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ÁRBITRO OU CÚMPLICE? - No arranque do novo ano tornou-se evidente como existem dois países bem diferentes na mente dos dirigentes nacionais. A fechar 2025 Luís Montenegro escolheu como exemplo para Portugal os resultados alcançados por Cristiano Ronaldo e justificou-se assim: “É a escolha entre continuar a fazer o suficiente ou ambicionar atingir o excelente. É a escolha entre jogar para não descer de divisão ou jogar para entrar e ficar na Liga dos Campeões. Por isso falo da mentalidade positiva e construtiva de quem ‘entra em campo para ganhar e não para empatar’. Por isso falo da mentalidade ‘Cristiano Ronaldo'”. Claro que Montenegro diz isto apesar de os piores exemplos de falta de resultados virem do seu Governo, que deixou degradar-se a situação na saúde, na justiça, na habitação e criou o caos nas chegadas ao aeroporto de Lisboa, e na paralisação de mais de 2000 contentores no Porto de Leixões. Mas há outro Portugal, e Marcelo Rebelo de Sousa deu resposta pronta a Montenegro, contrapondo Eça de Queiroz a Ronaldo. Evocando "A Ilustre Casa de Ramires", Marcelo descreveu um país cheio de especialistas em fogachos que acabam em fumo, desleixo, trapalhadas nos negócios, “sempre alimentado pela esperança num milagre salvador”. No topo do poder estão duas visões diferentes, uma feita de promessas sem rumo certo e outra de compreensão da realidade - e é salutar que estas diferenças existam. É precisamente por isso que, no horizonte das próximas presidenciais, fiquei a pensar que o melhor seria não colocar os ovos todos no mesmo cesto, ou seja, deixar Luís Montenegro a cozinhar uma omelete a meias com Marques Mendes. O desenrolar desta campanha mostra como Marques Mendes está capturado pelo actual PSD, com a sua campanha marcada por aparições de Luís Montenegro, de ministros, deputados e notáveis, todos a marcar presença como se as presidenciais fossem um referendo ao Governo. É bom recordar que Luís Montenegro é Primeiro Ministro desde 2 de Abril de 2024 - o que, em termos práticos, quer dizer que quando houver novo Presidente da República o actual Primeiro Ministro estará no poder há quase dois anos, meia legislatura na prática fez pouco além de comprar votos, fazer promessas e armar-se em orador motivacional. A campanha começou agora, até ao lavar dos cestos é vindima, mas seria bom que os eleitores pensassem se querem votar num referendo ao Governo ou na eleição de um Presidente da República que seja árbitro e não cúmplice.
SEMANADA - O número de bombeiros feridos no combate a fogos aumentou de 212 em 2024 para 281 em 2025; o Relatório Anual de Segurança Interna, relativo a 2024, indica que cerca de 24 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica, o que dá uma média de um crime a cada 22 minutos; em Portugal registaram-se pelo menos 108 homicídios em 2025, o valor mais elevado desde 2018; 72% das freguesias portuguesas não têm balcão bancário nem multibanco; o valor médio das casas em Portugal subiu 27% desde o primeiro pacote de medidas do Governo sobre habitação, em maio de 2024; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que cerca de 1,7 milhões de pessoas continuam a viver em pobreza; entre elas estão mais de 300 mil crianças, tendo-se registado um agravamento da pobreza nas famílias com crianças dependentes, sobretudo nas famílias monoparentais; segundo o Observatório Fiscal da União Europeia Portugal está entre os países que percentualmente têm mais riqueza colocada em offshores, cerca de 115,8 mil milhões de euros, o que corresponde a 40% do PIB português; a mensagem de Natal deste ano de Luís Montenegro foi a segunda mensagem de um Primeiro Ministro menos vista dos últimos cinco anos, sendo superada apenas pela de António Costa em 2022, enquanto a Mensagem de Ano Novo de Marcelo Rebelo de Sousa foi vista por mais de 2,7 milhões de espectadores; A Câmara do Funchal recolheu 14 toneladas de lixo após os festejos da passagem do ano.
O ARCO DA VELHA - Em 2025 os autocarros da Carris bateram novo recorde de lentidão, tendo feito uma média de 13,66 km/hora.

MARCAS EXPOSTAS - Sugiro que visitem na internet o novo Museu das Marcas, Artes Gráficas e Publicidade, que está ligado ao Museu do Caramulo e que inclui uma extensa colecção de cartazes publicitários, anúncios de imprensa, embalagens e até papel de embrulho. Constituído a partir de várias colecções particulares relevantes nesta área, algumas de pessoas ligadas à publicidade, da própria colecção do Museu do Caramulo e do acervo da Litografia Portugal, entre outras, o Museu das Marcas, dinamizado por uma equipa dirigida por Salvador Patrício Gouveia, tem “tem como objectivo preservar e divulgar a história das marcas, produtos e campanhas aos quais os consumidores portugueses estiveram expostos e que nos definem como sociedade” e funciona “como uma viagem no tempo que ajuda os mais jovens a compreender as gerações anteriores e o seu estilo de vida”. Desde prospectos e panfletos até rótulos e embalagens, suportes de publicidade interior em lojas ou anúncios de imprensa, o Museu tem também rótulos de hotel que eram colocados em malas de viagem e cadernetas de cromos publicitários. O site tem rubricas como um rol das marcas representadas, informações sobre a colecção, algumas exposições virtuais (como sobre a publicidade alimentar em tempo de guerra ou cartazes de prevenção de acidentes de trabalho), artigos sobre aspectos da colecção e uma secção de vídeo que apresenta spots de publicidade de várias épocas. O museu pode ser visitado em museudasmarcas.pt

ROTEIRO - Uma selecção de edições de peças em serigrafia, cerâmica, azulejo ou escultura de Alexandre Farto/Vhils (na imagem) está patente no MUDE- Museu do Design (Rua Augusta 24) até 1 de Março. “Alexandre Farto Aka Vhils - Selected Editions. 2008-2024” mostra o trabalho do artista nesta área, algumas vezes em colaboração com outros artistas, noutras em parceria com marcas, como é o caso das louças Bordallo. A exposição mostra a exploração de diferentes materiais e técnicas que Vhils tem utilizado (na imagem). Ainda no Mude pode também ser vista até 26 de Abril a exposição “Meu Nome António”, um conjunto de fotografias que acompanham a carreira de António Variações, feitas por Teresa Couto Pinto, que foi sua agente e amiga. Esta é também uma boa altura para visitar o Museu da Cidade de Lisboa, instalado ao fundo do Campo Grande, no Palácio Pimenta. Este Museu foi um dos nomeados pelo European Museum Forum para os EMYA Awards de 2025 e o resultado será conhecido em 2026. Esta nomeação acontece depois do processo de renovação do núcleo-sede do Museu de Lisboa no Palácio Pimenta, que culminou na sua reabertura com novos percursos expositivos e num rebranding que reposicionou o Museu de Lisboa. No MAAT pode ainda ver além da exposição permanente e da exposição de obras da colecção de Arte Fundação EDP, as esculturas de luz de Cerith Wyn Evans, “Formas no Espaço” e as pinturas que traçam uma retrospectiva de Pedro Casqueiro em “Detour”.

FOTOGRAFIA NÃO ENCENADA - Entre 27 de Janeiro e 5 de Maio de 2024 cerca de 40.000 pessoas visitaram a exposição “Factum”, que apresentou, nos dois andares do Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, 170 fotografias de Eduardo Gageiro, feitas ao longo de toda a sua carreira de fotojornalista. O catálogo da exposição, que reproduz todas as fotografias expostas, devidamente identificadas com legendas, é uma peça fundamental para testemunhar a importância da obra de Gageiro, que morreu a 4 de Junho de 2025, aos 90 anos. Durante o período em que a exposição esteve patente Gageiro estava muitas vezes presente na Cordoaria Nacional, falando com os visitantes, respondendo às suas perguntas e contando numerosas histórias da sua vida como fotojornalista. Ele próprio participou activamente na selecção das imagens a expôr, ao lado de Sara Matos e Pedro Faro, que comissariaram a exposição. O catálogo agora editado inclui “Isto Não É Encenado”, um notável texto do jornalista Sérgio B. Gomes, que tem estudado a obra de Gageiro, no qual afirma: “Encenar é dispor as coisas com o objectivo de iludir, fazer passes de mágica para enganar. Eduardo Gageiro tem estruturado a sua fotografia com o desafiante desígnio de que através dela pode contribuir para nos desenganar, para nos esclarecer”. O catálogo, editado pelas Galerias Municipais, tem design de Pedro Falcão, está excelentemente impresso e tem 270 páginas. Está à venda nas várias Galerias Municipais e também na livraria Lisboa Cultura, no Rossio.

MESA DE CABECEIRA - Esta semana escolho duas revistas. Destaco a edição inaugural de “Primitiva”, uma ousada iniciativa de Luís Octávio Costa que é simultaneamente uma aposta na relevância do papel enquanto suporte de comunicação e na convicção de que a fotografia é parte fundamental da memória dos sítios que visitamos. Esta primeira edição mostra-nos imagens de vários pontos do mundo, relatos de quem foi conhecer, descobrir, fotografar, do distante Iraque à ilha Terceira nos Açores, entre paisagens e pessoas. Se a fotografia é o assunto da revista, existem também artigos sobre pessoas, como Rosa Pomar ou Duarte Belo, por exemplo. Esta é a mais surpreendente e estimulante revista portuguesa dos últimos tempos, visitem o seu site primitivamag.com. A outra revista é a edição anual da “Egoísta”, dirigida por Patrícia Reis, desta vez dedicada ao bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco. Destaque para as pinturas inéditas de Ana Vidigal que dominam visualmente esta edição da “Egoísta”, logo a começar na capa, e também para o texto de Nuno Nunes Ferreira que apresenta a sua colecção de capas das diversas edições de “Amor de Perdição”.
ALMANAQUE - No local onde existiu uma fábrica de Pneus da Pirelli, e que agora é um grande centro de arte o Hangar Bicocca, em Milão, é apresentada até 2 de Fevereiro a maior exposição de sempre da artista visual norte-americana Nan Goldin com o título “Thie Will Not End Well”. A exposição apresenta diaporamas, filmes e fotografias de trabalhos como The Ballad of Sexual Dependency (1981-2022) , The Other Side (1992-2021) ou Sirens (2019-2020). São também apresentadas obras recentes e um conjunto de seis filmes é projectado, cada um numa sala diferente e em simultâneo.
DIXIT - “É um insulto aos portugueses atirar-nos como modelo motivacional da psicologia barata o Ronaldo. Estamos ao nível do Big Brother”- José Pacheco Pereira, no Público.
BACK TO BASICS - “Não há nada mais assustador do que observar a ignorância em acção” - Johann Goethe
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
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