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UMA NOVELA INSPIRADORA

por falcao, em 12.08.22

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PÔR DO SOL-  O verão é uma estação muito curiosa: não sei se pelas temperaturas atingidas, se por qualquer outra razão, tomam-se decisões extraordinárias e assiste-se a transtornos que só podem nascer quando as meninges começam a fritar. Às vezes olho à volta do que se passa no país e penso que estou a ver um episódio da genial série da RTP “Pôr do Sol”,  que esta semana estreou nova temporada. Alguns factos da governação são tão absurdos que poderiam caber direitinhos nas fantasias da família Bourbon de Linhaça, o clã que está no epicentro da narrativa. Há momentos em que olho para António Costa a esquivar-se a dar respostas no Parlamento às perguntas da oposição e vejo-o a cantar sempre o mesmo refrão independentemente do tema em discussão, como se inspirado pelas aparições do músico e cantor Toy nessa série quando entoa, de várias formas, sempre as mesmas palavras, para criar momentos de distracção quando a narrativa quer mudar de rumo. Depois, olho para as personagens de “Pôr do Sol” e imagino qual assentaria que nem uma luva a Pedro Nuno Santos, quem calharia a Mariana Vieira da Silva, como Fernando Medina ficaria bem a tratar do cerejal, que é a fonte de riqueza dos Bourbon de Linhaça,  e imagino o musical Pedro Adão e Silva como vocalista emergente cantando para um Santos Silva embevecido. Enfim, são os meus devaneios proporcionados pela série de televisão que é um perfeito retrato do país. Se não conhecem revejam a primeira temporada na RTP Play ou na Netflix e sigam a segunda, que começou esta semana na RTP1.

 

SEMANADA - Em apenas quatro meses o PS inviabilizou cinco audições parlamentares a ministros; de entre os membros da OCDE Portugal é dos países onde as despesas com a saúde mais pesam no orçamento das famílias; desde o início da pandemia o número de investidores de fundos Plano Poupança Reforma subiu 38% para um total de 450 mil; o ex-ministro Manuel Pinho solicitou um aumento do raio de acção da pulseira electrónica para poder tratar da horta de subsistência na quinta onde reside em Braga; este ano já foram celebrados cerca de 105 mil contratos públicos, dos quais 60% foram por ajuste directo; de 1 de Janeiro a 31 de Julho foram registados 7517 incêndios rurais, que afectaram 58.354 hectares, área apenas ultrapassada em 2012; desde Outubro do ano passado choveu metade do que seria normal e, nos últimos anos, só em 2004 a situação de seca foi mais grave; desde 1980 a economia portuguesa perdeu 4% devido a eventos climáticos extremos, número que compara com a média da UE, que no mesmo período registou perdas de 3%; no primeiro semestre deste ano foram importados mais 51% de carros usados de outros países europeus que em, igual período do ano passado; a Porsche foi a marca desportiva com maior número de veículos importados, 481; os passageiros com mobilidade reduzida têm de avisar a CP com seis horas de antecedência se quiserem fazer uma viagem de comboio; a mortalidade materna atingiu em 2020 o valor mais alto dos últimos 38 anos; Ricardo Rodrigues, o deputado do PS que se tornou conhecido por ter roubado um gravador a um jornalista que o entrevistava e fez uma pergunta incómoda, é agora Presidente da Câmara de Vila Franca do Campo, nos Açores, e foi acusado de abuso de poder por ter concessionado a exploração de um restaurante a um irmão e ao marido de uma vereadora também do PS.

 

O ARCO DA VELHA - O Banco de Fomento, anunciado como crucial para a execução do PRR, viveu mais de 500 dias sem gestão de topo e há mais de meio ano que tem 33 candidaturas de PME’s à capitalização por analisar e que continuam sem resposta.

 

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MUITO PARA VER PELO PAÍS - Em época estival deixo algumas algumas sugestões fora de Lisboa. Começo por Coimbra. No Centro de Arte Contemporânea da cidade decorre, até 28 de Agosto, a exposição “Chegar à Boca da Noite”, título extraído de um verso do poema “Velas da memória”, de Ruy Belo. A exposição integra trabalhos de Aino Kannisto, Álvaro Lapa, Carlos Correia, Filipe Romão, Hugo Canoilas, João Jacinto, Jorge Queiroz, Rui Chafes e Sarah Jones, entre outros. A curadoria é de José Maçãs de Carvalho, a partir de obras da colecção de arte contemporânea do município coimbrão, da colecção de arte contemporânea do Estado e da colecção de fotografia do Novo Banco. Na imagem está uma peça de Rui Chafes, “Áspero Nobre Suicidário III”. De Coimbra um curto salto até à Figueira da Foz onde Luísa Ferreira regressa com novas fotografias, que surgem na continuidade do trabalho que ela fez há 20 anos, para a inauguração do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira, e a que então deu o título de “Luz para as Abadias”. Agora Luísa Ferreira fez uma nova série de imagens a que chamou “Luz para as Abadias 20 anos depois”, que está patente até 28 de Agosto,  retomando o território e as gentes da Figueira. Por último, e até 15 de Agosto, em Elvas, prossegue a exposição que celebra os 15 anos do Museu de Arte Contemporânea de Elvas. “Quem nos salva” é o título da exposição central, com obras da colecção António Cachola, mas há diversas outras exposições feitas em colaboração com dezenas de coleccionadores e galerias privadas de arte contemporânea, sob o título genérico “Aqui Somos Rede”. E finalmente, continuando fora de Lisboa, no Museu das Artes de Sintra, no Espaço Pedro Cabrita Reis, pode ver uma uma sala dedicada à obra do artista, dominada por um poderoso tríptico que evoca a paisagem de Sintra, intitulado “Uma Nuvem Negra”, concebido expressamente para o local, e que é acompanhado por duas outras pinturas que Cabrita ofereceu à colecção de arte do município.

 

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PERSISTÊNCIA - Por estes dias regressei a um livro que havia lido há muito, “Bartleby, O Escrivão”, de Herman Melville, o autor de “Moby Dick”. Mas este pequeno conto é bem diferente dessa epopeia da luta entre o homem e a natureza retratada em “Moby Dick”. “Bartleby, O Escrivão - Uma História de Wall Street”, de seu nome completo, é um conto que foi publicado anonimamente em 1853, em duas partes, na revista”Putnam’s Magazine”. Este texto é considerado por vários autores como uma das grandes obras da literatura mundial e é um claro exemplo do talento de Melville, que Harold Bloom considerou como um dos escritores mais importantes da língua inglesa,  “o mais shakespeariano dos nossos autores”. Bartleby, a personagem do conto, é um jovem com um ar triste que, inicialmente, ao ser contratado por um advogado como copista, realizava uma enorme quantidade de trabalho, ao ponto de viver no escritório, situação descoberta por acaso. Pouco depois há um dia em que recusa um pedido do patrão, afirmando, de forma suave, mas firme, que "preferia não o fazer” - frase que se torna a sua resposta a todas as questões que lhe são colocadas. A irredutível posição de Bartleby leva o patrão a mudar a localização do escritório, deixando-o sozinho no espaço, de onde se recusa a sair e de onde acaba por ser levado preso. Ainda hoje o conto surpreende e encanta, o seu final é inesperado, a narrativa é surpreendente. Não é por acaso que uma das mais famosas colunas regulares da revista "The Economist" tem por título “Bartleby”. Esta obra de Melville é  um tratado sobre como nos relacionamos, como nos encaramos uns aos outros e como procuramos afirmar a nossa existência.

 

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GUITARRA E PERCUSSÃO -  Steve Tibbets é um guitarrista de jazz norte-americano que tem a particularidade de fazer uma ligação entre a guitarra e a percussão verdadeiramente invulgar. Aliás um dos músicos mais presentes ao seu lado durante toda a carreira, ao vivo e em disco, é o percussionista Marc Anderson. E Tibbets, ele próprio, não hesita em assegurar também a percussão quando necessário. Ele costuma dizer que o seu trabalho está algures entre o jazz e a world music e essa é uma boa descrição. Entre 1981 e 2017 Tibbets gravou uma dezena de discos para a ECM e “Hellbound Train” é um duplo álbum que reúne trabalhos desses registos. “The best Steve could do” é como ele classifica a selecção de 28 temas que fez para esta colectânea. Os dois discos estão claramente divididos entre o lado electrónico e o lado acústico e contam com a participação de um leque alargado de mais de uma dezena de músicos. Além da grande sensibilidade rítmica, a técnica de guitarra de Steve Tibbets é também invulgar e ajuda a criar um ambiente musical único. “Hellbound Train” , uma bela introdução à música de Tibbets para quem a não conhecer, está disponível nas plataformas de streaming.

 

A BELA COURGETTE - Costumo ouvir dizer que o primeiro dia de Agosto é o primeiro do Inverno e este ano, salvaguardando o exagero, confirma-se a teoria de que o mês em que estamos é mais fresco. Por isso arrisco -me hoje a propôr um prato feito no forno, instrumento fatal no verão para cozinhas pequenas. A base de tudo isto está na courgette. Não vou falar de quantidades porque aqui o tamanho conta: uma courgette grande dará para várias pessoas, uma média para duas e uma pequena será um solitário exercício de prazer. Em qualquer das dimensões o primeiro passo é cortar a courgette ao meio, escavar o centro de forma a formar uma cratera que levará o recheio e, uma vez feito este trabalho manual, salgá-la para largar água e deixar a repousar pelo menos meia hora, levando-a ao forno de seguida durante um quarto de hora para que fique mais tenra. Retire-a e reserve, passado esse tempo. Entretanto pode cozinhar o molho, que levará pasta de tomate, gengibre ralado, pimenta, oregãos, cominhos em pó e alcaparras. Deixe cozinhar uns dez minutos em lume brando, adicione a carne picada (conte com uns 100 gramas por pessoa) e mantenha o lume brando durante mais 15 minutos, mexendo bem para a carne ficar envolvida no molho. Entretanto volte a aquecer o forno a 200 graus. Coloque este molho de carne nas cavidades abertas nas courgettes, polvilhe com queijo parmesão ralado na altura e leve de novo ao forno durante quinze a vinte minutos minutos. Acompanha com um vinho rosé para os impuros e tinto para os fundamentalistas.

 

DIXIT - “Quando olhamos para as enormes melhorias que a democracia portuguesa conseguiu no sector cultural, é difícil não ver nos museus um enorme falhanço” - Joaquim Oliveira Caetano, Director do Museu Nacional de Arte Antiga.

 

BACK TO BASICS - “Um segredo pode ser guardado por três pessoas desde que duas delas estejam mortas” - Benjamin Franklin.

 




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