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OS RESTOS - É certo que os enganos fazem parte da vida e que só quem nada faz nunca se engana ou se erra. Mas o caso do estudo de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, “Growth in a time of debt”, que nos últimos anos moldou o pensamento de instituições internacionais e responsáveis políticos, é um pouco mais que isso. É um estudo que veio a calhar para servir de guarda-chuva à adopção de medidas e que foi adoptado de forma tão cega, como se de um dogma se tratasse, sem pelos vistos ter sido suficientemente escrutinado. Quando um estudante mais atento descobriu os erros de análise e tratamento dos dados em que o estudo se baseia para chegar às suas conclusões abre-se caminho para colocar uma dúvida: as falhas foram acidentais, ou foram deliberadas, para permitir chegar às conclusões que todos conhecemos? Nunca se saberá a resposta a esta questão, mas é perturbante perceber que as políticas de austeridade, nos moldes que conhecemos, aproveitaram bem a circunstância e o erro para conseguirem uma cobertura teórica. Mais perturbante ainda é a forma como pessoas desde António Borges a Durão Barroso começaram a mudar de opinião sobre as políticas de austeridade precisamente na semana em que o erro - ou a fraude - se descobriu. Quando percebemos que o sistema - e a política da União Europeia - se baseia num equívoco, teme-se o pior. Retive o que o economista Felix Ribeiro, uma voz infelizmente pouco ouvida, disse esta semana na TVI: «a união europeia já acabou e agora discute-se apenas quem manda nos restos».


SEMANADA - Continuou a remodelação de secretários de Estado, a quinta deste Governo, também conhecida por remodelação Swap; Durão Barroso diz que a austeridade “atingiu o limite”; Angela Merkel considera que os Estados da Zona Euro têm de estar preparados para ceder mais soberania  às instituições europeias; comparando números de 2011 com 2012, dos países da zona Euro, Portugal diminuíu no PIB e aumentou na dívida pública e no défice; em 2012 houve 17 Estados da União Europeia com défices acima dos 3% e 14 Estados com dívida pública acima dos 60% do PIB - ou seja, em violação das regras do pacto de Estabilidade; mais de 55% dos desempregados não recebem qualquer apoio do Estado; o Governo reviu em baixa a taxa de crescimento da economia portuguesa, que passou para -2,3%, a seguir a uma revisão provocada pelo abrandamento das exportações;  nos primeiros três meses do ano os portugueses compraram 101 milhões de raspadinhas, que deram 8,2 milhões de euros de prémios; até o programa “Governo Sombra”, na TVI 24, derrotou “A Opinião de José Sócrates” na repetição emitida à uma da manhã de Domingo para Segunda.


ARCO DA VELHA - Luis Filipe Menezes considerou Pedro Passos Coelho “o Primeiro Ministro mais sério desde o 25 de Abril”, sem mencionar sequer Sá Carneiro.

VER - Volta e meia há filmes assim, que nos fazem pensar no país que somos, nas pessoas que somos, no estado da nação neste ano da graça de 2013. «É O Amor”, de João Canijo, é um filme assim. Mostra o que frequentemente não queremos ver - sobretudo mostra um Portugal que às vezes as grandes cidades não querem saber que existe. Não é um filme “voyeur” sobre uma outra realidade, é um retrato cúmplice de uma descoberta. A ideia base é seguir o dia a dia de uma comunidade de pescadores, de Caxinas, Vila do Conde, na qual Anabela Moreira (que foi a cabeleireira de “Sangue do Meu Sangue”) surge como uma actriz em conflito interno que vai procurar perceber o que é a vida das mulheres dos pescadores nestes tempos actuais. Vou recorrer às palavras do próprio realizador : «A mulher das Caxinas é um modelo da portuguesa moderna. Esta afirmação contradiz a imagem tradicional de uma peixeira enlutada do Norte de Portugal. Mas foi isso o que descobrimos durante a investigação para este filme. E foi isso que nos encantou. A força romântica e vital daquelas mulheres, capazes de amar e lutar pela vida - delas e dos maridos -, fez com que se lhes dedicasse um filme. » 
«É O Amor» é um manual de como combater ideias feitas e de como saber olhar para a realidade e, com poucos meios, fazer um filme que não é uma excursão veraneante fora das grandes cidades, mas um documento sobre o nosso tempo.


OUVIR- “Overgrown”, o segundo disco de James Blake, agora editado, mostra uma sensível evolução desde o álbum estreia de 2011. Os ingredientes base - uma mistura equilibrada de jazz e soul - mantêm-se aqui, mas mais vigorosos, ou, se quisermos, com uma mais acentuada presença dos rhythm ‘n’blues, logo bem evidenciada no primeiro single deste novo trabalho, “Retrogade”. Mas logo a seguir, “DLM” é um tema marcado por um piano envolvente em diálogo com a voz de Blake. O primeiro tema do disco, “Overgrown”, faz a declaração de intenções: “I don’t want to be a star, or a stone on the shore, or a doorframe in a wall when everything’s overgrown”. Blake, que compôs todos os temas e toca todos os intrumentos no álbum, faz questão em evidenciar com este disco que não vai passar a vida a repetir a fórmula de sucesso que obteve na sua estreia. Muda, evolui, arrisca, às vezes entra em ruptura. O disco é mais directo, as canções são mais variadas entre si e curiosamente aquela cuja sonoridade se aproxima mais do primeiro disco é “Digital Lion”, que foi produzida por Brian Eno. Os sinais mais fortes são dados em “Voyeur”, com o seu ritmo marcado, e no tema “Take A Fall For Me”, o único a incluir um convidado, o rapper RZA dos Wu-Tang, a marcar as palavras por cima de uma escapadela de Blake pelo hip hop. (CD Atlas/Universal)


FOLHEAR - A edição de Maio da “Vanity Fair” tem uma capa lindíssima - Audrey Hepburn, em 1957, fotografada por Bud Fraker para o filme “Funny Face”. Mas o artigo não é sobre este filme, mas sim sobre os tempos em que a actriz viveu em Roma, depois do êxito que “Roman Holiday”, o seu filme de 1953. A “Vanity Fair” recorre a um novo livro do filho da actriz para mostrar imagens e contar episódios dos tempos em que ela viveu La Dolce Vita, em que descobriu a liberdade de Roma. Outro artigo fantástico é a história da ascensão e queda da revista “Holiday”, que nos anos 50 e início dos anos 60 foi o magazine de viagens por excelência e um exemplo de trabalho editorial, nos textos e nas imagens, um daqueles relatos que nos faz ter saudades das revistas a sério. Finalmente há uma bela reportagem sobre o crescimento do Facebook - não no número de utilizadores, mas como um novo media, como um novo suporte de publicidade. Neste artigo a Vanity Fair recorda como os meios são efémeros e, no início, parecem estranhos - a rádio gratuita nos anos 20 não parecia um negócio possível até transmitir o primeiro anúncio em 1923, o tempo que demorou a surgir o primeiro spot publicitário na televisão, em 1941, a maneira como a Nielsen começou a medir audiências nos anos 50, a internet a surgir em 1991 mas a primeira publicidade digital a aparecer em 1994 - e o Google adwords a surgir apenas em 2000. E, agora, o Facebook, algo mais do que aquilo que já se conhecia.


PROVAR - Durante os últimos anos o restaurante do Teatro S.Luiz foi o Spot S. Luiz, uma casa onde nos primeiros anos existiam algumas experiências curiosas, um quase percursor dos hamburgueres gourmet e de refeições leves e bem elaboradas - uma cafetaria como até então não existia naquela zona da cidade. Nos últimos tempos a qualidade foi decaindo, até encerrar. Agora, no mesmo local, surgiu o Café São Luiz, pela mão da equipa que está desde há uns anos no Café no Chiado. A decoração foi mudada, a carta foi completamente refeita e a garrafeira também. Na cozinha estão os “chefs” Nuno Bandeira de Lima e Luís Barros, que trabalharam juntos no Lapa Palace. A inspiração é da culinária portuguesa mas com toques de surpresa - como um risotto de cogumelos porto bello e rabo de boi ou um osso buco com batatinhas na chapa e molho de iogurte. Nas entradas há uma tentadora cavala em escabeche com broa de milho, azeite, hortelã e agrião. Nas sobremesas o destaque vai para o creme brulée de abóbora e requeijão com praliné de amendoa e tomilho. Pronto, a seguir, dieta... Rua António Maria Cardoso, 58, telefone 213 460 898.


DIXIT - “João Capela tem grande futuro” - Pinto da Costa, referindo-se à actuação do árbitro do Benfica-Sporting


GOSTO- Da iniciativa de fazer uma Vila Literária em Óbidos.


NÃO GOSTO - Do abate de árvores, contra as regulamentações camarárias, na Avenida da Ribeira das Naus.


BACK TO BASICS - Não sou um grande humorista nem invento piadas: limito-me a observar o que o Governo faz e a reportar os factos - Will Rogers

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publicado às 13:30

TENDÊNCIAS - Imperdível o artigo de Paul Boutin na «Wired» de Novembro – anuncia o fim da era dos blogs e decreta que ferramentas como o Facebook são o novo meio de fazer circular opiniões e ideias (procurem em www.wired.com na zona da revista).


Um pouco mais à frente, na mesma edição, explica-se como o Facebook também pode ser usado como instrumento de acção política. Ainda no mesmo número um belo artigo, «How To Google Better», e, depois, o guia mais completo sobre novos gadgets para esta época de Natal e a história de capa - uma investigação sobre o futuro dos produtos agrícolas, como a tecnologia está a revolucionar a área. A «Wired» já fez 15 anos, mas continua cheia de vivacidade.

 

BOM SENSO - Muito bom o artigo de Augusto M. Seabra sobre alguns acontecimentos recentes no mundo da arte, cá e lá fora (Joana Vasconcelos por cá, Damien Hirst lá fora). O artigo está na revista digital ArteCapital (www.artecapital.net) , na secção «O Estado da Arte» e chama-se «Gosto e Ostentação».

 

IMAGEM - Na situação que vivemos é preciso coragem para lançar novos produtos editoriais. A nova revista mensal iMAG apresenta-se como um magazine dedicado ao fotojornalismo, pretendendo testemunhar as notícias pela imagem. O primeiro número já está na rua, dirigido por Mafalda Lopes da Costa, que já dirigiu também a «Ler» e se tornou conhecida pelas suas crónicas sobre livros na TSF. A editora desta aventura é a Multipublicações, comandada por Ricardo Florêncio e Paulo Carmona, que há bem pouco tempo retomou o projecto da revista sobre cinema «Premiere».

 

FOTOGRAFIA - A galeria «Pente 10» dedica-se à fotografia contemporânea e tem um belíssimo espaço junto ao Jardim das Amoreiras, na Travessa da Fábrica dos Pentes nº10 (www.pente10.com) . Até 10 de Janeiro (de 3ª a sábado entre as 15 e as 20h00) podem ver «Presença da Ausência», a nova exposição da fotógrafa Rita Barros, há muito tempo a viver em Nova Iorque, autora de um livro e exposição sobre o mítico Chelsea Hotel, onde aliás ainda vive. Rita Barros, que se tornou conhecida com as suas reportagens fotográficas para o «Expresso», percorre nesta mostra outros rumos para além do fotojornalismo. Como Jorge Calado sublinha o texto do catálogo sobre estas «naturezas mortas domésticas», a verdade é que «a viagem mais extraordinária está na imaginação de cada um». Jogando com as cores e os enquadramentos, Rita Barros exibe as provas da sua imaginação.

 

IMPRESSÃO - Fez-me um bocado de impressão conhecer a nova versão da Madredeus com a Banda Cósmica exactamente no mesmo local, o Teatro Ibérico, onde há quase vinte anos, em 1987, assisti aos primeiros ensaios dos então ainda desconhecidos Madredeus. Na altura a surpresa foi total, pela positiva – uma sonoridade nova, arranjos que combinavam violoncelo com acordeão e sintetizador e, acima de tudo isso, a voz de Teresa Salgueiro a cantar poemas que eram pequenas histórias da vida portuguesa. Agora, confesso que a desilusão foi a primeira reacção. Vamos por partes: alguns arranjos são interessantes, a conjugação da harpa com o violino, guitarra eléctrica, baixo, bateria e percussão tem muitos momentos curiosos – mas às vezes tocam no enfadonho, talvez por excesso de procura do virtuosismo. O problema maior reside nas vozes – na tentativa de colagem desnecessária aos ambientes de Teresa Salgueiro que acabaram por constituir a imagem de marca do grupo. Se nos arranjos e no novo conceito musical se vislumbra algum caminho possível, os arranjos vocais são terríveis e a excessiva teatralidade da interpretação de Mariana Abrunheiro é frequentemente incómoda e a roçar o kitsch. A certa altura dei por mim a pensar se, neste novo caminho, não seria melhor usar uma voz masculina, em vez de querer manter o registo vocal feminino que vai sempre ter, bem ou mal, o ponto de comparação com Teresa Salgueiro.

 

SUPER - Gosto de Sonny Rollins, gosto de gravações de jazz efectuadas ao vivo, em concerto. Rollins, actualmente com 78 anos, continua a ser um dos nomes grandes do saxofone e este «Road Shows Vol. 1» mostra isso mesmo. As gravações foram efectuadas no ano passado, no Canadá e, de um muito elogiado concerto realizado no Carnegie Hall em Setembro de 2007, está uma grande interpretação de «Some Enchanted Evening» com Rollins no sax tenor, Christian McBride no baixo e Roy Haynes na bateria). O disco tem a curiosidade de incluir três inéditos da autoria do próprio Rollins e que nunca haviam sido antes gravados – e o mais fascinante deste registo é a capacidade de improvisação que se sente permanentemente nas faixas canadianas – em que Rollins é acompanhado por Clifton Anderson no trombone, Mark Soskin no piano, Bobby Broom na guitarra, Jerome Harris no baixo eléctrico e Al Foster na bateria. (CD Sonny Rollins «Road Shows Vol 1», Universal Music).

 

LEVEZA - Nos últimos tempos, para refeições rápidas, tornei-me fã da Go Natural, e acho que é a melhor oferta em Lisboa dentro deste tipo de restaurantes. Dois destaques recentes na loja das Amoreiras e na loja do Saldanha: uma salada de camarão com couve que passou todas as reservas iniciais e uma sanduíche de pão integral com queijo de cabra, beringela e tomate seco. Um reparo apenas – as sanduíches mereciam melhor embalagem, como por exemplo a das melhores sanduíches do mundo que são as da cadeia britânica «Prêt-A-Manger» - incomparáveis em frescura e sabor. Mas a Go Natural para lá caminha – melhorem um pouco mais por favor.

 

BACK TO BASICS – Pobres daqueles que não têm paciência , Shakespeare

 

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publicado às 18:46


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