Casablanca”, de João Céu e Silva, é uma edição da Guerra & Paz.

 

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BAÚ MÁGICO - Em Maio de 1965 Lou Reed, então com 23 anos, sentou-se com John Cale e gravou uma dezena de “demos” de canções, várias delas mais tarde interpretadas pelos Velvet Underground. Feito num gravador de bobine, o registo é de uma simplicidade total, a voz de Reed, por vezes a de Cale nos coros, guitarra acústica, uma vez ou outra, uma harmónica. Quase folk music estas gravações, são sempre precedidas pela voz de Lou Reed, a dizer o nome da canção e a explicitar “words and music by  Lou Reed”. Quando a gravação terminou Reed colocou a bobina na sua caixa original, meteu tudo num envelope e enviou-a a si próprio por correio, dirigindo-a a Lewis Reed, o seu nome verdadeiro - uma espécie de registo de copyright caso no futuro houvesse algum problema sobre a autoria destes temas. Nessa altura os Velvet Underground já existiam, davam os primeiros passos, embora o seu disco de estreia, “Velvet Underground & Nico” seja de 1967. A fita repousou durante décadas nos arquivos pessoais de Reed e a caixa, ainda por abrir, só foi descoberta depois da morte de Reed, em 2013. Quando a New York Public Library  comprou o seu espólio à viúva, Laurie Anderson,  os arquivistas finalmente ouviram a fita e perceberam que ali estavam as primeiras gravações de canções que mais tarde seriam bem conhecidas. Dez das canções dessa fita foram agora editadas em “Words & Music, May 1965”, e aí é possível descobrir as versões originais de temas como “I’m Waiting For The Man” (em duas versões, bem diferentes), “Heroin”, “Walk Alone”, “Wrap Your Troubles in Dreams”, “Too Late” ou uma versão de “Men Of Good Fortune” que não tem nada a ver com a canção do mesmo nome que Reed gravou no álbum “Berlin”. É um disco extraordinário? Não, mas é um documento soberbo do nascer de um talento, da junção de duas forças criativas como Reed e Cale. Disponível nas plataformas de streaming.

 

MAIS UMA SANDUÍCHE  - Experimentar novas sanduíches é uma das coisas que gosto de fazer. Fruto de estival incursão pelo Algarve trouxe um frasco de creme de alfarroba, uma iguaria que nunca tinha experimentado apesar de ser confessadamente devoto do sabor da alfarroba. Após algumas experiências, voz amiga, sabendo das minhas preferências sugeriu-me que experimentasse usá-la com queijo numa sanduíche. Vamos por partes - o pão é uma peça fundamental numa sanduíche e as minhas preferências actuais vão para o pão de espelta integral da Pachamama, feito a partir de massa mãe e sem fermento. Duas fatias de espessura média, levemente tostadas são a base. A seguir veio o creme de alfarroba, barrado generosamente nas duas fatias - a textura é espessa, o sabor é intenso e envolvente, combina-se bem com o pão. A parte final é o queijo. Gosto muito de queijo da ilha de S. Miguel de nove meses de cura, sobretudo cortado em lascas finas, à temperatura ambiente. Uso uma boa quantidade de fatias muito finas, uma camada em cada fatia de pão, Depois é como fazer um lego: junto as duas fatias, comprimo um bocadinho para ficarem bem encaixadas e delicio-me. Acompanha bem com uma cerveja preta, a minha preferência, entre as nacionais,  vai para a Sagres. 

 

DIXIT - “Não há anteriores governos, nem guerra, nem pandemia que justifiquem o estado das coisas. Nada justifica a incompetência, a ausência de visão e a ausência de sentido prático da vida” - António Barreto

 

BACK TO BASICS -”A Arte existe porque a vida não basta” - Ferreira Gular.

 

 




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