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SOBRE AS UTILIDADES DA FARINHA

pensamentos ociosos, sempre em sapo.pt

por falcao, em 06.12.25

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A língua portuguesa tem expressões que são um verdadeiro achado e que nos dão que pensar. Uma delas, que agora anda em desuso, mas é das mais interessantes, reza assim: ”não faças farinha!”. O que quer isto dizer? A expressão “não faças farinha” pode ser dita numa conversa entre várias pessoas  quando alguém está deliberadamente a empatar em vez de fazer o que está combinado. Também se utiliza quando não se consegue convencer uma pessoa a fazer determinada coisa ou se está a enrolar uma conversa, no sentido de enganar outra pessoa. Línguas viperinas dizem-me que também se aplica quando, num casal de namorados, uma das partes se esquiva aos desejos da outra parte, mas disso nada sei. Portanto, todos aqueles que pensavam que me estava a referir às utilizações de um pacote de farinha para fazer bolos, enganaram-se redondamente. O tema não é a gulodice, é a riqueza da língua portuguesa. E de onde vem este “não faças farinha”? A minha convicção é que provém da observação do que se passava nos antigos moinhos onde era moído o cereal. Os moinhos tradicionais tinham duas pedras circulares, que rodam uma contra a outra, indo moendo os grãos de cereal entre elas, transformando-os em farinha. O processo, que foi usado durante séculos para trabalhar os cereais, é lento - uma das mós estava fixa e a outra era giratória. Lembrei-me de tudo isto quando vi estas  duas mós abandonadas num moinho meio arruinado. Há um encanto nestes vestígios de outros tempo, e este interior de moinho faz-nos logo pensar no que aquelas paredes testemunharam - entre o trabalho do moleiro, as conversas que ele teve com quem lhe vinha comprar farinha, o regatear do preço, os encontros que testemunhou. Enfim, coisas de quem faz farinha. Este moinho fica na Serra do Louro, perto de Palmela, e, logo por acaso, fica ao lado de uma padaria tradicional onde se usa a farinha para fazer bom pão. 




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