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O OFF - As conversas em off com políticos são um terreno armadilhado há muito tempo. Os políticos mais experientes desenvolveram competências extraordinárias nesse domínio. Alguns recusam-se a falar sobre determinado tema e depois dizem alguma coisa do género: “eu disso não falo mas em off sempre lhe digo que é uma escandaleira”; outros falam do assunto mas controlam as palavras e a mensagem - estão no seu direito, claro. O pior é quando no fim da conversa, na despedida, dizem - “sobre aquele assunto, já agora, eles são uns patifes”. Costa é um político muito experiente, veterano de guerras internas em off e on dentro do PS e com doutoramento em mudanças de posição e em insinuações. Acontece que, na minha opinião, quando um jornalista ouve o que agora se sabe, à saída, nas escadas de S. Bento, não lhe ficava mal dizer: “Senhor Primeiro Ministro, esqueci-me de lhe fazer uma pergunta, mas agora responda em on: entende que no lar de Reguengos houve falta de coragem dos profissionais de saúde e foi por isso que a situação se terá deteriorado?”. A pergunta é legítima, podia ter sido feita antes, por qualquer razão não a colocaram. Mas devia ter sido feita a seguir. O mais que se arriscavam era a ter uma resposta como “Não comento”. E claro que teriam irritado um pouco mais o Primeiro Ministro que, como se percebe pelo som da entrevista, estava particularmente irritado com a situação - o que nele também não é invulgar. Como temos visto, António Costa ganhou o hábito, de cada vez que ele próprio cria um problema (como foi o caso com as declarações que fez a propósito da Ministra Godinho), corre a dar uma entrevista para tentar limpar a imagem. Foi o que tentou fazer mais uma vez. Saíu-lhe o tiro pela culatra e a culpa não foi de quem divulgou o off, foi dele próprio. Para piorar as coisas, depois de falar com o bastonário da Ordem dos Médicos chamou os jornalistas para ouvirem o que tinha a dizer sobre a conversa, sem direito a fazerem perguntas. O Bastonário afirma que as declarações que Costa fez no final da reunião não correspondem ao que  foi dito à porta fechada. António Costa é daquele género que nunca erra nem nunca vê razão para apresentar desculpas. Como mais uma vez se viu.

 

SEMANADA - Há 528 estações e apeadeiros activos na rede ferroviária portuguesa que movimentam 24 milhões de passageiros por mês e dez estações, em Lisboa e no Porto, concentram 38% do tráfego total; a ligação ferroviária entre os dois extremos do Algarve, de Olhão a Faro, demora quase três horas, o mesmo que há quase 40 anos; a Via do Infante foi a autoestrada portuguesa que mais tráfego perdeu no segundo trimestre deste ano, e em Abril, durante o estado de emergência registou uma queda da circulação média diária de 81% face ao período homólogo; segundo o Instituto da Mobilidade e dos Transportes em Abril circularam no conjunto das concessões rodoviárias pouco mais de 6 mil veículos, menos cerca de 13 mil do que em Abril do ano passado; segundo um estudo TGI da Marktest nos últimos 12 meses triplicou o número de portugueses que encomenda refeições por aplicações de telemóvel de serviços de entrega e pizza é a comida mais consumida desta forma; segundo o estudo Mediamonitor da Marktest, a situação no lar de Reguengos, entre 17 e 23 de Agosto,  foi referida em 428 notícias de canais televisivos, num total de  14 horas de emissão sobre este tema; em 2019 as fábricas de automóveis em Portugal geraram 2,2% do PIB e só a Autoeuropa gerou 1,7% do PIB nacional, tendo já voltado a produzir 890 automóveis por dia, a um ritmo pré-Covid; Gomes Cravinho, Ministro da Defesa, autorizou uma adjudicação direta, sem concurso, no valor de de 2,1 milhões de euros em vestuário de combate e o Tribunal de Contas considerou que o governante tinha violado a Lei.

 

ARCO DA VELHA - Uma exposição do Museu de Arte Contemporânea, de obras adquiridas nos últimos dez anos, e que está pronta há mais de dois meses, arrisca-se a fechar sem ser aberta ao público por falta de verba para resolver questões técnicas como iluminação e sinalética.

 

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PASSEAR - A pandemia fez-nos redescobrir Portugal. Voltei este Verão a locais onde não ía há mais de 40 anos e devo desde já esclarecer que fiz as reservas com apenas duas semanas de antecedência, estritamente em nome pessoal, pagando o que nos sites respectivos surgiu como proposta. Gabo-me de conhecer bem o país, mas reconheço que, após várias décadas, regressar ao mesmo local, de maneira diferente, faz-nos ver tudo de outra forma. Lembro-me que no final dos anos 70 fiquei tão encantado com Trás os Montes e o Alto Douro que uns anos mais tarde regressei lá numas férias sem destino, só a descobrir. Desde essa altura, no início dos anos 80, nunca mais aí voltara. Tinha algum receio de, agora, ficar desiludido,  mas isso não aconteceu. Primeira constatação: muitos portugueses a visitar Portugal; segunda constatação: muitos espanhóis a descobrirem os territórios da fronteira, em hotéis, restaurantes, nos percursos mais turísticos; terceira constatação: há empresários que em cada local desenvolveram hotéis com bom acolhimento, restaurantes nalguns casos excepcionais e os locais têm uma gentileza e boa disposição a acolher forasteiros que ultrapassa o dever profissional. No norte, do Minho a Trás os Montes, fiquei em bons sítios com menor custo que em sítios menos bons mais a centro. Já aqui falei na semana passada na desilusão que foi a Pousada da Ria, do Grupo Pestana, junto a Aveiro. Foi mais cara e desconfortável que qualquer outro local destas férias. Um dos mais baratos, no Baleal, a Silver Coast Beach Residence, foi um exemplo de bom acolhimento e teve um dos melhores pequenos almoços de toda a viagem. A Casa da Calçada, em Amarante, com um conforto e serviço excepcionais teve um custo menor que a Pousada do Grupo Pestana. Noutro registo,  o Hotel Boega em Vila Nova da Cerveira, informal e acolhedor, faz-nos querer ficar a provar os cozinhados tradicionais que provámos num jantar. E na G Pousada, em Bragança, um empresário local oferece o que noutras pousadas não existe: competência e bom serviço. Se fizesse um ranking do pão servido ao pequeno almoço, a G Pousada arrebatava o primeiro lugar. Nesta viagem descobri quartos com vistas magníficas, como esta imagem que aqui fica de Amarante, onde, se puder, mais vezes regressaremos. 

 

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VER - A primeira surpresa que registo, em todos os locais, é a afluência de público. Por todo o lado onde estive - de Vila Nova de Cerveira a Bragança, vi as exposições com gente, nalguns casos à espera de vez para entrar. Em Cerveira a Bienal, que vai na sua XXI edição, tem propostas muito diversificadas. Destaco a exposição “De Casa Para um Mundo”, que junta obras de artistas plásticos com músicos e escritores, um desafio sempre arriscado e que muitas vezes pode ser penoso. Embora no centro da cidade, o espaço onde é mostrada é ingrato, mas as obras de Ana Fonseca, Cristina Ataíde, Graça Pereira Coutinho e Pedro Calapez, para só citar alguns dos nomes propostos pela curadora Fátima Lambert, suscitam a curiosidade de quem passa. Já Amarante, e o Museu Amadeo Souza Cardoso, são uma conversa à parte: o galerista Fernando Santos pediu a um conjunto de artistas obras que se enquadrassem no título “Fuck Art, Let’s Eat”. E assim Ana Vidigal, José Loureiro, João Jacinto, Julião Sarmento (na imagem), Manuel Baptista, Pedro Cabrita Reis, Pedro Calapez, Pedro Proença e Rui Sanches, entre outros, responderam ao desafio e as suas obras estão perto das de Amadeo Souza Cardoso, que ali nasceu. A terminar quero deixar uma referência a dois locais em Bragança - o primeiro é o Centro de Interpretação da Cultura Sefardita que, com poucos recursos mas num belo projecto de Souto Moura, mostra a importância dos judeus em Portugal desde o nascimento da nacionalidade; e o outro é o museu Abade de Baçal - onde além de obras de arte sacra se destaca a colecção de pinturas de Abel Salazar, os desenhos a tinta da china de Almada Negreiros e, sobretudo a magnífica exposição de fotografia de Duarte Belo, “Sabores da Terra”, a olhar para o território de Trás Os Montes de uma forma que, espero, possa ser mostrada por todo o país. Uma nota final - não planeiem visitar museus municipais à segunda-feira, estão fechados, vá-se lá saber porquê.

 

SABORES - Quando o restaurante da Casa da Calçada, em Amarante, está em jogo no meio de outros locais fica difícil fazer comparações. Galardoado várias vezes com uma estrela Michelin, o Lugar do Paço é uma referência da restauração em Portugal. Sob a direcção do Chef Tiago Bonito, está aberto de quinta a sábado ao jantar e ao Domingo, ao almoço. Quer os menus de degustação, quer a carta, são aliciantes. Nos menus degustação o serviço de vinhos adequado a cada prato é exemplar, revelando pequenos produtores da região com um sommelier que sabe falar do que serve e do porquê das suas propostas. Toda a refeição, e a sua envolvente, são especiais. Não sou um grande fã de menus degustação, mas admito que este superou as minhas expectativas. Os destaques vão nas entradas para o caviar com gema de ovo fumado e para o carabineiro do algarve com açafrão. Nos pratos principais o cherne esteve magnífico e o borrego cheio de sabor e no ponto exacto. A melhor sobremesa foi a beterraba a envolver maracujá. Em Bragança quero destacar a melhor posta mirandesa que já comi: uma carne extraordinária de textura e sabor, bem temperada, cozinhada no ponto, tenríssima, acompanhada por saborosas batatas assadas, enquanto do outro lado da mesa uma desejada truta minhota se revelou um pouco mais seca que o desejável - no restaurante Geada, uma referência local, que aliás depois se expandiu para a Pousada (que já tem uma estrela Michelin) e, mais recentemente para o Gastrobar ComTradição, dirigido pela nova geração da mesma família. Junto ao castelo de Bragança, no ConTradição provaram-se bons pastéis de massa tenra com recheio invulgar em tempero, uma muxama de atum com salada bem temperada e vieiras com panceta de porco bísaro. Tudo satisfez, acompanhado por um espumante local e por um branco da região.



DIXIT - “Muita gente quer convencer-nos que estar sempre a falar de corrupção é uma forma de populismo. O maior truque do diabo é convencer-nos que não existe” - João Miguel Tavares.

 

BACK TO BASICS - “Aquilo que foi feito não pode ser desfeito” - William Shakespeare

 

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