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UM PAÍS ENTREGUE AOS BICHOS

por falcao, em 14.11.25

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A POLÉMICA DOS ELEFANTES NO ALENTEJO - Na semana passada surgiu a notícia de que numa herdade alentejana, nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, vai ser criado, em cerca de 400 hectares de montado, um espaço que  se intitula como “o maior refúgio” de elefantes reformados da Europa, estando previsto que venha a acolher 24 paquidermes vindos de circos e zoos de vários países europeus, já a partir de 2026. A iniciativa é de uma organização criada no Reino Unido, Pangea. Na cerimónia de apresentação foi anunciado o apoio das Câmaras Municipais de Vila Viçosa e Alandroal, assim como da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária e do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. A escritora António Ruivo entrou no debate sobre esta iniciativa e partilhou alguns dados que dão que pensar. Antónia Ruivo sublinha que o  montado é um ecossistema produtivo e frágil e os elefantes adultos, cada um com um peso da ordem das quatro toneladas, comprimem o solo, quando os animais repetirem o mesmo trilho todos os dias. “O solo comprimido no Alentejo é solo que não embebe a água, e solo que não embebe será a sentença de morte para o sobreiro. A perda de renascimento natural será uma ferida ecológica que perdurará por décadas.”, afirma Antónia Ruivo. E mais:  “a isto acrescentamos o embate direto sobre a fauna e a flora locais já que o trânsito constante de megafauna altera corredores ecológicos, destrói sub-bosques essenciais à reabilitação, afugenta aves nidificantes e força espécies residentes a competir pela água em períodos de seca extrema” . Um elefante adulto bebe 150 a 200 litros de água por dia, podendo chegar aos 250 litros em alturas de grande calor, muito mais que as espécies animais habituais na região. Sublinha também: “A flora mediterrânica adaptada ao Montado não suporta pisoteio continuado. A fauna local não compete com elefantes em contexto de escassez. O resultado previsível é a perda gradual de biodiversidade e a aceleração dos processos de desertificação.” São também de Antónia Ruivo estas palavras: “É preciso que alguém o diga, sem medo de ser classificado como inimigo da fauna ou da piedade universal: o projeto do santuário de elefantes no Alentejo não é um acto de nobreza ética, é um monumento à impulsividade política e um risco”. Resta saber o que dizem de tudo isto as autoridades ambientais e agronómicas locais responsáveis pela defesa do montado.


SEMANADA - No sábado da semana passada o tempo médio de espera para doentes urgentes no Hospital Amadora-Sintra ultrapassou as dez horas e mais de 15 horas para doentes pouco urgentes; a 30 de junho deste ano  havia um milhão de pessoas à espera da primeira consulta de especialidade no SNS, mais 20% que um ano antes; milhão e meio de pessoas continuam sem médico de família; o Conselho de Finanças Públicas alertou que não foi dada fundamentação cabal para a redução projectada nas despesas com Saúde no Orçamento de Estado  para 2026; 60% dos alunos das quatro escolas de medicina dentária do país são estrangeiros; os cursos de português para obtenção de nacionalidade estão esgotados e há imigrantes que têm de fazer os exames noutros países; a dívida pública portuguesa está a aumentar há três trimestres seguidos; os partidos apresentaram 2176 propostas de alteração ao Orçamento de Estado, um novo recorde; em semana da Web Summit vale a pena recordar que em cinco anos, foram concedidas apenas 490 autorizações pelo regime especial criado para atrair imigrantes empreendedores e fundadores de startups.

 

O ARCO DA VELHA - A organização da Web Summit montou uma barraca debaixo da pala do Pavilhão de Portugal, um edifício desenhado por Siza Vieira e classificado como Monumento de Interesse Público. A barraca foi autorizada pela Câmara Municipal e pela Reitoria da Universidade de Lisboa, que gere o espaço.

 

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MESA DE CABECEIRA - “A Corte das Mulheres”, de André Canhoto Costa, relata a presença de influentes mulheres na corte portuguesa entre 1495 e 1578, período que abrange os reinados de D. Manuel I e D. Sebastião. Foram amantes de livros, apaixonadas pela improvisação poética, cantoras afeiçoadas aos bailes, exímias dançarinas, rodopiando em salas, tocando alaúde, improvisando versos, dando conselhos a ministros e embaixadores, argumentando diante dos doutores. Na Corte das Mulheres brilharam nomes como Joana Vaz, Públia Hortênsia de Castro, Luísa Sigeia, Paula Vicente ou Francisca de Aragão, entre outras. Edição Quetzal. “Construtoras de Impérios” é outro livro sobre a presença das mulheres na nossa História e mostra o seu protagonismo na construção do império colonial português.  Esta obra mostra que a expansão ultramarina portuguesa não foi uma mera história feita por homens, foi também obra de mulheres, portuguesas e autóctones, com papel activo na política, na economia e na sociedade - em Portugal e em espaços ultramarinos. O livro baseia-se na investigação de um grupo de autores, coordenados por Amélia Polónia. Edição Temas e Debates.

 

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PENSAMENTO - A Presses Universitaires de France (PUF) confiou a três prestigiados académicos franceses, Emmanuelle Hénin, Xavier-Laurent Salvador e Pierre Vermeren a coordenação de uma obra sobre os excessos do wokismo, no quadro de um debate intelectual consistente. Assim nasceu o livro  “Face ao Obscurantismo Woke”. Os três coordenadores convidaram mais de duas dezenas de cientistas, filósofos, historiadores, engenheiros, e médicos que se debruçaram sobre o mecanismo religioso e fanático que marca a pseudociência woke. Quando começaram a circular informações sobre o livro uma violenta campanha de imprensa acusou as PUF de estarem ao serviço da extrema direita e desta obra ser financiada por esse sector político. A edição chegou a estar suspensa até que se provou a seriedade e independência do trabalho, ultrapassando a censura e pressões políticas e intelectuais que pretendiam silenciar este livro - nada que surpreenda nos defensores do wokismo. Nascida nos departamentos de ciências humanas, a pseudociência militante woke  invade a medicina e as ciências exactas, pretendendo impor-se através da intimidação e rejeitando qualquer crítica. O livro mostra como o wokismo representa hoje um profundo recuo da racionalidade e do universalismo. Edição Guerra & Paz.

 

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PINTURA E IRONIA - Pedro Casqueiro é um pintor português contemporâneo com obra em algumas das mais importantes colecções institucionais e privadas e integrou um dos vários grupos informais de artistas que frequentaram a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa nos anos 80. São dele estas palavras numa entrevista ao jornal “Público”: “Durante muitos anos não houve pintores e em certas alturas a pintura foi esquecida. É um trabalho mais solitário e demorado e talvez muitos artistas não estejam à altura ou talvez estejam todos fartos de pintar”. Casqueiro não está farto, este ano mostrou novos trabalhos na Galeria Miguel Nabinho e agora, até dia 6 de Abril, o MAAT apresenta,no edifício da antiga Central eléctrica, uma exposição antológica , “Detour”,  com cerca de 80 obras que  percorrem o percurso artístico de Casqueiro entre 1985 e 2025, entre as quais este “Sweater”, de 2018 que aqui se reproduz. João Pinharanda, que comissaria a exposição, sublinha que os trabalhos expostos mostram a grande variedade da sua produção, o uso da cor, a figuração e não figuração e a utilização da palavra pintada. A obra de Casqueiro tem frequentemente uma inspiração arquitectónica, noutras utiliza formas geométricas, por vezes evoca a banda desenhada e algum imaginário da pop art, com uma presença de humor e ironia que são também uma das suas imagens de marca. 

 

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ROTEIRO - Na Galeria Fernando Santos, no Porto, inaugura dia 15 “Endscape”, uma exposição de fotografia de Luís Campos, de grande formato, a preto e branco, As fotografias antecipam um mundo depois do fim, paisagens sem humanos, sem animais, apenas com vestígios da natureza (na imagem). Restam rochas, desertos, árvores queimadas ou fossilizadas, glaciares em dissolução e vestígios da nossa passagem soterrados na areia, imagens de uma destruição que ameaça a nossa extinção enquanto espécie. A exposição fica até 11 de Janeiro, na Galeria Fernando Santos, Rua Miguel Bombarda 526, Porto. No Centro de Artes Villa Portela, em Leiria, está patente até 28 de Fevereiro uma nova exposição individual de João Paulo Feliciano, resultado da coleção da Fundação de Serralves. “Subir ao Palco/Back Home”, tem curadoria de Joana Valsassina, reúne obras de João Paulo Feliciano desde os anos 90 até 2025. E em Lisboa a Galeria Diferença mostra uma exposição de pintura de Bettina Vaz Guimarães com o título “Cartografia do Olhar” e outra de escultura, de Maria Ribeiro, “Argamassa”. A Diferença fica na Rua de S. Filipe Nery 42, ao Rato.

 

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UM DISCO A NÃO PERDER - Com “Lux”, o novo álbum da espanhola Rosalia, a cantora atinge um novo patamar graças a uma produção cuidada, ao leque de colaborações que conseguiu juntar e, sobretudo, ao seu trabalho de composição. As edições físicas do disco têm 18 temas, as digitais, em streaming, apenas 15. No disco colaboram nomes como, Bjork, a portuguesa Carminho, Estrella Morente, Sílvia Perez Cruz, Yahritza y su Esencia e também Yves Tumor. Composto ao longo de dois anos, as letras foram escritas por Rosalia em 14 idiomas diferentes - além do catalão e do castelhano que são as línguas nativas da cantora, há canções em  árabe, inglês, francês, alemão, italiano, hebraico, japonês, latim, mandarim, português, siciliano e ucraniano. Trabalho profundamente místico, em que Rosalia canta os seus amores e a sua relação com a religião, cada idioma foi escolhido para evocar a vida de uma santa distinta. Rosalia assegurou que todas as letras fossem revistas para não conterem erros e aprendeu a cantá-las nesses idiomas, com as pronúncias e técnicas vocais necessárias para cantar em cada língua. O tema interpretado por Rosalia e Carminho, “Memória”, conta com a participação do Coro de Cambra del Palau de la Musica Catalana e da Escolania de Montserrat.e à semelhança de todo o álbum foi gravado com a Orquestra Sinfónica de Londres, dirigida por Daniel Bjarnason. “Lux”, o quarto álbum de Rosalia, é o mais surpreendente dos seus trabalhos. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Os partidos populistas aparecem quando os partidos tradicionais deixam de fazer o que lhes compete na segurança, na imigração, na corrupção” - João Pereira Coutinho, no Correio da Manhã.

 

BACK TO BASICS -  “Competição não rima com arte” - Maria João Pires

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS





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