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TUDO À ESPERA NÃO SE SABE DO QUÊ

por falcao, em 30.07.21

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UM PAÍS PARALISADO - Não me lembro, à excepção do antigamente, de um tempo tão insípido em matéria política como este que atravessamos. Dei comigo a seguir o debate sobre o estado da nação, que decorreu no Parlamento, e a pensar que temos um Governo que só pensa em manter o poder a qualquer custo, de preferência sem nada construir, e uma oposição que desistiu de o conquistar e é efectivamente inexistente. Daqui a uns anos veremos como António Costa imobilizou o país com o único objectivo de manter o poder para si e os seus, e como Rui Rio foi pernicioso, comportando-se como um aliado objectivo do imobilismo atávico do Partido Socialista, não tendo pejo em tornar o PSD cúmplice da ausência de estratégia para o desenvolvimento do país. O espectáculo dado também por estes dias no Parlamento, a propósito do relatório sobre o Novo Banco ou das manobras do PS para impedir a audição do Ministro Cabrita, são mais uns momentos lamentáveis que só servem para desacreditar a política. Não posso deixar de estar de acordo com a deputada Mariana Mortágua quando, a propósito do Novo Banco, ela acusou o PS de não suportar ser criticado. Vivemos num país onde se instalou um clima politicamente pantanoso baseado numa geringonça cada vez mais desarticulada, um país onde o Governo não quer mudar nada e fazer o menos possível, um Governo economicamente sem ambição, que nos colocou na cauda da europa, ultrapassados pelos países de leste numa série de indicadores. Temos uma ausência de protagonistas com energia e competência para provocar uma mudança, não há oposição à vista capaz de criar uma alternativa a este regime de degradação económica,  social e política. Vivemos ao sabor das necessidades conjunturais, condicionados por calendários eleitorais e manobras de bastidores. Há 150 anos Antero de Quental apontou de forma certeira o que caracterizava a nossa decadência e, infelizmente, continua certo no essencial do diagnóstico, adaptado a estes tempos que vivemos: condicionamento da inovação e de reformas do Estado, forte concentração de poder e limitado controle desse poder,  economia com fraco desenvolvimento industrial e reduzido estímulo ao empreendedorismo.

 

SEMANADA - Um relatório da Comissão Europeia tirou Portugal do grupo dos estados fortemente inovadores depois de o país ter caído sete lugares no ranking da inovação; Portugal é um dos poucos países da Europa que ainda não tem rede móvel de 5G;  a mortalidade por Covid-19 em Portugal  é actualmente quase seis vezes superior ao valor médio da UE; José Sócrates publicou um artigo de opinião em defesa de Luís Filipe Vieira e de Joe Berardo; o PS não aceitou as alterações ao relatório sobre o Novo Banco, aprovadas por todos os outros partidos parlamentares, que responsabilizam o Governo e Mário Centeno sobre os termos em que o banco foi vendido; um relatório de um organismo independente divulgado esta semana indica que a gasolina em Portugal é a 5ª mais cara da Europa e a carga fiscal que sobre ela incide significa 60% do seu preço de venda; brasileiros e israelitas são as duas nacionalidades no topo das 149 mil pessoas que obtiveram cartão de cidadão português em 2020; segundo as conclusões preliminares do Censos 2021 a população residente em Portugal encolheu em 214.286 pessoas ao longo da última década, uma queda de 2%, para 10.347.892 e nos últimos dez anos, acentuou-se o padrão de “litoralização e concentração da população junto da capital”, sendo que só o Algarve e Área Metropolitana de Lisboa registaram um crescimento da população e em sentido inverso, o Alentejo registou o “decréscimo mais expressivo”.

 

O ARCO DA VELHA - O PS inviabilizou a ida urgente de Cabrita e de Medina à Assembleia da República, para responderem aos deputados a propósito do relatório sobre os festejos do Sporting.

 

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ARTE NA PRAIA - Na Casa da Cultura da Comporta pode ver uma exposição temporária (na imagem) que três galerias brasileiras montaram com 36 artistas contemporâneos brasileiros, como Alexandre da Cunha, Cildo Meireles, Erika Verzutti, Ernesto Neto, Kim Lim, Leonor Antunes ou Tadáskía. Intitulada “O Canto do Bode” a exposição abriu nos últimos dias de junho e mantém-se até ao fim de agosto, com renovação de peças já neste fim de semana. A exposição nasceu da colaboração entre a Fortes d’Aloia & Gabriel, galeria fundada há duas décadas em São Paulo e outras duas galerias igualmente paulistas - a quase cinquentenária  Luísa Strina, e a Sé Galeria, surgida há sete anos.  Outras sugestões, agora viradas para novos artistas portugueses: na Sociedade Nacional de Belas Artes, abriu a exposição de finalistas de Pintura da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa dos anos 2018-19 e 2019-20. A exposição, que tem curadoria de Elaine Almeida, pode ser vista até 21 de Agosto e apresenta trabalhos de mais de meia centena de novos artistas, como Francisco Timóteo, Beatriz Chagas, João Massano, Bárbara Faden, Clara Bolota ou Hugo Cubo Gonçalves, entre muitos outros. Por último no Projecto Travessa da Ermida pode ver a segunda edição dos prémios de pintura  “alunos da fbaul na ermida”, resultante do protocolo estabelecido entre o Projecto Travessa da Ermida e a Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, com seis artistas em exposição: Ana Moraes, Lúcia Fernandes, Maria Máximo, Maryam Baydoun, Matheus Novaes e Olavo Costa.

 

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A REDEFINIÇÃO DA CULTURA EUROPEIA - “Novo Mundo - Arte Contemporânea no Tempo da Pós-Memória”, de António Pinto Ribeiro, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra,  é um livro sobre obras e sobre artistas que praticam diversas linguagens e géneros artísticos - do cinema à música, das artes visuais ao teatro, à dança e à fotografia. Têm em comum memórias que lhes foram transmitidas pelos pais e avós de origem africana, memórias que constituem hoje parte da matéria das suas obras. O livro foi escrito no contexto do projecto de investigação “Memoirs - Filhos do Império e Pós-Memórias Europeias”, O projecto mapeou artistas das segundas e terceiras gerações de afrodescendentes, nomeadamente na Bélgica, em França e Portugal. António Pinto Ribeiro sublinha que estes artistas "redefinem a cultura europeia” e “são os protagonistas de uma visão transnacional das artes, tendo um papel incontornável no cosmopolitismo europeu do século XXI”.  Actualmente, sublinha,  abrangem duas gerações de artistas que protagonizam muito do que é pertinente, ousado, expressivo e crítico nas artes europeias contemporâneas. No livro são apresentados treze artistas de diversas nacionalidades e descendências, desde as realizadora Amalia Escriva ou Margarida Cardoso até ao músico Dino d'Santiago, passando pelo fotógrafo Délio Jasse ou o artista plástico John K. Cobra. 

 

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ONDA DE CALOR - Há música para as estações do ano? Esta é uma velha dúvida, muitas vezes suscitada pelas canções de Verão. As baladas estivais foram cedendo caminho a outras músicas, muitas vezes mais ligadas às pistas de dança e aos entardeceres ritmados. Um dos casos que vale a pena conhecer nesta área é a série de trabalhos Astralwerks, editados pela Blue Note. Nas plataformas de streaming já está disponível mais um EP da série,  o “Bluewerks Vol.3: Heat Wave”. Ali estão oito temas, no total com menos de 20 minutos de satisfação garantida. A receita não difere muito dos dois primeiros capítulos desta aventura - pop Lo-Fi, que se desenvolve entre percussões e um instrumental  com influências do jazz. Bluewerks acaba por ser uma colectânea do trabalho de produtores como Maple Syrup, Burrito Brown e Leaf Beach, entre outros. O título da compilação, “Heat Wave”, não esconde ao que vem - sons refrescantes, apesar de um Verão que tarda em chegar. Se os produtores tivessem trabalhado em Portugal e sentissem os incontornáveis ventos das nossas tardes e a frescura que ele traz podia ser que isso também acabasse reflectido na música. O meu destaque vai para “Sunbean”, onde Maple Syrup combina sintetizadores com percussões electrónicas, mas também para o inspirador “Siesta” ou o sereno “Mazinger High”.

 

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A COMIDA -  Hoje em vez de falar de um restaurante ou sugerir uma receita vou falar de uma revista, uma edição muito especial da “Electra”, editada pela Fundação EDP. Este número 13 da revista, é dedicado à Comida: “Os alimentos recuperaram a sua função sagrada. Os res­taurantes são lugares de culto. Os chefs e as suas cozinhas de autor são dos mais famosos ídolos do nosso tempo. As estrelas Michelin têm o prestígio dos títulos nobiliárquicos, das canonizações religiosas, dos prémios literários, dos óscares do cinema ou das taças do desporto”, lê-se no editorial da revista. Destaques: o historiador francês Patrick Rambourg descreve o nascimento do restaurante no século XIX e seu posterior desenvolvimento; “É muito mais difícil ser um expert em Bach do que em cozinha” é o titulo da entrevista de Alexandra Prado Coelho ao sociólogo brasileiro Carlos Alberto Dória; Christopher Kissane, reflecte sobre como a história da alimentação, na Europa, se liga à sua história política; Lisa Abend debruça-se sobre a figura do chef, tal como ela se foi construindo socialmente a partir dos anos 90 do século passado, até atingir a condição de celebridade; Alexandra Prado Coelho, coloca a questão do critério moral na alimentação, e dos valores  que projectamos naquilo que comemos; Carolyn Steel, escreve sobre o mundo como lugar moldado pela alimentação; e o historiador Thomas Macho reflecte sobre o tema da alimentação  a partir da obra cinematográfica de Pasolini. Por último destaco a excelente edição fotográfica deste número: a “Electra” convidou a Agência Magnum a colaborar neste dossier, através de seis dos seus fotógrafos, que, em vários lugares do mundo, criaram imagens originais sobre a alimentação e a comida:  Alex Webb ( EUA), Jacob Aue Sobol (Dinamarca), Cristina de Middel (México), Gueorgui Pinkhassov (Rússias), Martin Parr (Reino Unido),  e Lindokuhle Sobekwa (África do Sul). Mas como nem só de comida vive o ser humano,  no centenário do nascimento de Clarice Lispector, a “Electra” publica um ensaio que desvenda uma face pouco conhecida desta grande escritora brasileira de origem ucraniana: a da sua relação pouco evidente  com a política. 

 

DIXIT - “A mais terrível das impotências não é querer e não poder - é poder e não querer. E é esta impotência que se exibe diariamente à nossa frente” - João Miguel Tavares 

 

BACK TO BASICS - “Um comité é um saco fechado onde se agitam ideias que depois são ignoradas” - Sir Barnett Cocks

 

 

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publicado às 11:00


1 comentário

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De Anónimo a 31.07.2021 às 08:33

Manuel, 100% de acordo. O "Arco da Velha" mostra bem a democracia que temos. Abraço. João

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