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O DESTINO MARCA A HORA

por falcao, em 13.10.17

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TIC-TAC - O relógio da política, que estava parado há uns tempos, voltou a andar, as autárquicas deram mesmo um abanão ao estado das coisas. O PSD tem uma oportunidade de voltar a fazer oposição e o PCP já começou a mostrar que reactivou a política de rua - está visto que vamos ter mais greves nos próximos tempos. Cada um destes dois partidos procura recuperar a sua identidade, perdida no caso do PSD por uma incompreensão do que tinha mudado no país e, no do PCP, pelos travões que lhe foram impostos pela geringonça. No PSD a luta interna vai ser dura entre a ala de Rio, apoiado pela previsível velha guarda do partido e Pedro Santana Lopes, que quer uma renovação de pessoas e de ideias. Qualquer dos dois não está no Parlamento nem nos habituais poisos do regime - o que coloca em vantagem Santana Lopes, mais experiente a fazer comunicação fora do círculo institucional. Para além das pessoas o que está em causa tem a ver com o funcionamento dos partidos e do sistema político: quem quer dar mais voz aos cidadãos? Quem vai conseguir envolver e cativar simpatizantes, apoiantes, independentes, fazendo o partido crescer para além do seu aparelho? No fim do dia quem quer mesmo afirmar a diferença? Já se percebeu que de um lado está um candidato que prefere não aceitar perguntas de jornalistas, como Rio fez na apresentação da sua candidatura e, do outro, alguém que aprecia uma boa polémica e gosta de correr riscos, como Santana Lopes. Entre a pressão do PCP e o reviver do PSD António Costa vai ter um fim de legislatura mais agitado que esperava. Imaginou, talvez, que poderia ensaiar uns passos de dança com Rui Rio, pode ser que em vez disso lhe reste continuar a dançar o tango com Catarina Martins.

 

SEMANADA - O investimento público previsto no Orçamento de Estado de 2018 será inferior ao do último ano do governo de Passos Coelho e equivale a menos de 2% do PIB, que é o valor mais baixo da Europa; em 2016 o Estado concedeu cerca de 2500 milhões de euros em benefícios fiscais a entidades sujeitas a IRC; cem mil famílias não vão ter descida no IRS; nos últimos dois meses e meio verificaram se 29 assaltos à bomba a caixas multibanco; desde 2015 já ocorreram 215 insolvências de farmácias; a marca Elefante Branco, registada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial,  está à venda por um valor base de  cinco mil euros; em Portugal realizaram-se 850 transplantes de coração em 30 anos, e o país está no 12º lugar europeu neste tipo de cirurgias; há 1672 obesos à espera de cirurgia adequada, mais 10% que no ano passado; a entidade reguladora da saúde recebeu 49 mil queixas nos primeiros oito meses do ano; em Portugal a penetração das redes sociais aumentou quase três vezes e meia entre 2008 e 2017, passando de 17.1% para 59.1%, segundo a Marktest; um milhão e 807 mil os portugueses costumam jogar online, segundo os resultados do estudo Bareme Internet 2017; o número de alunos cresce há quatro anos seguidos nas universidades privadas que este ano registaram 20 600 novas entradas; temos 140 reclusos por cada 100 mil habitantes e a idade média dos detidos é de 39,7 anos; a nova lei de estrangeiros já legalizou cadastrados violentos em Portugal.

 

ARCO DA VELHA- A concessionária dos cacilheiros, Soflusa, reagiu aos protesto dos utentes sobre os enormes atrasos devido à greve que afecta os seus barcos, pedindo paciência aos passageiros que se deslocam para o trabalho e sugerindo que evitem as horas de ponta.

 

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FOLHEAR - O futebol não é coisa que me excite - não acho grande graça ao assunto. Mas fico sempre fascinado pelo entusiasmo que suscita, pela paixão que se sente, e pelas conversas infindáveis que proporciona. O que se passa nalguns canais de televisão do cabo é sintomático - há uns rapazes que analisam a bola como se estivessem a analisar um tratado filosófico, outros que se insultam como se estivessem ébrios numa taberna e outros ainda que vibram como se estivessem num Indiana Jones. Reconheço que o futebol é bom motivo de conversas -  mas há há muito que recomendei ao meu barbeiro que não me falasse de futebol e se um taxista tenta começar num relato sobre o Jesus ou o Vitória desato a falar da uber e lá me vou safando. Mas sei que o futebol é uma paixão - que vem de miúdo quando se joga na rua, numa praceta, em qualquer lugar. “Houve um tempo em que o futebol era um prazer barato que se jogava ao domingo. Não era difícil que alguém se apaixonasse por aquele jogo de regras simples, com artistas que fintavam os adversários e marcavam golos” - esta descrição está em “Futebol, o estádio global”, uma nova edição dos Ensaios da Fundação Francisco Manuel Dos Santos, escrita por Fernando Sobral (declaração de interesse: meu amigo e companheiro de muitas páginas). Fernando Sobral fala da evolução do jogo, com o saber de um conhecedor e a distância fleumática de um atento observador que o caracteriza - e que lhe permite falar das relações entre futebol, marcas, economia, mídia, poder e política, sempre com uma frase de fundo: “para os adeptos o futebol é quase tudo”. Até eu fiquei mais interessado pelo futebol depois de ler este livro. “O futebol não tem fronteiras, acaba com elas”, como diz Fernando Sobral.

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OUVIR - Alfredo Rodrigo Duarte, Alfredo Marceneiro para toda a vida, nasceu em 1891. Marceneiro de profissão, tornou-se fadista por vocação e assim ficou conhecido. Tive a felicidade de o ouvir cantar e até, eu miúdo ainda, de o ouvir a falar à volta de uma mesa. Era um homem fascinante, uma voz impressionante e, sobretudo, um sentir especial que transmitia a cantar o seu fado. Até hoje nunca tinha percebido as semelhanças que existem, de facto, entre Camané e Marceneiro - tão distantes no tempo um do outro. Mas ao fazer um disco de homenagem a Alfredo Marceneiro, Camané expôs essa semelhança. E o maior ponto dessa semelhança é na alma, no tal sentir do que se canta. Logo na faixa de entrada, “Cabaré”, Camané canta ao que vem - não é a um despique, é a uma homenagem feita com a voz que faz ouvir o coração. Sou dos que considera Camané o grande fadista português surgido na segunda metade do século XX - para mim não há outro como ele na intensidade, na capacidade de interpretação, na comunicação que estabelece - na emoção que transmite - será isto o Fado? Ouvir estas versões de “Olhos Fatais”, “Ironia”, “Empate Dois a Dois”, “Despedida”, “Lembro-me de Ti” e, sobretudo “O Remorso” é  uma experiência extraordinária. Simples mas intenso, criativo mas respeitador, inesperado mas tradicional, Camané fez desta homenagem a Marceneiro o grande disco de Fado dos últimos anos. Destaque ainda para  a produção exemplar de José Mário Branco, para a guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o extraordinário trabalho de baixo de Carlos Bica. “Camané Canta Marceneiro”, CD Warner, disponível numa edição especial com CD e DVD ou apenas CD.

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VER - Lu Nan, fotógrafo chinês e correspondente da agência fotográfica Magnum mostra no Museu Berardo uma longa marcha, a preto e branco: "Trilogia - Fotografias (1989-2004)" inaugurou esta semana (na imagem) e é uma mostra parcial de um trabalho que Lu Nan realizou ao longo de 15 anos por toda a China. Dividida em três partes a exposição mostra a realidade dos hospitais psiquiátricos da China, segue depois a estrada da fé católica e termina com o dia a dia dos camponeses tibetanos. O curador desta exposição, João Miguel Barros, advogado português apaixonado pela fotografia (e pelos fotógrafos chineses em particular) escreveu que o inferno, o purgatório e o paraíso da "Divina Comédia" de Dante Alighieri não andam muito longe daqui."Lu Nan, Trilogia - Fotografias (1989-2004)" fica no Museu Coleção Berardo, CCB, em Lisboa, até 14 de janeiro, onde podem também ser comprados os três livros que compõem esta Trilogia: The Forgotten People: The Condition of China’s Psychiatric Patients; On The Road: The Catholic Faith in China e Four Seasons: Everyday Life of Tibetan Peasants. Passando para outra sugestão, ainda na fotografia, até 29 de Dezembro pode ser vista na Casa da América Latina uma exposição do trabalho de Daniel Mordzinski  que retratou dezenas de escritores ao longo da sua vida. Para mudar de registo o MAAT propõe uma exposição sonora - uma instalação áudio de Bill Fontana, “Shadow Surroundings”, baseada em gravações feitas no ambiente da ponte 25 de Abril.

 

PROVAR - Nesta altura do ano um fim de semana alargado no Douro é uma coisa verdadeiramente única. Há o Douro, as vinhas  de Outono que estão a mudar de côr, as quintas muito bem arranjadas, o acolhimento sempre simpático e descontraído em qualquer lugar. O norte, nessa matéria, é outro campeonato. Um pequeno exemplo: em Tonda, uma freguesia de Tondela, íamos à procura de um restaurante que nos tinham aconselhado, mas, por engano tínhamos antes entrado num pequeno café-restaurante a perguntar se era ali o local que procurávamos - que não, mas sorridentes disseram que este, simples, era melhor. Fugindo da recomendação fomos para o que o acaso nos tinha dado e encontrámos um espaço alegre e familiar onde nos serviram uma vitelinha de Lafões digna de nota - tudo isto se passou n’O Samarras,  Rua de Santo Amaro, Tonda. Mas o melhor dos dias estava para vir com a localização, em cima do rio Douro, da Quinta da Ermida, em Baião. Além do alojamento e dos fins de tarde à conversa em torno de um bom verde branco produzido na quinta, os jantares eram de cozinha antiga portuguesa - merece destaque a bôla servida como petisco de entrada, uns belos rissóis de carne , além de um frango do campo com batatas e arroz a trazer memórias de infância. Ali perto, também, ficou na memória A Casa do Almocreve, em Portela do Gôve, que proporcionou  um anho extraordinário de tempero e boa confecção. E mal ficaria se não evocasse aqui a prova de vinhos, tão bem explicada, na Quinta de Covela, em S. Tomé de Covelas. Destaque para o Rosé, para o Branco Escolha, e para a descoberta de um branco da casta local avesso, além dos tintos da Quinta das Tecedeiras. Se  a tudo isto somarmos uma noite de lua cheia reflectida no Douro ficam com uma boa ideia do que é um belo fim de semana.

 

DIXIT - “Neste momento os partidos têm todo o poder e os cidadãos nenhum” - Marina Costa Lobo

 

GOSTO - Segundo um estudo da ACEPI, mais de 91% da população portuguesa vai estar a utilizar a internet até 2025 e 59% farão compras online.

 

NÃO GOSTO - O consumo de antidepressivos em Portugal duplicou nos últimos quatro anos.

 

BACK TO BASICS - “Uma boa oportunidade é falhada pela maior parte das pessoas porque aparece vestida de fato macaco e é confundida com trabalho” - Thomas Edison.

(Publicado no Jornal de Negócios, Weekend, de 13 de Outubro de 2017)

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/manuel-falcao/detalhe/20171013_1021_a-esquina-do-rio?ref=Opini%C3%A3o_grupo1

 

 

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publicado às 11:25

COSTA - A campanha eleitoral de António Costa já começou, com uns cartazes que dizem «Arrumámos, a Casa». O meu palpite é que eles devem ser dirigidos para quem vive fora de Lisboa e está de passagem na Capital – é que quem cá vive fica com os cabelos em pé com estes dois anos de Costa – ruas mais sujas, cidade mais esburacada, trânsito ainda mais caótico. Na verdade o mandato de Costa é feito de desarrumação, a cidade está pior e não há obra feita nem rasto de inovação. Até na relação com o Governo a Capital está a perder – vejam-se as tropelias feitas na zona ribeirinha. António Costa na Câmara pode servir bem os interesses do Governo, mas é seguro que tem feito muito pouco por Lisboa. 

 


 


ASAE - Depois de meses de acalmia a ASAE voltou a fazer das suas, desta feita em Serralves. O motivo foi a apreensão de jóias de novos desenhadores, que estavam expostas na loja do museu – as jóias, de prata não tinham o contraste de Lei e a apreensão terá sido feita por denúncia. Independentemente da questão do contraste, a verdade é que tudo isto se baseia numa Lei com décadas, em grande parte hoje em dia contrária ao Direito Comunitário, e que proíbe a venda de jóias ou peças de metais preciosos, mesmo contrastadas, fora de ourivesarias. É por isso que algumas lojas de grandes marcas internacionais não podem vender nas suas lojas peças contrastadas, de ouro ou prata, mesmo que inteiramente legais e é por isso que elas são seladas pela ASAE – que depois demora infindáveis meses a resolver o processo, criando grandes prejuízos. Mas como se sabe a missão da ASAE é criar dificuldades e prejuízos em diversas áreas da actividade económica – a novidade é que agora invadiu a esfera das artes e da criatividade (esta ida à Fundação do Porto foi a segunda num espaço de pouco tempo já que os diligentes agentes da ASAE andaram por lá no dia da Festa anual de Serralves a ver se se fumava ….). O exagero tira a razão – e a falta de bom senso é o grande pecado da ASAE. 

 


 


LER – A edição de Julho/Agosto da revista internacional «Monocle» devia ser lida por todos os candidatos autárquicos de grandes e médias cidades. É o número anual que faz o ponto de situação dos locais com melhor qualidade de vida, ordena as cidades com base nesse critério e tem uma série de artigos, opiniões e sugestões de especialistas de diversas áreas, do urbanismo ao comércio e indústria, passando pela música ou a animação de rua. No índex anual das 25 melhores cidades para viver Lisboa caíu para a última posição, o que não é estranho se percebermos como a cidade tem ficado mais caótica nestes últimos tempos. Ao longo das páginas descobrem-se evidências há muito esquecidas em Portugal – a importância do comércio de rua, de as cidades acolherem pequenas indústrias, artesanatos, de privilegiarem a recuperação em vez da nova construção, de dignificarem e aproveitarem os espaços ao ar livre. Todo um programa de bom senso. 

 


 


 


OUVIR – Bem Harper faz quarenta anos em Outubro próximo e este seu novo disco, «White Lies For Dark Times» é o seu trabalho mais maduro, surpreendente e conseguido – e absolutamente nada chato. Com uma enorme influência dos blues, apresentando em  estreia a banda texana Relentless 7 ao lado de Harper, a produção garante sólidas e frescas sonoridades. Na realidade este é um Ben Harper para quem gosta de rock, nalguns momentos com citações que parecem pescadas de Jimi Hendrix ou de Neil Young, um disco bem ritmado, a fugir a alguma monotonia demasiado presente em outros trabalhos recentes do cantor. Mas além das influências bluesy, aqui também se percebe como Ben Harper gosta de se inspirar na folk music ou no funk. Um discão. 

 


 


IR – O Estoril Jazz 2009 termina este fim de semana. Hoje, sexta dia 3, é a vez do quarteto do saxofonista David Murray; amanhã, sábado dia 4, a homenagem a Charly Mingus pelo septeto Mingus Dinasty; e  Domingo, dia 5, toca o quinteto do contrabaixista Christian McBride – sexta e sábado às 21h30, Domingo às 19h00, sempre no Centro de Congressos do Estoril, no Festival que regularmente proporciona alguns dos melhores concertos de jazz que por cá se podem ver ao longo do ano. 

 


 


DESCOBRIR – O Douro é certamente das regiões de Portugal onde vale a pena voltar sempre. Nos últimos anos as transformações, para melhor, são grandes – desde as grandes vinhas até aos museus locais, passando pela recuperação dos passeios de barco e, sobretudo por uma oferta de hotelaria e restauração que colocam a zona, em termos de qualidade, entre as melhores do país. Vem isto a propósito daquele que hoje em dia é certamente um dos melhores restaurantes de Portugal, quer em termos de espaço, quer de serviço, quer de qualidade e confecção da comida. Trata-se do DOC, situado precisamente no Douro, a meio caminho entre a Régua e o Pinhão, precisamente em Folgosa. Comecemos pelo local – construído em cima do rio, num edifício concebido para o efeito, com uma esplanada fabulosa, uma sala espaçosa, boas mesas, confortáveis cadeiras, um ecrã que mostra o que se passa dentro da cozinha. Depois, o serviço – eficaz, simpático, atento, bom conhecimento da carta, conselhos acertados e não especulativos sobre vinhos. Finalmente a comida – múltiplas escolhas, comida de inspiração regional com um toque de frescura, muito boa qualidade dos produtos, confecção absolutamente impecável, quer nos peixes, quer nas carnes. Destaques, nas entradas, para as chamuças de moura e de alheira, nos peixes para os milhos de moluscos com algas do mar e rodovalho e o cherne com ratatouille de legumes, e nas carnes para as propostas de porco bísaro, cordeiro e cabritinho. Há a possibilidade de Menu Degustação. A responsabilidade de tudo correr assim é do proprietário e Chefe, Rui Paula, que trabalhou alguns anos em Londres e que tem um belo livro editado, «Uma Cozinha no Douro». O preço é alto, mas aceitável para a qualidade. É uma pena que em Lisboa, numa cidade á beira de um rio, não exista um restaurante assim, quer em conforto, quer em qaulidade. Uma experiência absolutamente a reter. Podem antever o DOC em www.restaurantedoc.com , reservas (absolutamente indispensáveis) para o telefone 254 858 123 ou 919 314 395. 

 


 


PROVAR – Bebida do verão, a meio da tarde – um Nespresso Lungo em copo largo, com três pedras de gelo. Delicioso. 

 


 


BACK TO BASICS -   Homens de bom senso aprendem sempre alguma coisa com os seus inimigos – Aristófanes. 

 

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publicado às 10:48


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