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SOBRE O ESQUECIMENTO DA OPOSIÇÃO

por falcao, em 19.11.21

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O DESCOBRIDOR TARDIO - Rui Rio é presidente do PSD desde Fevereiro de 2018, há três anos e meio. Quando tomou conta do PSD pairava no ar a ideia de que ele e António Costa se davam bem. Enquanto presidentes das Câmaras Municipais do Porto e de Lisboa ambos trocaram galhardetes nos respectivos santos populares e abraçaram-se publicamente em tempo de arraiais. A verdade é que, quando Rio passou a dirigir o PSD, já António Costa estava como Primeiro Ministro desde 2015. E assim tem continuado sem que nada acontecesse. A oposição de Rui Rio a Costa primou pela inexistência ao longo destes anos. Nalguns casos, como na redução dos debates quinzenais no Parlamento, ele foi a ajuda de que Costa necessitou para ter menos pressão no hemiciclo. Agora, que se recandidata à liderança do PSD, contra Paulo Rangel, seguiu o princípio de evitar debates e  proclamou que não faria campanha interna no seu partido e se concentraria na oposição ao Governo do PS. Digamos que vem tarde. Depois de tantas distracções ao longo dos últimos anos, descobriu os méritos de proclamar oposição quando, até aqui, foi um fraco opositor do Governo. Agora quer tudo o que nunca fez e ainda não foi capaz de entender que a crise que levou à convocação de eleições não foi gerada pela sua oposição mas sim pela avaria na geringonça e a falta de vontade de Costa em se assumir como mecânico da maquineta. O mandato de Rio como Presidente do PSD tem sido pautado por ser mais agressivo no interior do seu partido do que para o exterior. Em matéria de política tem-lhe faltado coerência nas ideias e imaginação na acção. É pena só agora ter descoberto o que um líder da oposição deve fazer.

 

SEMANADA - A manterem-se as normas actuais mais de 800 mil pessoas com mais de 65 anos só podem levar dose de reforço em 2022; a Ordem dos Médicos pede o regresso de medidas restritivas e afirma que na pandemia Portugal já passou do nível de “alerta” para o de “alarme”; “o nosso comportamento é o travão à doença", afirmou a pneumologista Raquel Duarte que alertou contra o relaxamento das regras de protecção individual; durante a pandemia registou-se um aumento de 10% das bebidas alcoólicas vendidas nos supermercados;a faixa de militares no activo que rejeitaram ser vacinados contra COVID 19 está muito acima da média nacional;  Portugal foi o sexto país da UE onde a pandemia atirou mais jovens para o desemprego; segundo o Instituto Nacional de Estatística o número de pessoas com segundo emprego subiu 20% no terceiro trimestre do ano atingindo agora cerca de 220 mil trabalhadores que acumulam dois empregos; segundo a agência Europeia do Ambiente a poluição foi responsável por 4900 mortes em Portugal e um total de 364 200 em toda  a Europa; há mais de mil turmas com horários por preencher e milhares de alunos que continuam sem aulas; o Ministério Público perdeu um quarto dos magistrados em dois anos; procuradores sem nota ou experiência tratam casos complexos e, em instâncias centrais, há cerca de 70 magistrados sem classificação de mérito; o preço da tonelada de pinho aumentou 40% no último ano e existe um défice de 57% desta matéria prima para consumo industrial; no dia 18 completaram-se cinco meses sobre o acidente com o veículo que transportava o Ministro Eduardo Cabrita e do qual resultou um morto por atropelamento - e continua sem haver resultado conhecido do inquérito instaurado.

 

O ARCO DA VELHA - O reforço da vacinação contra o COVID 19 decorre claramente com problemas, o sistema voltou a emperrar, dificilmente serão atingidos os objetivos anunciados e até as vacinas contra a gripe sazonal estão em falta nas farmácias. E que diz a Directora Geral da Saúde? - Que é preciso ter paciência.

 

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UMA VIAGEM PERTURBANTE - As exposições de Nádia Duvall são sempre surpreendentes e muito frequentemente inquietantes. “Com o deserto nos olhos”, a sua nova mostra na Galeria Foco, não foge a esta regra. No trabalho de Duvall há uma raiz orgânica que se mistura com a manipulação de objectos subtraídos à função que normalmente lhes é atribuída e o resultado é um cenário onde o fantástico é claramente dominante. Estes trabalhos nunca espelham a realidade, mas mostram a imaginação de Nádia Duvall e a forma como a artista vai observando o mundo. Aqui o tema tem a ver com viagem, descoberta, distância e, no fim, a interrogação sobre o sentido da vida, sobre o significado do tempo. Uma viagem perturbante e perturabadora. “Vagamente um Segredo (ou um abrigo para tão longa fuga)” (na imagem) está montada como o diário de uma viagem que vamos visitando por etapas onde o encanto e o desencanto andam de mãos dadas até culminar na espera de alguém que se recorda. A Galeria Foco fica na Rua Antero de Quental 55A e a exposição estará patente até 11 de Dezembro.  Outras sugestões: a Galeria 11 (rua dr. João Soares 5B) expõe um conjunto de obras de Paula Rego sob o título “Saudades”. A mostra, que ficará patente até 15 de janeiro de 2022, junta 27 obras que atravessam várias décadas e temas, desde os anos de 1980 até 2017. E finalmente no atelier - museu Júlio Pomar prossegue a série de exposições comissariada por Sara Antónia Matos que coloca em confronto obras de Pomar com outros artistas - desta vez com Menez e Sónia Almeida. Até Abril do próximo ano.

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A CIDADE REVISITADA  - A nova obra de Daniel Blaufuks, “Lisboa Clichê”, parece um livro de viagens que nos faz descobrir um tempo perdido. Não é apenas um livro de fotografia, o território mais habitual do trabalho de Blaufuks, é também um diário onde o autor foi colocando notas sobre o final dos anos 80 e como ele próprio foi vivendo o que se passava numa cidade que então se redescobria. No fundo é o livro de um viajante pela cidade, que recorda uma Lisboa em parte desaparecida, das tascas e casas de pasto, do fecho dos cinemas históricos, do arranque da vida nocturna no Bairro Alto, da liberdade no Frágil, das bandas rock portuguesas, dos encontros e desencontros na era das cabines telefónicas, do grande incêndio no Chiado.  Inteiramente a preto e branco o livro evoca pessoas e sítios, deixa espreitar para a vida de Blaufuks nessa época e dá conta dos seus pensamentos, ao mesmo tempo que faz descrições do seu quotidiano de então. Pelo meio estão textos de autores como Ruy Belo, Al Berto, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Rui Cinatti, Agostinho da Silva, ou Sérgio Godinho, entre outros. O Bairro Alto e as suas noites são recorrentes no livro. E é de uma dessas páginas, depois de um relato do que era o “Frágil” de então, que retiro estas linhas: “Sair do Bairro e caminhar por Lisboa. Ainda é noite, mas sente-se já o próximo dia, os candeeiros dão ainda uma luz de outro tempo, como numa velha fotografia. À noite, Lisboa é uma fotografia a preto e branco”.  Fotógrafo, cineasta e artista plástico, Daniel Blaufuks tem trabalhado na relação entre fotografia e literatura. A relação entre o público e o privado, a memória individual e a memória colectiva, tem sido uma das bases do seu trabalho.

image (1).png30 ANOS DE LITHIUM - “Nevermind”, o segundo álbum dos Nirvana, saíu em finais de Setembro de 1991. Há 30 anos, números redondos. Na altura provocou um sobressalto na música de então, com epicentro no grunge que saía de Seattle. Três anos depois Kurt Cobain morria e começava o mito. Lendas à parte “Nevermind”  está na lista dos discos que é preciso conhecer. Agora, por ocasião do 30º aniversário da sua edição, saiu uma caixa que inclui 5 discos e 75 canções, mais de quatro horas de música. Para além de uma nova remasterização do álbum original, aqui estão  gravações de quatro concertos dos Nirvana, realizados entre Novembro de 1991 e Fevereiro de 1992, mostrando como nesse período a evolução da presença em palco da banda foi significativa. O primeiro é um concerto no Paradiso de Amsterdão, o segundo um concerto sem grande história na California, o terceiro uma arrebatadora actuação em Melbourne, na Austrália, com uma versão de “Lithium” , onde banda e público se completam de forma rara  e finalmente um concerto em Tóquio que é talvez o mais conseguido de todos,do ponto de vista da qualidade de gravação e da evolução musical da banda. Disponível em streaming.



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OS SEGREDOS DA MASSA - Tenho um novo livro de cabeceira que volta e meia visita a cozinha. Trata-se de “Breve história da massa italiana em dez pratos célebres”, de Luca Cesar. E que pratos são esses? O fetuccine Alfredo, a amatriciana, a carbonara, os gnocchi, os tortellini à bolonhesa, o ragu à napolitana, o ragu à bolonhesa, a lasanha, o pesto à genovesa e o esparguete com molho de tomate. Luca Cesari é um  historiador e jornalista gastronómico que tem investigado a origem de alguns dos pratos mais famosos da tradição italiana - podem saber mais sobre ele em ricettestoriche. O livro vai fundo na história da cozinha italiana, mostra como a própria afirmação da massa no interior do panorama gastronómico italiano foi uma lenta conquista que acelerou decididamente somente depois de meados do século XIX. O livro inclui receitas de diversas épocas de cada um dos dez pratos, relata o percurso histórico de cada um deles, indica quando foi publicada pela primeira vez a receita e as várias versões que se foram desenvolvendo. Sem preconceitos Luca Cesari rejeita as natas e conta como a cebola e o alho não fazem parte da tradição inicial da cozinha italiana. Pelo meio demarca-se daquilo a que chama os “gastropuristas”,  que se proclamam os únicos conhecedores dos insubstituíveis ingredientes de todas as receitas típicas e recorda que os pratos tradicionais, como tudo o resto na vida, evoluíram ao longo dos tempos. Como o autor refere, a antiguidade e a estabilidade ao longo do tempo são os dois critérios principais para definir o que pode ser considerado “tradicional” ou não. Porm isso mesmo, diz não ser de estranhar que uma lasanha ou uma amatriciana feitas há um século não fossem iguais às que comemos hoje. “Os pratos que servimos à mesa são apenas o último estágio de uma longa evolução que os foi transformando inexoravelmente ao longo do tempo” - conclui. Arrebatador, é o que vos digo.

 

DIXIT - “Como a vida política se resume cada vez mais à intriga e ao processo, ao adjectivo e ao fútil, quase nada de essencial faz parte dos debates actuais. Vai ser uma campanha dura. Nem sequer vamos ter um duelo de fantasias” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - Não utilizem o vosso poder para eliminar opiniões que considerem perniciosas, porque se o fizerem serão as opiniões a derrotar-vos” - Bertrand Russell

 







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