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UM EMBLEMA DO PAÍS

por falcao, em 28.03.24

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E A CULTURA? - Semanas antes das eleições de 10 de Março fiz nestas páginas uma abordagem às propostas existentes sobre cultura nos programas dos principais partidos. Confirmei o que intuía: a cultura foi uma área geralmente menosprezada, nos programas partidários, onde apenas surgiam ideias gerais e muito poucas propostas concretas. Quis o acaso que esta semana o livro que andei a ler, e de que falo nestas páginas, fosse a biografia de Francisco Lucas Pires. Para quem não sabe, ou não se recorda, ele foi, entre 1982 e 1983, o Ministro da Cultura do VIII Governo Constitucional, presidido por Francisco Pinto Balsemão. Relembro que essa foi a primeira vez que foi criado um Ministério da Cultura, área que até aí fora enquadrada a nível governamental por Secretarias de Estado. Ao ler a parte da biografia que aborda a actuação de Francisco Lucas Pires como Ministro da Cultura constatei que ele defendia, já em 1981, estas prioridades: atingir 1% do Orçamento de Estado a médio prazo (tinha 0,26% nessa altura - na proposta de orçamento de 2024  tinha 0,27% da despesa da administração central); em segundo lugar preconizava o investimento na criação de novos equipamentos que fossem instrumentos necessários para a fruição da cultura pelos públicos; em terceiro lugar defendia “a formação, estatuto e segurança das gentes da Cultura”, tema que deu passos mas ainda está por finalizar passados mais de 40 anos; em quarto lugar propunha uma política cultural especialmente assente na preservação e divulgação do património; em quanto lugar “a resolução das carências respeitantes às grandes infra-estruturas legislativas e administrativas”, onde muito continua por fazer, nomeadamente na autonomia de gestão de instituições e na Lei do Mecenato. Já então Lucas Pires falava do passe cultural ou da previdência social dos artistas e da importância da língua portuguesa no mundo globalizado do audiovisual que estava a surgir. São suas, em 1981, estas palavras, referindo-se à então jovem democracia portuguesa : “A cultura é um emblema extremamente importante da vitalidade e da crença num regime, e eu acho que isso continua por fazer”. Na realidade, mais de quatro décadas depois de Francisco Lucas Pires ter proferido essas palavras, muito continua por fazer. A sua agenda continua actual. Era boa ideia que o futuro Ministro da Cultura a seguisse. 

 

SEMANADA - Ao longo de cinco anos registaram-se 18 casos de fugas de hospitais de doentes com demência, quatro dos quais morreram e dois nunca foram encontrados; desde o início de 2023 a Força Aérea perdeu 19 pilotos-aviadores que pediram para sair das fileiras; o segundo período escolar terminou e existem ainda turmas sem aulas desde o início do ano lectivo a algumas disciplinas; quase 70% dos portugueses usaram redes sociais em 2023, um valor acima da média europeia; nos últimos seis meses de 2023 o consumo de podcast subiu 33%; no espaço de uma década a despesa com medicamentos nos hospitais aumentou 92% e no ano passado ascendeu a cerca de dois mil milhões de euros;  um estudo promovido por uma empresa imobiliária internacional indica que a Quinta do Lago tem preços mais altos por metro quadrado construído que Barcelona ou o Lago de Como; em 2023 os estrangeiros compraram mais de 7% das casas vendidas em Portugal e no Algarve esse número chega aos 30%; a Procuradoria Europeia está a investigar 15 suspeitas de fraude nos financiamentos comunitários, três das quais já do PRR; os números mais recentes indicam que há mais de cinco mil casais em Portugal em que ambos os membros estão no desemprego; Portugal é o oitavo país com maior taxa de emigração e 26% da população portuguesa já reside no estrangeiro; um terço dos portugueses entre os 15 e 39 anos vive fora do país; entre 2020 e 2023 a PSP registou mais de 15 mil furtos por carteiristas; quase metade dos 230 deputados eleitos a 10 de março são estreantes no parlamento; o cabaz alimentar da DECO, que avalia 63 produtos, aumentou 12 euros dessde março do ano passado.

 

O ARCO DA VELHA - Foi o poder do povo, através do voto, que deu 50 deputados ao Chega no ano do 50º aniversário do 25 de Abril. É o resultado da impotência do sistema para resolver os problemas de muita gente. Aqui está algo que devia fazer pensar os responsáveis políticos de todas as áreas. 

 

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UM EXERCÍCIO  - “Idos de Março” é porventura a mais ambiciosa exposição de André Gomes, um conjunto de quase três dezenas de obras construídas em torno de vários capítulos de uma mesma narrativa,  que evoca a sua própria vida e os seus sentimentos, assim como uma evocação da História clássica e da mitologia, explorando as linhas de tempo onde tudo se cruza. A base do seu trabalho continua a ser o registo fotográfico, manipulado e alterado, com combinações de imagens de várias momentos, localizações e épocas, na construção de um universo ficcionado que propositadamente quer manter uma aparência de realidade, que vai da auto-representação a imagens fortuitas, outras encenadas e outras construídas num processo criativo que combina a imaginação com o rigor técnico. Ponte de Lima, Quarteira, Pompeia e Nápoles são os locais que se cruzam e que servem de cenários para os vários capítulos. A expressão “ Idos de Março” designa o dia 15 do mês de Março do ano 44 A.C. , dia em que Júlio César foi assassinado no Senado de Roma, mas evoca também um momento trágico na vida do autor. A morte é aliás o fio condutor de toda a exposição, nomeadamente na evocação de Calpúrnia, a mulher de César que pressagiou a tragédia, assim como o adivinho Espurina, que avisou César dos perigos que o esperavam no Senado. O assassinato de Caio César abriu caminho a uma guerra e a tempos difíceis, como os que hoje vivemos. “Idos de Março” decorre até 17 de Abril na Galeria Diferença, Rua Filipe Neri 42 - e saliente-se que André Gomes refez para esta exposição o interior da sala principal, construindo uma nova parede que possibilita uma montagem com maior visibilidade. Foi editado um catálogo que reproduz todas as obras da exposição, um texto do autor e outros de Rui Bertrand Romão.

 

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ROTEIRO - Ana Jotta volta a utilizar ecrãs de projecção como suporte para as suas obras em “Next Song We Will Sing…”, a exposição que estará até 6 de Maio na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18). Embora cada uma das 12 obras expostas (na imagem Untitled #6) possua uma identidade própria, a utilização dos ecrãs como suporte cria uma sensação de continuidade de imagem que remete necessariamente para um mundo de fantasia onde se cruza o cinema de animação com as sensações visuais que Ana Jotta cria a partir da observação do seu quotidiano diário. Outros destaques da semana: o MAC/CCB apresenta até 15 de Setembro o projecto “Evidence”, que junta o trabalho sonoro dos Soundwalk Collective com desenhos e obras de Patti Smith. Na galeria Francisco Fino (Rua Capitão Leitão 76), até 20 de Abril uma nova exposição de esculturas de Pedro Paiva,  “Em Frente da Porta, do Lado de Fora”. Na Casa da Cerca, em Almada, Isabel Cordovil apresenta até 16 de Junho a exposição “A vaidade praga-me”. Em Coimbra, na Galeria Sete (Avenida Elísio Moura 53), Rui Matos apresenta as suas esculturas até 4 de Maio. No Clube Fenianos Portuenses,  em colaboração com a associação CC11, são apresentadas 19 exposições de fotografia e uma exposição de cartoons em parceria com a Casa da Imprensa.

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MANUAL DE POLÍTICA  - Francisco Lucas Pires morreu aos 53 anos, em 1988, e a sua acção marcou a política portuguesa, nomeadamente na fundação do CDS, na definição das ideias de uma direita liberal, na constituição da primeira Aliança Democrática e no Ministério da Cultura e Coordenação Científica, onde esteve entre 1982 e 1983, num Governo presidido por Francisco Pinto Balsemão. Europeísta convicto era deputado europeu, eleito pelo PSD, quando morreu. Finalmente chega agora uma biografia de Francisco Lucas Pires, num tempo em que felizmente se escrevem muitas biografias em Portugal. Mas esta, “O Príncipe da Democracia”, escrita por Nuno Gonçalo Poças numa investigação de dois anos e meio, além de falar de Lucas Pires e da sua obra, permite perceber melhor tudo o que se passou no campo da direita em Portugal,  na primeira década e meia depois do 25 de Abril em que ainda viveu. Nestes tempos conturbados que estamos a passar, este é um livro que contribui para conhecer melhor a história recente do país. O autor sublinha que Lucas Pires esteve à frente do  seu tempo, recorda o programa para uma sociedade aberta que elaborou enquanto presidiu ao CDS e posteriormente, depois de se desfiliar do partido que ajudou a fundar e de ter aderido ao PSD, o seu papel no Parlamento Europeu e nomeadamente na ligação do PSD ao Partido Popular Europeu,  que defendeu, promoveu e concretizou. A biografia está dividida em quatro partes e a primeira vai dos seus anos de juventude e formação em Coimbra e posteriormente a sua aproximação às ideias liberais quando estudou na Alemanha. A segunda parte vai de 1974 a 1983 e relata o seu papel na elaboração da Constituição e na formação da AD e o seu trabalho enquanto Ministro da Cultura. E a terceira parte relata os últimos anos, a forma como exerceu a presidência do CDS e o seu papel na moção de censura que fez cair o governo do bloco central e desencadear as eleições de onde saíu o primeiro governo de Cavaco Silva. Finalmente a quarta parte é focada no papel que Lucas Pires teve no processo de adesão à então CEE e a sua actividade enquanto deputado europeu. Nuno Gonçalo Poças sublinha que todo o percurso de Francisco Lucas Pires é atravessado por essa ideia de que “a luta política nasce da lealdade de reconhecer nos outros a mesma capacidade que se reconhece em nós”, e de isso estar no centro da sua ideia liberal. Edição D. Quixote.

 

DIXIT - “Existe uma bizarra tolerância em Portugal para com as pessoas que cometem as maiores vilezas nos bastidores desde que mantenham as boas maneiras nos salões…A não eleição de Santos Silva é uma grande vitória da democracia . E um justo adeus com 13 anos de atraso“ - João Miguel Tavares.

 

BACK TO BASICS -  “Sim, há esquerda e direita. Só que nem uma nem outra têm o monopólio da verdade, da honradez e da liberdade “- António Barreto


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS

 

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