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DESDE QUANDO A CULTURA É LUXO?  - Na semana passada o Parlamento aprovou a descida do IVA das obras de arte, dos 23% que o Governo de Montenegro tinha fixado em Março passado, para 6%, à semelhança de vários países europeus como a França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e Bélgica. Noutra votação o Parlamento também aprovou a possibilidade da dedução do IVA cobrado em espectáculos, livros e museus. Estas duas alterações, que beneficiam o sector da cultura e os seus agentes, foram aprovadas sem o voto do PSD e CDS e com o voto a favor de todos os outros partidos. No debate parlamentar sobre a redução do IVA da venda de obras de arte para 6% o líder da bancada do PSD e seu secretário-geral, Hugo Soares,  afirmou que “o IVA que os deputados desceram foi o IVA das obras de arte de luxo que são vendidas nas galerias”. “Tenham decoro”, disse Hugo Soares, criticando os deputados que votaram a favor da descida, o que mereceu um abanar de cabeça de concordância de Luís Montenegro. A anterior Ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, tinha-se pronunciado publicamente contra o aumento do IVA das obras de arte quando ele foi anunciado há uns meses e defendeu a sua descida. Não foi reconduzida depois das eleições e foi substituída por Margarida Balseiro Lopes que, antes do debate sobre o OE no Parlamento, quando interrogada sobre a proposta de descida do IVA das obras de arte, afirmou que essa redução “faz naturalmente sentido”. Não se lhe conhecem declarações após a intervenção de Hugo Soares, mas é evidente que a opinião da Ministra que tutela o sector não foi tida em conta pelo PSD e CDS, os dois partidos do Governo. Margarida Balseiro Lopes, que tem andado num frenesim de entrevistas e declarações nas últimas semanas, arrisca-se a ficar conhecida como a Ministra da Cultura que fala muito mas que não tem peso político nem influência no Governo. A política cultural não se faz de declarações, mas sim de actos. O sentido do voto assumido pelo Governo e as palavras de Hugo Soares contra o trabalho dos artistas e as galerias de arte, oculta que é nessas galerias que os jovens artistas têm frequentemente a primeira oportunidade para mostrar e vender o seu trabalho. Os artistas necessitam da actividade das galerias, não só no país, como nas feiras internacionais onde os galeristas levam as suas obras, contribuindo assim para a afirmação da cultura portuguesa no estrangeiro, coisa que o Estado faz muito pouco. Os mais cínicos, raça abundante entre governantes e políticos de várias origens, dirão que essas questões da Cultura são um problema menor e agem em conformidade. É o país que temos, a Ministra que temos, o Primeiro-Ministro que temos. Comparar a produção cultural a produtos de luxo é um triste exemplo de demagogia e uma triste constatação da forma como o PSD de hoje vê a Cultura.


SEMANADA -A PSP detetou, em média, ao longo dos primeiros 10 meses do ano,  26 condutores por dia  a conduzir veículos com excesso de álcool no sangue; em Portugal é registado um acidente a cada quatro minutos, 16 por hora, 396 por dia. As estatísticas indicam que os acidentes rodoviários continuam a ser a principal causa de mortalidade de crianças e jovens entre os cinco e os 29 anos em Portugal;  entre 1 de janeiro e 13 de novembro ocorreram 125.621 acidentes rodoviários, mais 3.730 do que em igual período do ano anterior e morreram 379 pessoas, registaram-se 2.451 feridos graves e 39.316 feridos ligeiros; uma em cada seis famílias vive em casa sobrelotadas, o que corresponde a 1,2 milhões de pessoas; entre 2020 e 2024 os portugueses consumiram uma média diária de 4079 calorias, o dobro do que é recomendado para um adulto; desde o início do ano, Portugal perdeu 37 ecrãs de cinema e está em vias de ver extinguirem-se mais nove, num total de 46; segundo  o estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais”, da Marktest, 56% dos utilizadores de redes sociais seguem figuras públicas através destas plataformas e o Instagram é a rede mais utilizada para esse efeito; segundo os dados da Associação Portuguesa de Bancos em 2024, existiam em Portugal um total de 3283 dependências bancárias de 23 instituições e um quarto destes estabelecimentos está concentrado em apenas 10 concelhos do país, os mesmos em que estão concentrados 43.5% do valor do IMT ; em 2024, 38% dos portugueses tinham mais de 55 anos, e as projeções apontam para 46% em 2050, ou seja quase metade da população.

 

O ARCO DA VELHA - Portugal é atualmente o 2.º país mais envelhecido da UE, apenas atrás da Itália, e por cada 10 trabalhadores que saem para a reforma, entram apenas 7 jovens no mercado de trabalho.

 

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PELA ESTRADA FORA - Lumina é o nome de uma nova galeria dedicada à fotografia, que abriu em Lisboa na semana passada. O seu impulsionador é o fotojornalista e curador Bruno Portela que pretende neste espaço dar proeminência à fotografia documental, quer de autores portugueses quer estrangeiros. O objectivo é apresentar seis exposições por ano, uma delas de um autor estrangeiro. A exposição inaugural é de um trabalho feito por Luís Vasconcelos ao longo da histórica Route 66, a estrada que atravessa os Estados Unidos de uma ponta à outra. Em 1995, inspirado em “On the Road” de Jack Kerouac, e embalado pela banda sonora de “Bagdad Café”, Luís Vasconcelos partiu de Chicago ao volante de um Pontiac Catalina, acompanhado por três amigos. Na Lumen estão duas dezenas de fotografias dessa viagem, que tem um texto de apresentação onde o jornalista Ferreira Fernandes sublinha que a Route 66, que completa 100 anos em 2026, é “uma tabuleta que atravessa em diagonal os Estados Unidos, 4 mil quilómetros, a América inteira condensada, uma solidão para ser caçada em instantâneos”. Logo na sala de entrada da galeria há uma parede que Bruno Portela entregou a Rute Reimão para ali mostrar obras visuais que de alguma forma se relacionem com as fotografias expostas. Nesta primeira exposição está um triptíco de António Faria intitulado “Road To Nowhere”. Do acervo da Lumina fazem parte trabalhos de vários fotojornalistas e a próxima exposição, prevista para Fevereiro, mostrará trabalhos de Inês Gonsalves e Ana Paganini. A Lumina fica na Rua Actor Vale 53 A, junto à Fonte Luminosa, pode ser visitada de quarta a sábado entre as 15 e as 19 horas.

 

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ROTEIRO - Where Is Onde” é a nova exposição da Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, com curadoria de Alexandre Melo e obras de João Pedro Vale+Nuno Alexandre Ferreira (na imagem), Julião Sarmento, Yonamine, Lawrence Wiener, Jack Goldstein, Robert Barry, Juan Araujo, Vera Luther, Rirkrit Tiravanija, Tomory Dodge e Fischli & Weiss. A exposição decorre até 17 de Janeiro. Até 13 de Dezembro ainda pode ver na Sociedade Nacional de Belas Artes os 30 trabalhos finalistas do prémio Sovereign Art Foundation que foi ganho por Edgar Martins. Entre os outros finalistas estão nomes como Ana Malta, Inês Raposo, Vera Midões, Mário Macilau, João Pina ou Daniela Kritsch. Na Galeria Sá da Costa decorre até 4 de Janeiro a exposição colectiva “nonchalant” com obras de Ana Paganini, Carlota Mantero, Inês Cannas, Nazaré Tojal ou Susana Paiva, entre outros. A Galeria das Salgadeiras (Avenida Estados Unidos da América 53D) apresenta a primeira exposição individual de Rita Magalhães, “Festina Lente”. E na Galeria  3+1 (Largo Hintze Ribeiro 2) pode ver até 17 de Janeiro novos trabalhos de Tito Mouraz sob o título Selva Oscura.

 

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O POEMA DESAPARECIDO - “O Que Podemos Saber”, o novo romance de Ian McEwan, começa em 2119, depois da Inundação, a catástrofe que submergiu grande parte do hemisfério norte depois de uma ogiva nuclear russa ter explodido acidentalmente a meio do Atlântico, causando um tsunami que, em conjugação com o aumento do nível do mar, deixou apenas a salvo as partes mais altas das montanhas de vários países. O cenário do início do livro mostra como o século 21 terminou da forma que todos tememos que aconteça, a Europa reduzida a um arquipélago onde os topos das montanhas são as ilhas habitáveis, com os Estados Unidos em guerra civil entre vários senhores da guerra que se defrontam. Nesse tempo a Nigéria tornou-se a potência dominante, que aloja digitalmente todo o conhecimento da humanidade. Há falta de alimentos, a internet tem condicionamentos, as viagens são difíceis e perigosas. A primeira parte do livro é narrada por Tom Metcalfe, que ensina literatura numa das universidades sobreviventes e que procura um poema desaparecido, de que só existirá uma cópia, manuscrita, da autoria de Francis Blundy. Escrito no nosso tempo actual, o poema foi uma prenda  para a sua mulher e chama-se “Uma Coroa para Vivien”. Foi lido uma única vez pelo autor em público, no jantar de aniversário de Vivien, perante uma plateia de familiares e amigos próximos. Desde essa altura nada se sabe sobre o poema mas vários dos presentes no jantar descreveram “Uma Coroa para Vivien” como uma obra prima, o melhor trabalho de sempre de Blundy. Metcalfe e a sua mulher percorrem os arquivos de Blundy e Vivien, em busca desse texto lendário, sem sucesso, no meio de numerosas peripécias, até pessoais. Este romance cruza duas épocas onde, no meio de todas as diferenças, a literatura coexiste com as paixões, com amores cruzados e até um crime. Ian McEwan escreveu um livro que é sobre a natureza da literatura, com reflexões  sobre política, filosofia e a natureza das relações entre pessoas, em torno de um mistério que cresce numa teia de intriga e cria no leitor a vontade de saber o que aconteceu ao poema e como as personagens se cruzaram. A segunda parte do livro é onde tudo se revela e não vou contar o que aconteceu. Apenas digo que este é um romance extraordinário, muito actual nos tempos que correm, que o New York Times considerou uma das melhores obras de McEwan. Edição Gradiva.

 

ALMANAQUE - Reabriu ao público o Museu Abade de Baçal, em Bragança,com uma exposição temporária do Museu Nacional de Arte Antiga intitulada "Olhar Portugal" que apresenta pintura, escultura, têxteis e ourivesaria dos séculos XII a XIX. O Museu apresenta também obras de artistas como Silva Porto e Teixeira Lopes e oito pinturas do Museu Nacional Soares dos Reis.

 

DIXIT - “Um dos problemas mais graves das democracias actuais é a ausência de líderes com sentido de missão” - José Roquete, no Expresso.

 

BACK TO BASICS -  Quando a compra e a venda são controladas por legislação, a primeira coisa a ser comprada e vendida são os próprios legisladores - P. J. O’Rourke

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS.






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