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SÍMBOLOS - Escrevo quarta-feira à noite e reparo agora que esta coluna será publicada dia 11 de Março, 41 anos depois dos acontecimentos que marcaram definitivamente Portugal - a série de nacionalizações, o extremar de posições, um clima tenso na elaboração da Constituição. É impossível não recordar esse espírito do tempo nesta semana em que o novo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, iniciou funções - até porque a esquerda parlamentar, como se viu na cerimónia, preferiu manter o clima de divisão de há 41 anos,  No encontro ecuménico no dia da sua posse o Presidente da República apelou  “à aceitação do outro, ao diálogo, ao entendimento, à compreensão recíproca, sem negar as diferenças de princípios ou de vivências.”. Este encontro entre várias religiões foi mais um momento simbólico dos vários que tem criado: na véspera de ser empossado dormiu na casa dos pais e foi a pé até à Assembleia da República, numa clara evocação da sua infância e do seu percurso, mas sobretudo uma homenagem aos seus próprios pais. Na véspera despediu-se da vida de simples cidadão almoçando sozinho numa esplanada, de boné na cabeça. Os seus convites ao Rei de Espanha, ao Presidente da Comissão Europeia e ao Presidente de Moçambique, são outros símbolos - assim como o é a escolha anunciada de Paris para palco das comemorações do Dia de Portugal. Marcelo Rebelo de Sousa, antes de ser Presidente, é um homem da comunicação - foi jornalista, director de jornais,  editor, colunista, comentador. Sabe a importância da comunicação, sabe a importância dos símbolos na construção de uma imagem - como a escolha de citações de Mouzinho de Albuquerque, Miguel Torga e Lobo Antunes no seu discurso de posse bem revela. Ou, ainda, como a cirúrgica citação de Adam Smith sobre a mão invisível, evocando a obra “A Riqueza das Nações”. É um tempo novo que se parece abrir. Bem precisamos dele.

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SEMANADA - O cavaquismo despediu-se do país em Cascais; Marcelo Rebelo de Sousa escolheu Paris para o próximo Dia de Portugal; António Costa diz que “a Comissão vê riscos onde nós não vemos”;  Bruxelas anunciou querer mais austeridade em Portugal; o Estado já gastou cinco milhões de euros em consultores para tratar do caso dos swaps; um estudo do Reuters Institute sinaliza que em Portugal as mulheres consomem menos notícias que os homens e revela que a televisão e o computador são actualmente os dispositivos mais usados para o consumo de notícias; os operadores de telecomunicações foram alvo de 429 processos de contraordenação pela Anacom em 2015, um aumento de 24% em relação ao ano anterior; o Governo fez mil nomeações nos primeiros cem dias da sua existência; o preço das casas desvalorizou 26% desde 2000; a Câmara Municipal de Lisboa decidiu aplicar uma taxa às lojas que coloquem vasos de plantas á porta; oito mil estrangeiros já solicitaram pedidos de residência em Portugal para usufruírem de vantagens fiscais; a Polícia Judiciária fez buscas na Câmara de Gaia relacionadas com aspectos da gestão de Luís Filipe Menezes naquela autarquia, onde deixou uma divida de 300 milhões de euros; entre 2012 e 2014 as empresas adquiridas pelo grupo britânico que contratou Maria Luís Albuquerque tiveram benefícios fiscais de 381,7 mil euros; Lisboa vai ter mais 40 novos hotéis até 2017.

 

ARCO DA VELHA - Lula da Silva veio a Portugal para o lançamento do livro de José Sócrates com a viagem paga por uma empresa que tinha ganho o concurso para a construção de um troço do TGV e que era sócia do grupo Lena na empreitada. O responsável da Odebrecht, a empresa brasileira em causa, foi entretanto condenado a 19 anos de prisão no âmbito das investigações de corrupção durante o Governo de Lula e Dilma, conhecidas como Lava Jato.

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FOLHEAR - Como é tradição um dos primeiros actos do novo Presidente da República foi depositar coroas de flores nos túmulos de Luís Vaz de Camões e Vasco da Gama, no Mosteiro dos Jerónimos. Neste caso a homenagem a Luís Vaz de Camões assume um significado especial, porque Marcelo Rebelo de Sousa não utiliza o Acordo Ortográfico nos seus escritos pessoais e vários dos elementos da sua equipa tomaram posições contra esse mesmo Acordo. Tudo isto me leva à obra de Camões - “Os Lusíadas”, o poema épico que enaltece a capacidade, a coragem e a criatividade dos portugueses. A obra começa com a primeira viagem de Vasco da Gama à Índia, sempre com a História de Portugal como pano de fundo ao longo dos dez cantos do poema, que terá sido concluído em 1556 e editado em 1572. Tirando as edições escolares não é muito fácil encontrar edições acessíveis de “Os Lusíadas”. Não deixa de ser uma feliz coincidência que a editora Guerra & Paz, na sua colecção de textos clássicos, tenha decidido editar agora “Os Lusíadas”, que estarão disponíveis por 13 euros, voltando a oferecer a possibilidade de redescobrir um dos textos mais importantes da Cultura portuguesa. Esta edição tem nova fixação de texto feita por  Helder Guégués e felizmente não segue o Acordo ortográfico.

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VER - Este é o fim de semana da Moda Lisboa - Lisbon Fashion Week. De sexta a Domingo cerca de duas dezenas de estilistas portugueses vão apresentar o seu trabalho no Pátio da Galé, junto ao Terreiro do Paço. Mas além disso, nos Paços do Concelho estarão patentes duas exposições: uma, de fotografia, de João Telmo, nos Paços do Concelho, sob o título “Gineceu Androceu”, que retrata 20 personalidades e 11 designers de moda portugueses; a outra de uns objectos especiais e muito quotidianos - se nunca viu sapatos em exposição sem ser em fotografias do closet de Imelda Marcos experimente, no mesmo local, Paços do Concelho, ver as propostas dos designers portugueses para vestir os pés nacionais no Outono/Inverno deste ano. Ainda na Praça do Município, no espaço  Wonder Room, veja uma pop-up store dedicada a cerca de 30 marcas nacionais emergentes, todas Made in Portugal, mostrando o trabalho de designers em áreas que vão da roupa aos óculos de sol, passando por fatos de banho, equipamentos de surf e acessórios variados. Todo o programa e horários em modalisboa.pt .

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OUVIR - Hélène Grimaud é uma pianista francesa que tem uma preocupação assumida por causas ambientais. Nitin Sawhney é um músico, compositor e produtor de origem indiana, residente em Londres, que se caracteriza por combinar influências musicais asiáticas com elementos do jazz e da electronica. O projecto que junta Grimaud e Sawhney tem por título “Water” e combina obras de compositores clássicos que se dedicaram a este tema, com pequenos temas expressamente desenvolvidos por Sawhney para serem intercaladas entre essas peças clássicas interpretadas por Grimaud,  Aqui estão obras de oito compositores diferentes - Maurice Ravel, Franz Liszt, Claude Debussy, mas também outros mais inesperados como  Luciano Berio, Toru Takemitsu, Gabriel Fauré, Isaac Albéniz e Leos  Janácek, todos eles de alguma forma ligados ao tema da água. As interpretações de Hélène Grimaud foram gravadas ao vivo em Nova York,  e as sete transições de Sawhney, que introduzem separadores ambientais criados de forma electronica, gravados posteriormente em Londres e depois intercalados entre as interpretações da pianista, contribuem para sublinhar o lado conceptual de toda a obra. A água, diz Grimaud referindo-se ao título do disco, é uma fonte de vida e de inspiração e este projecto pretende mostrar as várias formas que a água pode ter nas nossas emoções. CD Deutsche Grammophon.

 

PROVAR - Era uma vez um grupo de amigos, apreciadores de sushi, que tinham descoberto os segredos da cozinha japonesa pela mão de Mestre Takashi Yoshitake, nas várias versões que o seu Aya teve ao longo da sua vida, terminada demasiado cedo. Há cerca de um ano esses amigos tiveram a ideia de fundar um clube de sushi, semi-privado e abriram o restaurante Go Juu nas Avenidas Novas, na Rua Marquês Sá da Bandeira 46 A, frente aos jardins da Gulbenkian. Ao jantar o Go Juu está aberto de quarta a sábado, mas nas noites de quinta, sexta e sábado é prioritariamente reservado aos sócios e seus convidados - mas se sobrarem lugares, dos cerca de quarenta e cinco que existem - eles ficam disponíveis ao público. Às quartas qualquer pessoa pode reservar e ao almoço, de terça a domingo, o local está igualmente aberto ao público. Existe um menu de almoço com várias sugestões e ao jantar a lista oferece propostas da melhor cozinha tradicional japonesa. Os menus de almoço incluem uma salada, uma sopa miso, pickles japoneses e depois diversas possibilidades de escolha de variedades de sushi e sashimi. Num restaurante japonês, o arroz é um critério de selecção para se saber se estamos a falar de coisas sérias ou de brincadeiras. O do Go Juu é seríissimo. Os peixes são muito frescos e é um prazer almoçar ao balcão a ver o trabalho dos dois sushiman, a preparar cada prato. Este não é um sítio para se ir comer a correr. É um local para parar, sentir e desfrutar o prazer. O serviço é muito bom, a carta de vinhos é criteriosa mas de preços razoáveis e existe vinho a copo, bem escolhido. Nas sobremesas destaque para os gelados de chá verde, de gengibre e de sésamo e ainda para os tradicionais castella e bolo de castanha e chá. Vê-se que a casa é frequentada por clientes habituais e por apreciadores da tradição culinária japonesa. O preço médio ronda os 30 euros por pessoa. Go Juu, Rua Marquês Sá da Bandeira 46, Telefone 218 280 704.


DIXIT - “Não quero atribuir-lhe outra qualificação a não ser ausência total de bom senso ao aceitar um cargo desta natureza” - Manuela Ferreira Leite sobre a contratação de Maria Luis Albuquerque pela Arrow.

 

GOSTO - Enquanto cidadão Marcelo Rebelo de Sousa não escreve segundo o Acordo Ortográfico

 

NÃO GOSTO - Da atitude dos partidos que se dizem republicanos e não aplaudiram o novo Presidente da República eleito em sufrágio universal.

 

BACK TO BASICS - Nos Estados Unidos qualquer pessoa pode vir a ser Presidente - é um dos riscos com que temos de viver - Adlai Stevenson Jr.

 

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publicado às 14:00

O MUNDO ESTÁ CONFUSO

por falcao, em 23.07.13

O discurso do Presidente da República do passado Domingo baseou-se em traduzir o discurso anterior que, nas singelas palavras de alguns observadores, lançou o caos na situação política. Do que percebi, o Presidente acha que fala claro, que não faz confusões nem complica, e sublinhou que, se não o percebem, a culpa não é dele, que, por acaso, só tem boas ideias e as melhores intenções. Clinicamente, como se classifica quem confunde a realidade com os seus desejos?

 

A coisa não está fácil para Portugal. A revista “The Economist”, na sua mais recente edição, escreve que “o Presidente Aníbal Cavaco Silva interveio de forma inepta para pedir aos dois partidos da coligação e aos socialistas de centro-esquerda, para forjarem um pacto de salvação nacional”.  Para que não surgissem dúvidas fui ao dicionário ver o que queria dizer “inepto”. Aí está: “Que significa ou demonstra ausência de inteligência: argumento inepto - sem coerência; que não possui ou faz sentido; confuso.” Fiquei esclarecido, afinal a dificuldade de compreensão não é só minha.


Aquilo que vejo é que andámos duas semanas a perder tempo, numa tentativa de acordo que, como era expectável, trouxe os históricos do PS à ribalta, dando~lhes palco e a possibilidade de transmitirem instruções claras, ao mesmo tempo que se  evidenciou que António José Seguro tem, no interior e no exterior do seu partido, o carisma de um caracol.


Se há coisa que saíu desta crise é que António Costa está agora mais próximo de ser o futuro líder do Partido Socialista. Quem, nas autárquicas, vota em Lisboa pode ir contando que Costa muito provavelmente não cumprirá o próximo mandato camarário -  portanto quem nele votar irá desperdiçar o voto porque não o irá ver por muito tempo na Praça do Município.


(Publicado no diário Metro de 23 de Julho)

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publicado às 15:29

O AFUNDADOR

por falcao, em 16.07.13

Se a situação estava confusa, mais confusa ficou depois da enigmática proposta de Cavaco Silva. A sua intervenção da semana passada fez-me lembrar o mágico que queria mostrar um truque de cartas extraordinário, mas que a meio se atrapalhou e atirou o baralho ao ar, espalhando tudo em seu redor.

 

A ideia do lamentável Presidente que temos parte de dois pontos: ele acha que ao propor diálogo fica isento de culpas no cartório e, depois, consegue arranjar espaço de manobra para tentar impor uma solução sua, não sujeita a eleições e não controlada pelo Parlamento. O que este Presidente da República está a tentar é subverter o regime sob a aparência da normalidade.

 

Já tínhamos provas bastantes dos problemas que existiam com o semi-presidencialismo do regime português, agora, com azar, talvez tenhamos que  ver  a nossa vida num regime presidencialista com fraca cultura democrática. Preparem-se que a longa metragem em pré-produção em Belém parte desse guião.

 

Como se tem visto nestes últimos dias o Presidente, que despertou para o que se passava tarde e a más horas,  deixou de querer usar a magistratura de influência para usar a magistratura da imposição. No fundo ele  está apenas a usar os partidos para depois dizer que não se entendem, e aparecer ele próprio – ou por interposta pessoa de um seu escolhido – como o salvador da pátria.

 

Tenho uma certa embirração pelos salvadores da pátria e aquilo que está a acontecer  faz-me reforçar ainda mais a minha desconfiança. Daqui não vai sair nada de bom e o resultado deste presidencialismo está  já à vista: mais dificuldades externas, maior confusão política, maior instabilidade, degradação da situação económica. Ou seja, um afundador do país em vez de um salvador da pátria. Lamentável presidência.

 

(Publicado no diário Metro de dia 16 de Julho)

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publicado às 11:39

REGIME - Cavaco Silva foi Primeiro Ministro entre 6 de Novembro de 1985 e 28 de Outubro de 1995, há cerca de 18 anos portanto. Os eleitores que este ano votarão pela primeira vez nas autárquicas, e aqueles que se estrearão nas próximas legislativas, não se lembram dele no Governo nem fazem ideia do que o país era no início da década de 90. As suas memórias remontarão ao início deste milénio e devem ter da política a péssima imagem moldada pelos governantes e políticos que, desde então, viram fazer promessas que não cumpriram, fugir ao primeiro desaire e incentivar gastos para além das possibilidades do país. O Cavaco que conhecem é este, desta semana, enigmático, que parece agir por vigança política, preocupado com o seu papel na História mais do que com qualquer outra coisa, que se alheia da realidade e constrói cenários, que brinca ao monopólio político sem medir consequências. A geração que agora vai começar a votar teve, talvez, a adolescência menos preocupada e está a ter a mais difícil entrada na vida profissional. Como se comportará eleitoralmente? Conseguirá o sistema político levar a votar aqueles que nas ruas já se mostraram indignados, descontentes e desesperados? E os partidos políticos? Perceberão que com a sua retórica de chavões e ideias feitas estão a milhas de conseguirem comunicar com estes cidadãos? Estas semanas de crise, além de tudo o que já se sabe e não vale a pena repetir, mostram o vazio de argumentos dos partidos - todos previsíveis, todos arrogantes das suas verdades, todos a viverem num mundo de fantasia, sejam do Governo ou da oposição. Verdade seja dita o Presidente da República desta vez foi rápido a fazer-lhes companhia em matéria de contributo para a crise, no preciso momento em que parecia começar a existir uma solução. O Presidente jogou na incerteza, aumentou a confusão e provavelmente deu um forte contributo para que suceda mesmo um segundo resgate. Na realidade o Presidente não deu só um tiro nos pés do país - passou por cima do uso da bomba atómica da dissolução e inventou uma bomba de neutrões política, sob a forma de um contrato a prazo para o Governo.
PERGUNTAS - Como se podem convocar eleições presidenciais antecipadas? O que se pode fazer quando, por omissões e actos, um Presidente da República aprofundar uma crise política em vez de a resolver? E se um Presidente da República prefere ignorar uma maioria parlamentar existente e forçar uma solução extra eleitoral, estamos perante um golpe de estado constitucional? Qual o processo para avaliar se um Presidente é inimputável?
SEMANADA - A previsibilidade de reacções do Bloco, do PCP e do PS à crise foi total- chavões, sem uma ideia nova; António José Seguro parecia alguém que, nestes dias de calor, estava dentro de água a levar amonas sucessivas e, volta e meia, vinha cá acima respirar e balbuciar qualquer coisa; diversas sondagens revelam que aumenta o descrédito dos políticos entre os eleitores; a audiência média diária do Canal Parlamento é de 720 pessoas por dia, menos que o total de deputados e funcionários da Assembleia da República; Vitor Gaspar regressou ao Banco de Portugal e uma das suas primeiras decisões foi encomendar a entrega diária do "Financial Times" no seu gabinete; Teixeira dos Santos mostrou no Parlamento a nota de passagem de pasta sobre os swaps, que a actual Ministra das Finanças afirma não existir, e voltouz a acusar Maria Luis Albuquerque de ter mentido; a crise confirmou que nada é mais previsível que o erro das previsões, sejam económicas, sejam políticas; o Presidente da República contrariou todas as previsões e, para se vingar da crise da semana passada, criou ele próprio nova crise esta semana; o "Financial Times" classificou a situação saída da declaração de Cavaco como "caos político".
ARCO DA VELHA - António Costa recorreu para o Tribunal Constitucional de duas sentenças que obrigam a Câmara Municipal de Lisboa a facultar o acesso de um jornalista do "Público" ao relatório de um vereador sobre a forma como são feitas as contratações de empreitadas de obras municipais, nomeadamente as de ajuste directo.
VER - As duas exposições de fotografia do ciclo “Próximo Futuro”, no edifício principal da Fundação Gulbenkian, proporcionam a oportunidade para descobrir a fotografia africana contemporânea. Começo pelas imagens da exposição da nona edição dos Encontros de Fotografia de Bamako e destaco as máscaras de Fatoumata Diabate, os fragmentos de momentos de Mamadou Konate, os poderosos retratos de Jejag Nga ou a fé vista por Mário Macilau. Há imagens marcantes, de paisagens pós coloniais, quase sempre com oportuna e referencial presença de pessoas, em vez da tendência paisagistica do betão das periferias urbanas, dominantes na aborrecida fotografia ocidental contemporânea. No piso inferior da Fundação está a exposição “Present Tense”, comissariada por António Pinto Ribeiro, o dinamizador do “Próximo Futuro”, que mostra o trabalho de fotógrafos do sul de África - e aí destaco as fotografias de Paul Samuels, Piet Hugo, Sammy Baloji, Kiluanji Kia Henda e, de forma especial, a maneira de ver de Mauro Pinto. É muito curioso observar a utilização da côr por estes fotógrafos, em contraste com o recurso ocasional com o preto e branco. E sobretudo é estimulante seguir a linguagem fotográfica que praticam, resistindo ao óbvio e evitando
OUVIR- O novo disco do trompetista norte-americano Terence Blanchard, o vigésimo da sua carreira,tem um título que descreve bem a capacidade de atracção dos seus dez temas - "Magnetic". Terence Blanchard no trompete, Brice Winston e Ravi Coltrane no sax tenor, Lionel Loueke na guitarra, Fabian Almazan no piano, Ron Carter e Joshua Crumbly no baixo e Kendrick Scott na bateria são os músicos presentes nestas gravações. A autoria dos dez temas inéditos é diversa, repartida pelos músicos do grupo - aqui estão composições do próprio Blanchard, mas também do pianista Fabian Almazan, do baixista Joshua Crumbly, do baterista Kendrick Scott e do saxofonista Brice Winston. Este disco, nas interpretações, mas também na composição, é um espelho daquilo que é a grande atracção do jazz - o desenvolvimento colectivo do talento, de que o arrebatador tema título "Magnetic" é um belíssimo exemplo. Emocional em "Hallucinations", atrevido em "No Borders, Just Horizons", melancólico no solo de piano de "Comet", ou swingante em "Don't Run", aqui estão várias boas razões para ouvir este "Magnetic". (Edição Blue Note, Universal)
FOLHEAR - A história, fantástica, que Pedro Bidarra criou em "Rolando Teixo", é particularmente adequada ao estado do país, é uma longa metáfora sobre este estado de coisas. O protagonista vive na negação da realidade e  sofre um processo de regressão que progressivamente destrói o que restava de si. Pelo meio está a descrição do quotidiano de uma vida sem história, que se cruza com sonhos e foge da realidade. Não resisto a citar uma passagem que dá o mote ao livro: "A felicidade é uma invenção da cidade. A cidade foi inventada para esconder a morte do nosso quotidiano, para nos fazer crer na omnipotência, na vida eterna, na juventude sem fim, na felicidade. No campo não há felicidade. Há vida, há morte, e, entre elas, sobrevivência." ("Rolando Teixo", de Pedro Bidarra, 150 páginas, colecção "Poucas Palavras, Grande Ficção", da Guerra e Paz.)
PROVAR -  Agora que é mais fácil ir ao restaurante do Chapitô, graças ao parque de estacionamento do mercado do Chão do Loureiro, que desemboca a umas dezenas de metros do local, vale a pena experimentar o que o chef  Bertílio Gomes está a fazer, num dos locais com melhor vista sobre Lisboa e que tem tido uma vida atribulada. Falo do restaurante do Chapitô, agora chamado "Chapitô à Mesa" e onde a tradição da cozinha portuguesa está em destaque, com pormenores invulgares que são imagem de marca de Bertílio Gomes. Creme de espargos com amendoas torradas, secretos de porco preto com molho de queijo de Azeitão, entrecôte com esmagada de batatas e cogumelos em molho de vinho tinto, ou cherne com musseline de aipo e ameijoas são alguns dos pratos da lista - onde também existem algumas saladas  e massas frias que sabem bem nestes dias quentes. Localizada na zona do Castelo, a casa é muito procurada por turistas a qualquer hora, e vale a pena marcar e não desesperar - que o serviço, embora esforçado, tem momentos de uma lentidão considerável. Rua da Costa do Castelo 7, telefone 21 887 5077.
DIXIT - "O partido mais pequeno da coligação não pode ser uma espécie de sidecar sem travões, sem guiador, nem embraiagem" - Bagão Felix
GOSTO- Da iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e do ISEG, que vão promover um estudo sobre as mudanças verificadas na vida dos vencedores dos grandes prémios dos jogos.
NÃO GOSTO - Que um orgão de soberania, em especial o Presidente da República, se guie pelo ressabiamento no seu processo de tomada de decisões.
BACK TO BASICS - Os piores dos lugares do Inferno estão guardados para aqueles que numa época de crise aguda mantêm a neutralidade - Dante Allighieri

(Publicado no Jornal de negócios de 12 de Julho)

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publicado às 11:37


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