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CAMPANHA - E pronto, começou a campanha eleitoral. O Governo entrou nela a pés juntos com promessas de redução da carga fiscal, os autarcas em exercício com inaugurações e, nalguns casos, como o de Medina, com promessas por cumprir e muitas obras por acabar, além dos engarrafamentos que vão aumentando. Os eleitores começam a estar fartos destas aldrabices. Querem ver? - Desde 1976 realizaram-se em Portugal 11 eleições autárquicas e nestes 41 anos, a taxa de participação eleitoral foi descendo depois dos primeiros entusiasmos, o que diz alguma coisa sobre o relacionamento de eleitos com eleitores.  Na primeira eleição a participação foi de  64.55% dos inscritos, na eleição seguinte, em 1979, esse valor subiu para 73.77% e ainda se manteve acima dos 70% nas eleições de 1982. A partir dessa data a participação foi diminuindo com o valor mais baixo de sempre a registar-se  nas últimas eleições, de Setembro de 2013, onde  participação andou pelos 52,6%, com 6,8% de votos brancos e nulos. Ou seja a maioria dos eleitores não votou em nenhum candidato. Há uma minoria que elege e a maioria da classe política não se incomoda com o assunto porque a abstenção é a garantia de que não há sobressaltos nem alteração do status quo partidário vigente. Os incumbentes preferem que a abstenção continue o seu caminho e lhes garanta o lugar por arrasto. Por isso Medina não se importa que haja menos habitantes e menos eleitores em Lisboa. Até lhe dá jeito.

 

SEMANADA - Segundo o INE, o número de pessoas entre os 20 e 34 anos que habitam em Lisboa passou de 95.830 em 2011 para 67.916 em 2016, uma diminuição de 29%, sendo assim o concelho onde o número de jovens adultos mais diminuiu; o número de licenciados do ensino privado caiu 41% em dez anos; Azeredo Lopes não esclareceu na Assembleia da República se houve ou não assalto aos paióis de Tancos; o Bloco de Esquerda propôs que jovens com mais de 16 anos possam processar os pais que não aceitem a sua vontade de mudarem de sexo; Mário Centeno apressou-se a explicar que afinal o prometido alívio fiscal no IRS , que ele próprio tinha anunciado, não se destina a todos os contribuintes; o primeiro ministro admitiu que Portugal pode apresentar uma candidatura à presidência do Eurogrupo; na primeira semana de entrada em vigor de nova legislação sobre imigração deram entrada 4000 pedidos de autorização de residência de estrangeiros em Portugal; o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras não recebeu informação sobre os suspeitos do processo brasileiro Lava-Jato e alguns deles pediram vistos Gold; as receitas do IMI cresceram 150% depois da avaliação arbitrária e unilateral dos imóveis pelo Estado; em ano de eleições autárquicas as Câmaras Municipais já arrecadaram mais 100 milhões de impostos até Julho do que em igual período de 2016; “proibir os jogos de futebol nos dias em que há eleições é mais uma boa ideia para levar os portugueses à abstenção” -  escreveu Miguel Esteves Cardoso.

 

ARCO DA VELHA - Dos 21 relatórios encomendados pelo Governo sobre o incêndio de Pedrogão nenhum atribui culpas a quem quer que seja sobre o ocorrido nas mais diversas áreas, das comunicações ao comando das operações, passando pela actuação das forças de segurança ou dos organismos de coordenação e prevenção.

 

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FOLHEAR - A revista Wallpaper foi fundada em 1996 por Tyler Brulé, que a dirigiu até 2002 e desde o início a publicação convida nomes conhecidos das artes, da arquitectura, do design ou da moda para editar o número de Outubro. Este ano, para assinalar o 21º aniversário da Wallpaper, revisitam-se os 21 convidados, entre os quais Karl Lagerfeld, Philippe Starck, David Lynch, Louise Bourgeois, Robert Wilson, os Kraftwerk, Lang Lang, Frank Gehry, Jean Nouvel, Jeff Koons Hedi Slimane e Dieter Rams, entre outros. E a todos os possíveis foi pedida uma ideia nova para esta edição. A capa , aqui reproduzida, foi concebida pelo atelier Zaha Hadid a partir de um modelo gráfico gerado em computador. É um prazer ver que neste tempo de crise da imprensa e das dificuldades em obter publicidade para muitas revistas, as 44 páginas iniciais desta edição da Wallpaper são publicidade de algumas das maiores marcas mundiais de moda e design - e ao longo das 420 páginas muitas são de publicidade. Destaco nesta edição na área da arquitectura (a transformação de um silo de armazenagem em museu na Cidade do Cabo para acolher arte africana contemporânea), das artes plásticas (Miguel Barceló e o japonês Takashi Murakami) ou do design (o nonagésimo aniversário da prestigiada marca italiana de mobiliário Cassina). À margem, um dos artigos mais curiosos é sobre o design das embalagens de medicamentos e produtos farmacêuticos, desde as primeiras embalagens de Aspirina aos logotipos de alguns laboratórios ao longo dos tempos. Outro artigo curioso mostra uma vinha e uma adega no Japão, uma experiência pioneira naquele país. Para rematar há um destaque português, dedicado aos sabonetes Claus, do Porto.

 

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VER - André Gomes usa a fotografia como instrumento de construção de ficções que traduz em imagens. Durante anos trabalhou a partir de polaroids e nos tempos mais recentes passou a utilizar imagens fotográficas digitais que usa depois como base para manipulação, muitas vezes criando colagens electrónicas. Esta semana apresentou os seus dois mais recentes trabalhos, o pequeno ensaio “Numa Noite Igual” e, sobretudo,  “Casa da Estrada” - um projecto que conta uma história imaginada, ocorrida entre os kms 35 e 36 da Estrada Nacional 332, no distrito da Guarda. A “Casa da Estrada”  evoca uma narrativa mística, inspirada por citações dos evangelhos , cruzada com imagens aparentemente banais mas com um grau de construção assinalável, criando uma sucessão de ambientes e situações onde o real e o artificial se misturam. Não deixa de ser curioso pensar que André Gomes, com uma carreira no teatro a interpretar personagens imaginadas, transpõe para um suporte aparentemente tão reprodutor da realidade, como é a fotografia, a ideia da fantasia através da encenação da imagem.  Até 21 de Outubro na Galeria Diferença, Rua São Filipe Nery 42. Outras sugestões: em primeiro lugar, no Porto, na Galeria Quadrado Azul, Paulo Nozolino expõe até 16 de Novembro “Loaded Shine”  que reúne 20 fotografias feitas entre 2008 a 2013 em locais tão diferentes como Nova Iorque, Paris, Berlim e Lisboa, mas também lugares no interior de França e de Portugal; depois, em Lisboa, na Plataforma Revólver, “Lights, Camera, Action”, do francês Renaud Monfury, mostra uma série de fotografias que retratam o mundo do cinema; e finalmente, no Centro Cultural de Cascais, “Em Plena Luz”, uma centena de fotografias do norte-americano Herb Ritts, essencialmente sobre estrelas do cinema, da música e da moda, em exposição até 21 de Janeiro.

 

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OUVIR - Nos últimos tempos tem-se assistido a um renascer das edições de discos em vinil, muitas vezes a partir de originais remasterizados, com prensagens de alta qualidade que utilizam vinil virgem de grande densidade. Para dar resposta a este público crescente - basta ver o aumento do tamanho das prateleiras de vinil nas lojas de discos como a FNAC e El Corte Ingles - a Warner lançou seis títulos que são clássicos da música portuguesa dos últimos 30 anos. Cinco deles são editados pela primeira vez em vinil - três são de Madredeus e três de Mariza.” O Espírito da Paz”, primeiro disco de Madredeus, foi originalmente publicado em 1994 e, na altura, teve uma tiragem em vinil limitada a 500 cópias e ressurge agora remasterizado. Dois outros títulos de Madredeus agora lançados surgem pela primeira vez em vinil: o álbum de remisturas “Electrónico”,  de 2002, onde a música do grupo foi revista por produtores como Craig Armstrong, Manitoba ou Telepopmusik e a recolha de êxitos “Antologia”, lançada em 2000. Quanto a Mariza, três dos seus álbuns vêem agora primeira edição em vinil: “Fado Em Mim” , de 2001, que foi a estreia da cantora ( e que inclui “Ó Gente da Minha Terra”), “Mundo”,  de 2015, que é o seu mais recente trabalho de estúdio, e o “Best Of” de 2014, que junta três inéditos a 17 êxitos da carreira de Mariza. Acreditem que quando ouvirem qualquer destes LP’s numa boa aparelhagem vão descobrir nestes discos de vinil  uma sonoridade diferente.

 

PROVAR -   Como alguns leitores já terão notado um dos passatempos que me ajuda a descontrair é cozinhar e ir descobrindo possibilidades na combinação de sabores. Ora para cozinhar não são precisas muitas coisas além de boa matéria prima, mas há meia dúzia de utensílios que ajudam muito o trabalho de amadores como eu, que gostam de estar sozinhos na cozinha. Confesso que sou fascinado por gadgets de cozinha - desde tábuas de cortar a mandolinas, passando por pinças até peças sérias como as panelas de ferro da Creuset para lume e forno, as frigideiras De Buyer, ou as assadeiras redondas de ferro fundido, fantásticas para levar ao forno o que se começou a preparar na chama do fogão, ou mesmo simples panelas de bambu para cozer a vapor. Não é fácil encontrar tudo isto num só lugar mas, há pouco tempo, descobri na Avenida 5 de Outubro, junto ao cinema Nimas, a filial lisboeta da casa César Castro, originalmente do Porto, e que se dedica a ter todos os utensílios possíveis e imaginários para utilizar na cozinha, com pessoal competente para esclarecer dúvidas. Não poucas vezes, depois de ler uma receita no site www.epicurious.com ,  é lá que me dirijo para procurar alguma coisa que me faz falta para garantir que o preparo sai bem feito. Claro que esta mania coleccionista gera problemas de falta de espaço na cozinha doméstica, mas com jeitinho e paciência tudo se consegue. E com o material adequado o resultado final do cozinhado é bem melhor. www.cesar-castro.pt .

 

DIXIT - “Entrar aqui um grupo de políticos ou de turistas é a mesma coisa: nunca nenhum me comprou um peixe” - Cristina Jesus, peixeira em Matosinhos, sobre as incursões de caravanas partidárias no Mercado durante as campanhas eleitorais.

 

GOSTO -  Da presença de artistas portugueses fora de portas: José Barrias expõe “collezionista de echi” na Nuova Galleria Morone em Milão, Cristina Ataíde está em Madrid na Estampa 2017, na Galeria Magda Bellotti, e Pedro Calapez está em Palma de Maiorca com “”El Límite Ubiquo”na Galeria Maior.

 

NÃO GOSTO - Segundo a Anacom, desde Abril de 2011 que os preços das telecomunicações crescem mais em Portugal do que na União Europeia.

 

BACK TO BASICS - “Aqueles que vos fazem acreditar em coisas absurdas são os mesmos que depois cometem atrocidades” - Voltaire

 

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publicado às 13:45

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A FALTA - Prometi a mim mesmo não falar das teorias e teses sobre os incêndios e o que se passou. Mas depois de já quase duas semanas de duelos florentinos, da erupção palavrosa de especialistas de meia tigela e de conspirações diversas, não consigo deixar de dizer uma coisa: fazer política partidária sobre o tema das mortes numa situação de catástrofe é de péssimo gosto, é um macabro exercício de oportunismo político. Nas últimas décadas todos os partidos que passaram pelo poder têm culpas no cartório da política florestal, da prevenção e da segurança. Por isso mesmo penso que o dever elementar de todos, do governo à oposição, seria terem pedido desculpa aos portugueses. Não fizeram tudo o que podiam, infelizmente as evidências provam-no. E ninguém apareceu nos primeiros dias a dizer o que era evidente: “Desculpem, os partidos, os líderes dos governos e dos partidos falharam!  Desculpem, o Estado falhou e não protegeu os cidadãos.” Era simples dizer isto e significava muito, mais que mil despachos e relatórios feitos a quente e à pressa. É claro que é fundamental vir a compreender as causas e as culpas, e sobretudo as soluções para o futuro, mais do que andar à procura de causadores e culpados da situação concreta do dia 17 de Junho - mas um pedido de desculpas ficou a faltar e era devido. A reacção da classe política à catástrofe mostra um regime que ardeu, que primeiro faliu e que agora está a matar. Aqueles que têm tido poder podiam perceber a dimensão da besta que deixaram crescer. Parece que o bom-senso, a humildade e a responsabilidade desapareceram da política. 

 

SEMANADA - A segurança social tem 21 mil pagamentos em atraso a grávidas e doentes; as despesas familiares com saúde cresceram para 438 euros por ano por pessoa um valor superior ao da maioria dos europeus; o Observatório da saúde indica que utentes com menores rendimentos têm mais dificuldade em aceder ao Serviço Nacional de Saúde;  Fernando Medina anunciou esta semana ser o candidato do PS à Câmara de Lisboa - é a primeira vez que lidera uma lista eleitoral; os outros candidatos andam em modo invisível;  apesar dos incentivos apenas 81 médicos se disponibilizaram a ir para zonas mais periféricas e do interior;  domingo é o dia da semana em que nascem menos bebés e um estudo recente aponta como causa possível o aumento da percentagem de cesarianas nos partos totais;  em todo o país, na rede do Estado, só há 41 examinadores para as provas da carta de condução e os candidatos estão meses à espera de realizarem o exame enquanto que no sistema privado o tempo médio de espera é de cinco dias; nos meses de férias a GNR regista 38 queixas por dia de casos de violência doméstica; o mecanismo que penaliza o SIRESP por eventuais falhas nunca foi accionado pelo Estado, que é o seu único cliente; durante o período crítico do incêndio em Pedrogão cinco estações do sistema estiveram em baixo e 22% das chamadas falharam; comentário da semana no facebook: “numa crise o sirep falha; desligado, funciona”.

 

ARCO DA VELHA -  Dois reclusos da cadeia de Matosinhos queriam organizar uma festa na véspera de São João e foram apanhados na prisão com três chouriços, três garrafas de alcool, uma barra de haxixe, dois balões de São João e três telemóveis, tudo recebido ilegalmente.

 

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FOLHEAR -  Todos os anos, na edição dupla de Verão, que cobre os meses de Julho e de Agosto, a revista “Monocle” faz um levantamento das 25 cidades que considera os locais ideais para se viver. Depois de anos a subir neste ranking, Lisboa este ano ficou com a mesma posição de 2016 - a 16ª. No ano passado a revista já tinha chamado a atenção para o trânsito caótico na cidade e este ano a “Monocle” deixa um recado directo: “A Câmara Municipal deve encontrar o equilíbrio entre atrair investidores e visitantes estrangeiros e corresponder às necessidades dos habitantes nacionais da cidade - salários baixos combinados com o aumento do custo de vida significa que os residentes mais antigos podem ser marginalizados”. A cidade vencedora foi Tóquio, seguida por Viena, Berlim (que recebeu um destaque graças aos espaços públicos), Munique e Copenhaga. Madrid aparece na 10ª posição, Barcelona na 17ª. Lisboa está ainda em destaque com um artigo sobre a nova sede da EDP e os seus vários espaços, sublinhando que o investimento em boa arquitectura se reflecte de forma positiva na cidade. Outros destaques desta edição: uma visita à cidade espanhola de Valencia, uma conversa sobre gastronomia peruana com o fotógrafo Mário Testino, uma entrevista com o mayor de Los Angeles. O portfolio fotográfico, fresco e delicioso, é dedicado aos gelados, em várias formas, feitios e circunstâncias…

 

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VER - O ponto ideal ao equilíbrio alcança-se quando a obra de um artista se identifica tanto com o local onde é exposta que parece ter chegado a casa. Foi essa a sensação que tive ao ver “Voltar De Vez Em Quando”, de Cristina Ataíde, que está na Ermida, uma pequena e atraente galeria em Belém, na Travessa do Marta Pinto. O espaço é o da Ermida de Nossa Senhora da Conceição, uma capela do século XVIII, muitos anos abandonada. Foi trazida para a sua nova função por um médico, Eduardo Fernandes, apaixonado pelas artes plásticas, que em 2008 recuperou o espaço e aí começou a promover exposições regulares com artistas contemporâneos. As peças de Cristina Ataíde, na imagem, mostram como a escultura continua a ser o seu território de eleição, numa demonstração de equilíbrio visual e espacial. Como é frequente na obra da artista a apresentação das peças principais conjuga-se com o cuidado posto na sua instalação e nas frases que circundam, manuscritas numa fita, as paredes do espaço, como este fragmento, que afinal conta quase tudo o que esta exposição revela: “volto a  voar para longe”. Até 19 de Agosto, com curadoria de Ana Cristina Cachola. Outros destaques - prossegue o projecto “A Arte Chegou ao Colombo” , desta vez com obras de Paula Rego até 27 de Setembro, na praça central do centro comercial; na Galeria Módulo, Calçada dos Mestres 34, Ana Mata mostra “Árvores” e n’a  Pequena Galeria está “f8 - do retrato ao infinito” uma mostra de fotografia com trabalhos de  Alice WR, Carvalho, Isabel Costa, Carlos Almeida, Jackson Távora, Jorge Coimbra André Ricardo e Joaquim Young.

 

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OUVIR -  Chuck Berry morreu em Março deste ano, com 90 anos. Até bem pouco tempo antes da morte andou a trabalhar num álbum de originais que recuperava material escrito entre 1991 e 2014, em muitos casos refazendo gravações - já que os originais foram destruídos num incêndio no seu estúdio pessoal. Há 38 anos que não havia um novo disco de Chuck Berry, o homem que criou êxitos como “Maybelline” ou “Come On” e que até aos 88 anos,  nos 21 anos anteriores, continuou a tocar uma vez por mês, ao vivo, num bar da sua cidade, St. Louis, o Blueberry Hill. “Chuck”, o novo disco, não é uma colectânea de êxitos passados - é de facto um somatório de novas canções, com algumas brincadeiras pelo meio - como uma versão de “Johnny B. Goode”, de 1955, refeita para ser “Lady B. Goode” ou ainda a transformação de “Havana Moon” em “Jamaica Moon”. “Chuck” não tem covers, nem duetos, nem produtores de luxo convidados como se tornou habitual nos discos de fim de carreira -  é fiel às origens de Berry nos blues, à sua paixão pela guitarra e à seu interminável dedicação ao rock’n’roll, como o segundo tema do CD, “Big Boys” bem demonstra. O disco abre com “Wonderful Woman”, uma declaração de amor a Themetta Berry, a sua mulher. Há outros momentos marcantes como “Darlin”, “She Still Loves You”, “Dutchman” ou “Eyes Of A Man”  -  no fundo um testamento de dois minutos com as opiniões de Chuck Berry sobre o sentido da vida. Ele, que poderia ter gravado um disco de despedida com os maiores nomes do rock (que para o efeito se teriam deslocado a correr a St. Louis), escolheu gravar com  a família - o filho e o neto nas guitarras e a filha Ingrid na voz. Foi uma boa despedida. Obrigado Chuck.  

 

PROVAR -  Quando o regresso a um restaurante, passados uns anos, corre ainda melhor que a estreia, é caso para bater palmas. Foi o que aconteceu com nova visita à Padaria, em Sesimbra. Embora ali haja peixe para grelhar da melhor qualidade e a grelha seja competente, é nos pratos mais elaborados que está a diferença desta Padaria em relação a muitos outros locais de Sesimbra. Mas sobre o peixe deixem dizer que aqui só há peixe do mar, pescado na região e só há bivalves quando são garantidamente bons - de maneira que não esperem encontrar pré-fabricados à bulhão pato. Por detrás das operações está José Rasteiro, homem da terra, apaixonado pelo que faz -  isso nota-se na forma como fala dos pratos que propõe. A localização do restaurante é numa das pequenas ruas que desce até à marginal. A esplanada tem vista sobre o mar e é protegida dos ventos - a visita anterior tinha sido no Inverno e não deu para aproveitar a boa localização. Passemos ao que interessa: o pão de Sesimbra fatiado fino vem acompanhado com azeitonas e azeite, saboroso e intenso. O amuse-bouche oferecido pelo Chef é um achado: requeijão texturizado e enformado como se fosse um pequeno mozarella, com cubos de tomate e pão de especiarias. Nas entradas provaram-se uns filetes de cavala fresca, enrolados, simpáticos, e um excepcional tártaro de atum com coco fresco e salicórnia. A seguir, de um lado da mesa ficou um filete de salmonete com puré de aipo e, do outro, espadarte rosa fumado a quente com ervas da serra da Arrábida, puré de couve flor e molho de caldeirada. Ambos estavam excepcionais na qualidade dos produtos e na preparação. A acompanhar esteve um vinho branco de Colares, feito nas vinhas da Fundação Oriente  a partir da casta  Malvasia. Excelente. A Padaria fica na Rua da Paz nº5, em Sesimbra, e tem o telefone 212 280 381.

 

DIXIT -  “Como é bom ler bom” - Ferreira Fernandes

 

GOSTO - O Centro Português de Fotografia completou 20 anos durante os quais realizou 500 exposições e guarda 575 mil imagens em arquivo.

 

NÃO GOSTO - Das explicações do SIRESP e da teia de contradições criadas.

 

BACK TO BASICS - O Presidente não é mais que um privilegiado relações públicas, que passa o seu tempo a elogiar, beijar e a abanar as pessoas para que elas façam aquilo que é a sua obrigação - Harry S. Truman

 

 

 

 

 

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publicado às 14:00

ESTADO - Há três verbos que definem a acção do Governo nestes primeiros seis meses de vida: revogar, demitir e nomear. Os três andam juntos e justificam-se uns aos outros em nome da alteração das políticas. Raramente um Governo terá feito de forma tão sistemática, em tão pouco tempo, tantas  alterações de dirigentes de organismos públicos, interrompendo mandatos e substituindo anteriores responsáveis, independentemente do seu desempenho, por outros novos nomeados com o exclusivo critério da confiança política. Para usar uma expressão introduzida pelo Primeiro Ministro, parece que as vacas voadoras tomaram o freio nos dentes e se transformaram em drones, que voam sobre o Estado português, ocupando posições estratégicas na economia, na saúde, na segurança social, em todo o lado onde surja um pretexto para encaixar alguém sintonizado. As vacas voadoras deixaram de ser figura de retórica e são quem assumidamente reboca a geringonça. Aquilo a que assistimos é à tomada do aparelho de Estado por um partido, sem olhar a meios nem a competências. Aos poucos o Estado perde credibilidade e a célebre frase de Guterres, “no jobs for the boys” parece mais uma vez uma anedota de péssimo gosto. Há quem diga, elogiando, que António Costa reintroduziu a política na acção do Estado; creio que o que fez foi reintroduzir a politiquice e o aparelhismo, as duas degenerações senis da partidocracia.

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SEMANADA - A greve dos Estivadores no Porto de Lisboa causa prejuízos superiores a 100 mil euros por dia; os sete operadores do Porto de Lisboa estão em situação de pré-falência; a actividade económica do Porto de Lisboa em 2015 foi metade da registada em 2012; o Governo pretende que as empresas cotadas em bolsa que, em 2018, não atinjam uma quota de 20% de mulheres nas administrações, tenham a cotação suspensa; um padre que dirigia uma instituição integrada na Casa do Gaiato foi acusado pelo Ministério Público de maltratar crianças e idosos; o subsídio de desemprego só chega a menos de 22% dos trabalhadores independentes; as exportações portuguesas tiveram o pior arranque do ano desde 2009; o investimento estrangeiro feito através dos vistos gold aumentou 45% até Abril deste ano; a Madeira aumentou os incentivos fiscais para atrair mais vistos gold; Cavaco Silva interrompeu o seu silêncio para dizer que “a política económica é demasiado importante para ser deixada aos políticos; o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, manifestou o desejo de que as eleições “autárquicas não venham interromper a governação”; o Estado está a cobrar mais 1,6 milhões de euros por dia em impostos sobre combustiveis e já arrecadou este ano mais de mil milhões de euros graças a eles; as obras da segunda circular, em Lisboa, vão começar em Junho, ainda com as obras do eixo central a decorrer e sem prazo de finalização apurado; as turmas do ensino profissional não entraram no cálculo da lotação das escolas públicas quando o Estado decidiu cortar o financiamento aos privados.


ARCO DA VELHA - Kátia Aveiro vai cantar na final da Liga dos Campeões, em Milão, neste sábado - e depois ainda há quem ande à procura das causas do mau tempo...

 

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FOLHEAR - A edição de Junho da revista Monocle é dedicada ao mar, opção que atinge as várias secções. Talvez por isso a revista publica uma nota sobre Marcelo Rebelo de Sousa e o desenho que acompanha o texto de Joana Stichini Vilela sobre o novo Presidente da República, mostra um Marcelo de fato de banho e polo, com leves mocassins, como se fosse a caminho dos seus bem amados mergulhos no mar. É uma boa maneira de a Monocle assinalar o resultado das presidenciais portuguesas. Outras referências a Portugal surgem nesta edição. Mário Ferreira, da DouroAzul, fala das suas actividades de cruzeiros ao longo do rio e dos seus planos de expansão para o Brasil, com cruzeiros no Amazonas. É mostrado o exemplo da manutenção da construção artesanal de barcos num estaleiro, no Tejo, que usa técnicas tradicionais, fundado pela família Ferreira da Costa, e que hoje é dirigido por Jaime Costa, bem perto de Lisboa, e que continua a fazer lindíssimos barcos. Na área de sugestões a Monocle recomenda o turismo rural da Casa Agostos, em Santa Bárbara de Nexe, no Algarve, uma obra do atelier de arquitectura Pedro Domingos. Finalmente o portfolio de fotografias no fim da edição é dedicado a São Tomé e Principe e infelizmente não foi feito por quem melhor fotografou esse arquipélago nos últimos anos, Inês Gonsalves, que lá vive. Em vez disso a Monocle publica uns postais ilustrados sem grande graça - aqui está uma oportunidade perdida.

 

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VER - No espaço da Fundação Carmona e Costa, na Rua Soeiro Pereira Gomes nº1, ao Rego, está patente até 9 de Julho uma mostra de obras em papel, de Pedro Calapez, feitas entre 2012 e 2016. Arriscaria dizer que são precisamente as obras mais recentes, já deste ano, concentradas numa única sala, que mostram uma alteração do modelo de trabalho de Calapez, abrindo novo horizontes de uma forma quase inesperada e surpreendente. Numa das outras salas está a instalação, aqui na imagem, que funciona como se um caderno de esboços ganhasse subitamente vida em quatro paredes. Outra exposição a ver reúne obras de Rui Sanches, Mitsuo Miura, e também Pedro Calapez, sob a designação comum de Backstories, na Fundação Arpaz Szenes - Vieira da Silva até 25 de Setembro. Aqui o mais marcante é o trabalho de Rui Sanches, na sala inicial, sobretudo os seus jogos de ilusão sobre o quotidiano. Dando um salto para fora do país, a portuguesa Cristina Ataíde volta a expor no Brasil, desta feita em Curitiba, na Galeria Ybakatu, até 30 de Junho, sob o título “Na Palma da Mão”, que agrupa desenhos e esculturas em alumínio ainda inéditas em Portugal; a seguir estará em São Paulo. Finalmente, para quem gostar de festejos numa certa aura de polémica entre críticos, artistas e galeristas, este é o fim de semana da primeira extensão da feira de arte Arco, de Madrid, a Lisboa. Está na Cordoaria até domingo dia 29 e 44 galerias de vários países, predominantemente Espanha e Portugal, mostram obras de cerca de uma centena de artistas, com bilhetes entre 15 e 25 euros.

 

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OUVIR - Há alguma coisa de Bill Withers na forma como Gregory Porter canta. Depois do sucesso obtido com “Liquid Spirit”, que ganhou um Grammy, Porter regressou agora a um registo mais pessoal e intimista, numa produção discreta mas assente em temas sólidos, desde logo “Holding On”, que abre o novo álbum “Take Me To The Alley”. Porter tem uma voz e um estilo de interpretação tão marcantes que às vezes é preciso distanciarmo-nos para que possamos entender como ele evolui de disco para disco, sem perder a força natural que caracteriza a sua voz e que é a sua marca muito pessoal. Neste álbum Gregory Porter apresenta quase exclusivamente composições suas, canções que contam histórias da sua vida, do seu filho, da sua mãe, da família. Há aqui quase um regresso à tradição dos espirituais, o que faz com que este álbum pareça  musicalmente menos variado e mais conservador do que “Liquid Spirit”. Na realidade, neste seu quarto disco, “Take Me To The Alley”,  Gregory Porter optou por traçar o seu próprio caminho, com base nas suas histórias de vida, arriscando musicalmente, com maior influência do gospel e menos utilização das sonoridades da  pop que lhe trouxeram a fama no disco anterior. Mas isso é também fruto de uma opção de produção rigorosa, com arranjos mais discretos, que fazem passar para primeiro plano o conteúdo das histórias pessoais presentes nas canções. CD Blue Note, Universal

 

PROVAR -  A carne de javali não é das mais fáceis de cozinhar. Se mal preparada fica rija, seca e sensaborona. Se bem tratada, ganha fulgor. É o que acontece na Casa Nepalesa, um restaurante surpreendente das Avenidas Novas onde o javali com espargos verdes em molho de caril é uma belíssima descoberta. A mão amiga que lá me fez regressar tem também razão ao elogiar a qualidade da confecção do arroz basmati: a Casa Nepalesa utiliza exclusivamente a célebre marca Tilda, dos Himalaias, e assim consegue de facto um arroz de invulgar qualidade. A decoração evoca a origem dos fundadores do restaurante, o serviço é atencioso e irrepreensível. A garrafeira é de extensão moderada, com preços honestos e selecção cuidada. Há uma multidão de entradas tentadoras, propostas de peixe e vegetarianas, várias possibilidades com gambas de moçambique e com frango, para além dos pratos mais tradicionais de borrego e cabrito, tudo com a intensidade do picante a poder ser ajustada à preferência de cada um, Mas foi de facto a surpresa da combinação do javali com os espargos verdes e o caril que me conquistou. Para rematar provou-se um gelado de manga com pistácio, que se recomenda. Avenida Elias Garcia 172 A, (quase a chegar à Fundação Gulbenkian), telefone 217 979 797. É melhor marcar que a casa não é muito grande.

DIXIT - “A Câmara Municipal de Lisboa manifesta (...) um completo desrespeito por quem vive e trabalha na cidade e revela uma incompetência que não é admissível em quem gere uma capital europeia” - do comunicado do Automóvel Club de Portugal sobre as obras que que estão a piorar a circulação em Lisboa.

GOSTO - O Parque Eduardo VII ganha nova vida este fim de semana com o regresso da Feira do Livro, até 13 de Junho.

NÃO GOSTO - O défice orçamental quase duplicou no mês de Abril.

BACK TO BASICS - Só duas coisas são infinitas - o Universo e a estupidez humana - Albert Eisntein

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publicado às 12:30


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