Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



UM CENÁRIO SOMBRIO

por falcao, em 22.03.24

IMG_3389.jpg

PORTUGAL AGRILHOADO - À hora que escrevo não se conhecem os resultados da contagem de votos da emigração mas tudo indica que o imbróglio saído destas eleições - uma maioria frágil - vai ser o cenário que teremos pela frente. Para além das conjecturas sobre soluções possíveis há cinco coisas que são certas: os eleitores penalizaram o desgoverno do PS nos últimos anos; penalizaram uma classe política enredada em escândalos, corrupção e sem capacidade de fazer reformas estruturais, dando e um voto de protesto claro que beneficiou o Chega; não ficaram convencidos da bondade das propostas do PSD (a AD é uma fantasia que ainda por cima fez o disparate de usar uma sigla parecida com outro partido que estava registado); e provaram que o sistema eleitoral vigente desde há quase 50 anos, baseado no método de Hondt e sem redistribuição de votos cria um resultado no Parlamento que não representa a vontade do eleitorado e despreza quase 20% dos votos válidos. Nada disto pode ser uma surpresa: a crise agravou-se na justiça, saúde, educação e habitação, os serviços públicos degradaram-se, o país caíu para a cauda da Europa em termos económicos, o populismo entrou galopante e caçou votos à esquerda e à direita e sobretudo alimentou-se da revolta daqueles que têm sido mais deprezados e ignorados nos últimos anos. O resultado de tudo isto é um país pior, um impasse político, uma espécie de regime trancado a sete chaves nas suas contradições, erros e impotências. E o pior é que não se vê, em lado algum, uma estratégia coerente e uma liderança inspiradora. O 50º aniversário do 25 de Abril não podia correr em pior cenário. Não é bonita a festa, pá.



SEMANADA - Os preços das casas em Lisboa em 2023 subiu 6,3% face ao ano anterior; um estudo publicado pelo Expresso indica que nas recentes eleições os jovens optaram por novos partidos e as mulheres votaram mais à esquerda;  outro estudo recente indica que a IL, o Livre e o Chega são os partidos mais escolhidos pelo eleitorado jovem e o PS é o que colhe menos preferências nessas faixas etárias; há 45 cargos institucionais a designar pela Assembleia da República e que necessitam de um entendimento entre PSD e PS; em 2023 quase 13% da população vivia numa casa sobrelotada e 6% vivia em situação de privação severa das condições de habitação; em relação ao tratamento de dependências do alcóol e drogas apenas 15% das unidades especializadas dão resposta aos que as procuram dentro do tempo recomendado e o número de pessoas em lista de espera para a primeira consulta ultrapassa as duas mil; Brasil, Nepal, Índia, Bangladexe e Cabo Verde são as principais origens dos imigrantes que estão a chegar a Portugal, cujo número quintuplicou nos últimos oito anos; as contribuições  pagas por imigrantes à Segurança Social representam 10 % do total enquanto em 2015 se situavam nos 2%; a hotelaria e turismo empregou 115 mil imigrantes em 2023; os alunos da escola D. Afonso Henriques, em Creixomil, Guimarães, assistem às aulas embrulhados em mantas para enganar o frio e não têm espaços para se abrigarem da chuva nos intervalos. 

 

O ARCO DA VELHA - Quase 1,2 milhões de votos nas eleições legislativas não serviram para eleger qualquer deputado, o que representa 19,5% dos votos válidos - apurou um estudo do matemático Henrique Oliveira, do Instituto Superior Técnico.  

 

2024 Sem título 02_DSC7176-LowRes (1).jpg

SOBRE O ESPAÇO - Na Galeria Fernando Santos, no Porto, Pedro Calapez apresenta até 9 de Junho uma nova exposição, “Enquanto o Espaço For”, com obras quase integralmente feitas em 2023 e já em 2024. Calapez apresenta pinturas a óleo e acrílico sobre tela, alumínio e papel. Nas salas principais apresentam-se quatro séries de trabalhos em pintura, datados de 2023 e 2024, e realizados em tela, papel ou em caixas de alumínio na linha de criação de objecto-pintura que a obra de Calapez apresenta há vários anos. Uma grande obra em alumínio recortado sobressai entre  todas as outras, contrapondo o vazio da parede à superfície da pintura e criando a noção da ocupação do espaço que o título da exposição sugere. No espaço Cubo, da Galeria Fernando Santos, dedicado a projectos especiais, Calapez apresenta “Autumn Leaves”, uma obra especificamente realizada para esse local, composta por 160 peças em chapa de alumínio, recortados a jacto de água. Composta por restos de outros cortes, material que se destinava ao lixo, foram recuperadas e preparadas pelo artista para organizar uma espécie de puzzle que ocupa completamente uma parede. Nesta exposição Pedro Calapez apresenta ainda dois outros conjuntos de trabalhos - uma série de desenhos a ponta de prata sobre fundo branco que mostram formas que posteriormente utiliza como esquemas de base para pinturas e desenhos; e dois conjuntos de impressões a jacto de tinta, algumas em grande dimensão, que são transcrição directa dos desenhos que manipula, criando de raiz em computador. É também apresentado na Galeria um vídeo com uma entrevista a Pedro Calapez, feita por Dalila Pinto de Almeida no seu atelier em Lisboa. Na imagem está a obra “Sem título #02, já de 2004, um acrílico sobre tela, de 194x286 cms, que está à venda por 32.500 euros. Galeria Fernando Santos, Rua Miguel Bombarda 526, Porto.

 

image (6).png

ROTEIRO - A Fundação Gulbenkian apresenta até 15 de Abril uma exposição retrospectiva da obra de Cruz-Filipe (na imagem), pinturas realizadas desde a década de 1970, incluindo dez telas inéditas pintadas a partir de 2015, a par de um conjunto de trabalhos nos quais se conjugam pintura e fotografia, uma marca criativa e técnica desenvolvida pelo artista. A exposição é apresentada na galeria do piso inferior da Fundação e tem entrada gratuita. Na Culturgest está até 30 de Junho a exposição “Mezzocane”, de Enzo Cucchi, um artista italiano associado ao movimento  ”Transavanguardia” que emergiu naquele país nos anos 80.  “Mezzocane” reúne uma seleção alargada das pinturas, esculturas e desenhos que Cucchi realizou nas duas últimas décadas. Paralelamente a Culturgest apresenta também uma exposição baseada no arquivo do artista, “Il Libraio e L’artista”. Cucchi teve a ideia original de transformar o arquivo do seu trabalho num videojogo, que pode ser jogado através de uma App indicada na exposição. Integrado no programa Serralves Fora de Portas, o Fórum Braga apresenta a exposição “Razão Inversa”, com obras de Fernando Calhau da colecção de Serralves e de algumas colecções que lá estão em depósito. A exposição, que mostra quatro décadas do trabalho de Fernando Calhau, fica no Fórum Braga até 16 de Junho. Finalmente, em Évora, no no Centro de Arte e Cultura (CAC) da Fundação Eugénio de Almeida (FEA), Alfredo Cunha expõe até final de outubro Outubro mais uma exposição das suas obras com foco no 25 de Abril, com o título “O Tempo de Todas as Perguntas”.

 

Capa Aldina Duarte_Metade-Metade (1).jpg

UM DISCO PARTILHADO  - Desafiar uma rapper a escrever poemas para melodias de fado tradicional é um desafio arriscado. Mas foi isso que Aldina Duarte fez quando convidou Capicua a escrever sobre melodias de fados da autoria de Alfredo Duarte (Marceneiro), Fontes Tocha, Raul Ferrão, Armando Machado, Júlio Proença, Joaquim Campos Silva ou José Marques. Da colaboração entre Capicua e Aldina nasceu o disco que fizeram juntando talentos e que por isso mesmo se chama “Metade-Metade”. Conta Capicua que, quando recebeu o convite, aceitou na condição de que Aldina Duarte lhe ensinasse os segredos dos poemas do fado e lhe desse lições sobre as suas regras e estruturas. Talvez por isso tenha escrito “Aprendiza”,  sobre música de Raul Ferrão. O primeiro fado do disco “Araucária” remete para o nome de uma árvore, ao mesmo tempo que marca um dos temas centrais deste álbum, a contemplação da natureza, as florestas, o correr das estações do ano, as dúvidas da vida e as suas celebrações até ao regresso às coisas básicas, bem ilustrado no tema final, “Eterno Retorno” onde um piano marca a música de Alfredo Marceneiro. São dele aliás outros fados marcantes de “Metade-Metade”, como “Tentativa”, “Duas Mãos” ou “A Dúvida”, onde a voz de Aldina se cruza com o som de uma harpa. Também a reter entre os 11 fados que estão no disco, são “Primavera”, “Majestade” e “Tentativa”. A produção do disco é da própria Aldina, cuja voz é acompanhada pela harpa de Ana Isabel Dias, a guitarra portuguesa de Bernardo Romão, a viola de Rogério Ferreira e o piano de Joana Sá. O disco será apresentado ao vivo num concerto no Coliseu de Lisboa no dia 17 de Abril.

 

image (5).png

OS ANOS DA BRASA - O título do livro é “Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975” e o subtítulo é “Episódios menos conhecidos”. Fica pois aguçada a curiosidade e ela não é defraudada. Esta nova obra da historiadora Irene Flunser Pimentel está cheia de informações pouco conhecidas sobre aquele período imediatamente posterior à queda da ditadura, informações e narrativas provenientes de entrevistas que a autora fez a um conjunto alargado de intervenientes militares e civis que participaram em todo o processo. No prefácio Irene Flunser Pimentel conta como começou a investigação através de entrevistas online durante a pandemia a alguns ex-oficiais da Marinha que considerou “terem tido muita importância em vários episódios da nossa transição para a democracia, desde o 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975, mas cuja acção foi de certo modo apagada, pois alguns deles contaram-se entre os “derrotados” nesta última data”. Na sua investigação a autora recorreu ao trabalho de vários historiadores e reconhece que “nem todos estarão de acordo relativamente ao facto de o 25 de Abril ter sido uma revolução ou um golpe de Estado”. Ao longo de três partes distintas o livro aborda os últimos anos da ditadura e a guerra colonial, a polícia política, as relações externas e os aliados de Portugal antes de 1974, o 25 de Abril e o período que se seguiu, com a libertação dos presos políticos e a evolução do MFA , a acção de países como EUA, França e Alemanha, o 11 de Março e a criação do Conselho da Revolução, o verão quente de 75 e finalmente todos os acontecimentos à volta do 25 de Novembro. O livro, editado pela Temas & Debates é um precioso auxiliar para compreender melhor o que se passou há cinco décadas.

 

DIXIT - “Não se sabe qual é o Governo, nem qual é o seu programa, muito menos em que condições é formado, mas já se sabe que há quem vote contra” - António Barreto

 

BACK TO BASICS - “Aconteça o que acontecer o país está encravado” -  anónimo


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:00



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2014
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2013
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2012
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2011
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2010
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2009
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2008
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2007
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2006
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D
  248. 2005
  249. J
  250. F
  251. M
  252. A
  253. M
  254. J
  255. J
  256. A
  257. S
  258. O
  259. N
  260. D
  261. 2004
  262. J
  263. F
  264. M
  265. A
  266. M
  267. J
  268. J
  269. A
  270. S
  271. O
  272. N
  273. D
  274. 2003
  275. J
  276. F
  277. M
  278. A
  279. M
  280. J
  281. J
  282. A
  283. S
  284. O
  285. N
  286. D