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Um dos meus desejos de criança era ter uma fisga. Providencialmente, um tio com quem costumava passar parte das férias de verão resolvia esse meu desejo, fazendo fisgas a partir de pedaços de árvore com a necessária forma de forquilha, fundamental para o efeito, Para completar a fisga, à madeira juntavam-se retalhos de câmaras de ar de automóvel e um pedaço de cabedal de proveniência incerta. Assim, durante um tempo, todos os anos, à minha chegada a sua casa, no Alto Alentejo, levava-me à pequena oficina onde se entretinha a fazer arranjos e dava-me a fisga desse verão. Ao longo do tempo foi aperfeiçoando o fabrico e eu fui aperfeiçoando a pontaria. Durante os meses que lá estava, andava sempre com uma fisga pendurada do bolso, primeiro dos calções e, depois, das calças. Mas por muito que aperfeiçoasse a pontaria nunca consegui acertar em nada que se movesse. Em contrapartida acertava razoavelmente em garrafas vazias dispostas num muro a uns metros de distância. Era um remake daquelas cenas de westerns em que um cowboy acerta em latas velhas com um Colt 45. Mas esse tempo passou e, da utilização da fisga, passei a explorar o potencial do verbo fisgar, no sentido de cativar ou seduzir alguém - todo um outro treino de uma outra pontaria. Poucas vezes acertei, diga-se, mas diverti-me bastante e adquiri úteis conhecimentos de persuasão. Um outro significado possível de fisgar, que me foi bastante útil ao longo da vida, foi conseguir perceber as intenções de alguém, sobretudo aquelas, digamos, mais maldosas. Lembrei-me de tudo isto quando, passeando numa feira, dei com estas fisgas fabricadas em série, umas pintalgadas e outras apenas com a palavra Portugal estampada. Fisgas modernas é o que é, sinal do espírito de inovação que varre o discurso dos governantes. Como diz o outro, já os fisguei.
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