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UM PAÍS EM PONTO MORTO

por falcao, em 22.07.22

 

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ESTADO OU GOVERNO? -  Nesta semana os deputados cumpriram o ritual do debate do Estado da Nação. Em geral a coisa resume-se a isto: quem Governa diz que está tudo bem e que mesmo as falhas eventuais serão corrigidas; e quem se opõe diz que o Governo não governa. O maior problema é termos um Estado que é desprezado pelo Governo. Explico melhor: a quem é governo interessa ter poder e perpetuar esse poder o máximo de tempo que puder. Portanto não governa para resolver problemas estruturais, que podem sempre implicar decisões desagradáveis para o eleitorado, e em vez disso decide de forma a poder manter, e se possível ganhar, votos nas eleições seguintes. Assim governa-se para manter o poder e não para melhorar o Estado. Creio aliás ser essa a razão pela qual o PS tem negligenciado a capacidade reformista que a maioria absoluta em teoria lhe dá. Um exemplo: o Primeiro Ministro queixa-se da falta de cadastro das propriedades rurais que dificulta a gestão florestal. Mas depois não toma medidas para que o cadastro seja mais fácil. Esta semana, por causa dos incêndios, muitas pessoas vieram relatar o calvário - e a despesa - que é conseguir actualizar os registos. O problema não é das pessoas, é do Governo que não coloca o Estado a funcionar para servir os cidadãos. Proliferam organismos redundantes, taxas e taxinhas que desmoralizam qualquer um. Enquanto isso, no Parlamento discute-se o acessório e esquece-se o essencial, que faria a diferença: as mudanças e reformas que é necessário introduzir. Sem isso o país não vai sair da cepa torta.

 

SEMANADA- Duas sondagens conhecidas nos últimos dias indicam que, se houvesse hoje eleições o PS perderia maioria absoluta, meio ano depois de a ter alcançado; um estudo divulgado esta semana indica que a maioria dos portugueses já deseja uma remodelação governamental e que 63% considera que o estado do país está pior que há um ano; nos primeiros seis meses do ano os portugueses gastaram mais 220 milhões de euros em supermercados que em igual período de 2021; a inflação fez com que a receita fiscal do Estado em Maio já estivesse a aumentar 21%, quando o OE previa 6,7%; também até Maio a receita do IVA aumentou 25% quando a previsão era de 10,7%; e a receita do Imposto sobre Produtos Petrolíferos aumentou 12% em vez dos previstos 1,6%; o Ministro da Economia, António Costa e Silva, defende que o aumento do salário médio tem de ser acompanhado por baixa de impostos e avisou que não se pode “exigir às empresas aquilo que elas não podem pagar”; no mais recente concurso do Ministério da Saúde um terço das vagas para médicos de família ficou por ocupar; um estudo conhecido esta semana indica que a geração Z e os millennials portugueses sentem-se financeiramente ansiosos e que o custo de vida e o desemprego estão entre as suas principais preocupações; a área ardida este ano em Portugal, até à semana passada, já supera os valores totais de 2021, totalizando quase 40 mil hectares, a maior área ardida desde 2017.

 

O ARCO DA VELHA -  O Estado atribuíu a si próprio dois terços do dinheiro da bazuca do PRR e já auto-aprovou 50% dessas verbas, enquanto que o mesmo Estado aprovou menos de 6% do total das verbas destinadas às empresas privadas.

 

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UMA VIAGEM NO TEMPO - “Debaixo da Pele” é o título da exposição de Miguel Telles da Gama no Museu Berardo, uma viagem pela carreira do artista, que expôs pela primeira vez em 1990. A primeira obra desta exposição é datada de 1997 e na montagem não é seguida nenhuma ordem cronológica. Logo no início está “Azul Profundo”, de 2014,  e depois  os “70 ex-votos por uma vida sexualmente animada”, de 2021. A seguir está “Vanishing Act” de 2016, as armaduras de “Lux in Tenebris” de 2018, as imagens gráficas de  2003 e 2004, de novo a pintura de “Emotional Rescue” de 2007, para daí seguir com os Contos de Perrault, barrados a vermelho, em “Passing Through the Red”, de 2013, e, depois,  um teatro de personagens à procura de autor em “Encenações”, realizada entre 1999 e 2003. José Luís Porfírio, o curador da exposição, sublinha que esta é “uma antologia do trabalho do pintor que não pretende ser um resumo integral do seu percurso, mas antes apresentar-se como uma obra nova, construída a partir de um conjunto de fragmentos da sua obra anterior”. “Debaixo da Pele” fica no Museu Berardo até 6 de Novembro. Em Coimbra destaque para “Tale About Urban Piracy”, uma exposição que agrupa obras de 14 artistas representados na colecção da Fundação PLMJ. Integrada no 13º Festival das Artes QuebraJazz, a exposição, com curadoria de João Silvério, tem trabalhos de  Ana Janeiro, Adriana Molder, Carlos Guarita, Ilda David, Inês Botelho, Isabel Carvalho, João Pedro Vale, João Tabarra, Manuel João Vieira, Mauro Pinto, Pedro Calhau, Rosana Ricalde, Rui Chafes e Sara Bichão. Está no Museu Nacional de Coimbra, Edifício Chiado. Até 4 de Setembro.

 

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PARA ESTIMULAR O PENSAMENTO  - Ora aqui está um livro actual, um romance sobre uma mulher que desafiava convenções, era politicamente incorrecta, detestava preconceitos, falsos moralismos e ideias feitas. Esta é a história imaginada por Julian Barnes de Elizabeth Finch, uma professora que dava aulas de  Cultura e Civilização, contada por um aluno que com ela foi falando ao longo da vida. O aluno, Neil, descreve como ela se vestia, e os seus hábitos e sublinha que a professora atraia a atenção através da quietude e da voz. Era um tempo anterior aos computadores portáteis nas salas de aula e cedo Elizabeth Finch disse aos seus alunos: “não me peçam para vos ajudar, estou aqui para vos estimular a que, sozinhos, penseis, argumenteis e desenvolvais as vossas mentes”. O livro percorre a história do pensamento humano e as ideias de Finch evocam filosofias do passado e exploram acontecimentos que se reflectem no nosso presente. Por trás de tudo,  está a história de Juliano, o Apóstata, último imperador pagão de Roma, uma alma gémea da professora,  que desafiou o pensamento monoteísta institucional, que sempre ameaçou dividir a humanidade. "Monoteísmo, monomania, monogamia. monotonia - nada de bom começa assim” - diz ela aos seus alunos. Ao longo de quarenta anos Finch encontra-se regularmente com Neil, com quem tem longas conversas. Quando morre é a ele que deixa os seus papéis, os seus cadernos de notas, a sua biblioteca. Os cadernos onde registava o que lhe ía na cabeça, eram  escritos a lápis “porque todo o pensamento é provisório e pode ser apagado à borracha”. Neil estuda-os, fica ainda mais fascinado e acaba por decidir escrever a biografia de Elizabeth Finch. Este novo livro de Julian Barnes encaixa  como uma luva nos tempos que correm, tão dados à intolerância. Muito boa  tradução, de Salvato Teles de Menezes, edição da Quetzal.

 

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JAZZ AVENTUREIRO - Gard Nilssen é um baterista norueguês dado a aventuras invulgares. Em 2020 fez um disco intitulado “If You Listen Carefully The Music Is Yours” com uma formação de três bateristas e três baixistas. Nilssen tem uma actividade considerável, com participações em mais de 70 discos desde 2007, alguns com orquestras, outros com pequenas formações, nomeadamente trios. O seu novo disco é baseado num trio: Nilssen na bateria, Andre Roligheten no saxofone e clarinete e Petter Eldh no baixo, a Acoustic Unity. “Elastic Waves”, o novo disco, é de facto o quarto registo deste grupo e é uma estreia na editora ECM.  Os três músicos trabalharam em conjunto não só em estúdio, mas também na composição dos 11 temas. Há evocações de melodias tradicionais norueguesas, há improvisação, há baladas, há sons vibrantes com o saxofone tenor a assumir protagonismo como no tema “The Other Village”, há uma permanente marcação rítmica, por vezes a puxar mesmo para movimentos de dança. Os temas são curtos - os 11 em conjunto andam pelos 45 minutos, o que facilita a ideia de uma sucessão de composições que se encadeiam umas nas outras. Disponível nas plataformas de streaming.

 

ESPLANADA MEXICANA - Uma ida ao cinema foi o pretexto para ir ao andar Gourmet do El Corte Ingles de Lisboa e, percorrendo o local, escolher um sítio que parecesse simpático. A escolha recaíu na Barra Cascabel, que faz parte do grupo de restaurantes orientados por José Avillez. Na realidade esta é uma parceria entre Avillez e Roberto Ruiz o chef que se tornou notado com o restaurante Punto Mx, em Madrid.  A Barra  Cascabel dedica-se à cozinha mexicana e pode-se escolher entre petiscos ou pratos mais sérios, conforme o apetite. Como aperitivo para o cinema a opção foi petiscar. Assim tudo começou com um guacamole da casa, temperado a sementes de abóbora e pickles de jalapeno, com as necessárias tiras de milho, bem frescas e estaladiças. Seguiu-se uma Tostada de Bonito, em que um molho de hortelã e pepino temperava uma salada de milho e o próprio atum. Para rematar, uns tacos Tampiquña traziam carne de vaca aos pedaços, cozinhada com bom tempero, pedaços de abacate e pico de gallo (uma mistura de tomate, cebola, coentros e limão). A acompanhar cerveja mexicana - uma Corona e uma Atlantica - esta última é mais gastronómica e acompanha melhor a comida. Mas quem quiser tem uma boa lista de cocktails, mezcal e tequilas. Quem desejar coisas menos leves tem pratos cozinhados de galinha, porco e vaca, todos na brasa, todos receitas tradicionais.

 

DIXIT - “Portugal é hoje o país europeu onde o Estado mais se demitiu da presença real no mundo rural, liquidando velhas instituições de vigilância e salvaguarda das florestas” - Viriato Soromenho Marques 


BACK TO BASICS - “Os erros são a porta de entrada para fazer descobertas” - James Joyce

 

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